Quando falta a tecnologia, sobram os prejuízos

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O Brasil tem se destacado como grande produtor de alimentos exportando grãos, carne e outros alimentos para muitos países no mundo. Hoje podemos crer que o Brasil se tornará em futuro próximo o maior fornecedor global de alimentos.
Isso tem acontecido graças a uma contribuição enorme da ciência e tecnologia para a agricultura brasileira. Não custa lembrar: o Brasil sempre teve Sol, água e calor, mas importou alimentos básicos até os anos 60, inclusive leite e carne. Depois, a tecnologia mudou o cenário.
Além dos alimentos, a agricultura brasileira é o sustentáculo da produção de papel e celulose, de combustíveis (etanol, biodiesel), de madeira, carvão usado na produção de ferro, já tem um peso importante na produção de energia elétrica e de produtos químicos. E a tendência é que a indústria utilize cada vez mais produtos da biomassa, como matérias-primas sustentáveis.
Mas ainda temos muito que avançar. O noticiário da última semana informa sobre uma grande quebra na colheita do milho safrinha, no Paraná. A “safrinha” faz hoje uma importantíssima contribuição para a produção brasileira de grãos, especialmente de milho. Essa notícia preocupa, porque a escassez de milho provoca aumentos de preços de alimentos de aves e de gado. Portanto, a quebra do milho safrinha nos permite antever mais um fator de pressão sobre a inflação – porque a escassez provoca aumento de preços. No segundo semestre de 2021, poderemos perceber aumentos no preço de carnes, frango e peixes. Quando então formos reclamar da inflação, lembremos também da quebra do milho safrinha.
E qual é a origem desse problema? Uma geada, que em julho deste ano afetou fortemente vários estados brasileiros, especialmente o Paraná. E porque sofremos com a geada, ela é um fenômeno irresistível, um castigo dos céus que não se pode prever, evitar, enfrentar? É uma catástrofe irresistível?
Afinal o Brasil tem uma longa experiência de grandes prejuízos devidos a geadas. A de 1918 provocou em São Paulo a destruição de cafezais e a morte de muitos animais por inanição, nos pastos destruídos pela geada. Em 1975, uma geada devastadora tirou do Paraná a posição de maior produtor de café do Brasil. Quem viajou pelo interior do Paraná naquela época viu extensas áreas de plantas enegrecidas. O que era motivo de orgulho e riqueza tornou-se fonte de miséria.
Por outro lado, as geadas também produzem efeitos benéficos em várias culturas, como a de trigo, centeio, triticale e videiras. Cada caso tem suas peculiaridades, dependendo do estágio de crescimento da planta.
E nesse tempo todo não se descobriu como evitar ou prevenir as consequências negativas da geada? Ao contrário, há uma extensa literatura científica sobre isso, com tecnologias bem estabelecidas cujos efeitos positivos e os riscos são bem conhecidos. Podemos ler textos muito ricos e detalhados nos sites da FAO e dá Embrapa, gratuitamente. Lendo, aprendendo e contando com a ajuda de boa ajuda técnica, evita-se prejuízos.
Como sempre acontece a melhor maneira disse escapar de um problema ou bom prejuízo é a prevenção que no caso da geada é feita de muitas formas, evitando o plantio em baixadas, fundo de vales e bacias hidrográficas com garganta estreita a jusante e outros locais em que as geadas são mais frequentes. Por quê? É porque nesses locais o ar frio, que é mais denso que o ar quente, se acumula contribuindo para abaixar a temperatura local. Deve-se também escolher cultivares das plantas resistentes, principalmente nas localidades sujeitas a geadas. Ao escolher uma variedade resistente o agricultor se beneficia de anos de trabalho de muitos geneticistas e melhoristas de plantas, feito em universidades, centros de pesquisas e empresas. No Brasil existe o Zoneamento Agrícola de Risco Climático, o Zarc que deve ser conhecido dos agricultores e deve ser respeitado, ao plantar. Desrespeitando o zoneamento, o agricultor perde direito ao seguro que poderia receber, pela perda da safra.
Mas às vezes outros fatores obrigam o agricultor a plantar fora de época, aumentando o risco de prejuízos pela geada. Isto aconteceu no Paraná neste ano: muito antes do plantio da segunda safra, a falta de chuvas retardou o plantio e o desenvolvimento da cultura de soja nos mesmos locais que seriam depois plantados com milho. O atraso na cultura da soja atrasou o plantio de milho que, feito fora de época, acabou expondo plantas ainda muito jovens à geada que as destruiu, ou prejudicou seriamente.
Mesmo nestas situações ainda é possível evitar ou impedir os prejuízos da geada, usando várias tecnologias: instalando quebra ventos, drenando o ar frio, aspergindo água sobre as plantas, o que impede a sua temperatura de ir abaixo de 0°. Também se pode adicionar calor à atmosfera, queimando um material combustível que aqueça as camadas de ar mais frias próximas à superfície, mantendo a temperatura do ar acima da temperatura crítica em que se forma a geada.
Entretanto, uma aplicação de todos esses métodos depende do conhecimento técnico e do domínio de muitos detalhes que afinal são importantes em qualquer tecnologia. Todos os que podem ser prejudicados pela geada devem aprender sobre ela e devem buscar o apoio dos técnicos, agrônomos e especialistas.
Muitas pessoas podem objetar: “mas isso pode custar caro demais e reduzir a lucratividade esperada”. A resposta é feita com outra pergunta: “Mas vai custar mais caro do que perder a produção, e o trabalho de meses?”
Muitos agricultores brasileiros já aplicaram e aplicam tecnologias efetivas e baratas de prevenção da geada. Uma que já foi usada com sucesso é a queima de serragem e de um pouco de óleo mineral em tambores abertos gerando calor e gás carbônico, o que provoca um efeito estufa local. Isso aquece o ar e reduz a emissão de radiação da Terra para o espaço, que resfria as plantas e contribui para a formação da geada. É desejável evitar a formação de fuligem que é uma óbvia causa de poluição atmosférica e bloqueia a incidência do Sol ao amanhecer, impedindo o rápido aquecimento da superfície da Terra.
`Mas é importante que o conhecimento e a prática de todos os recursos disponíveis para que se evitar problemas causados pelas geadas sejam usados em benefício de agricultores de consumidores, da Nação e dos que, no mundo todo, dependem dos alimentos que o Brasil exporta.

Para saber mais:

Sobre as geadas: http://www.fao.org/3/y7223e/y7223e00.htm e https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/541501/1/82182006p.2122.pdf
https://summitagro.estadao.com.br/noticias-do-campo/geadas-podem-beneficiar-culturas/

Zarc para o milho da segunda safra: https://neweseguros.com.br/novo-zarc-traz-mais-seguranca-para-milho-de-2a-safra/

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