Prometeu e os microplásticos

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Prometeu, um Titã da mitologia grega, foi severamente castigado por Zeus, por ter roubado o segredo do fogo do Olimpo, ensinando-o aos humanos. A Humanidade também tem sido castigada por usar o fogo, o que fazemos todos os dias, muitas vezes por dia, em toda a parte. O fogo queimou grandes líderes, como Joana D’Arc e Giovanni Bruno. Também destruiu o Museu Nacional no Rio de janeiro e causou pavorosos desastres, em todo o mundo.

Apesar de todas as mortes, perdas materiais e tragédias causadas pelo fogo, Prometeu foi cultuado pelos antigos gregos e associado a Atenas e Hefesto, os deuses gregos das habilidades criativas e da tecnologia. Mais tarde, foi imortalizado em maravilhosas pinturas e esculturas, que o destacam como benfeitor da Humanidade.

Outras culturas tiveram mitos semelhantes, como o mito védico de Matarisvan e o mito sumério de Enki. No século 19, o famosíssimo livro “Frankenstein”, de Mary Shelley, recebeu o subtítulo: “O Moderno Prometeu”. A autora retomou o mito de Prometeu, mas inspirada pela eletricidade que seria capaz de instilar vida em cadáveres. Hoje, a eletricidade ilumina cidades, permite que nos comuniquemos instantaneamente com pessoas de outras partes do planeta e também fora dele, está revolucionando os transportes e é usada nos desfibriladores cardíacos, que são equipamento obrigatório de ambulâncias. Mas também causou muitas mortes, acidentes e aparece frequentemente como a causadora de incêndios, como o do edifício Joelma ou o do centro de treinamento do Flamengo.

Apesar das tragédias e prejuízos causados pelo fogo e pela eletricidade, não existe nenhuma proposta global de eliminação do seu uso, porque fogo e eletricidade trouxeram enormes benefícios, que superam amplamente os problemas causados. O fogo desempenha um importante papel na fabricação de quase todos os metais importantes e a transformação de metais brutos em ferramentas, talheres, nas vigas que sustentam grandes edifícios e no aço usado nas construções feitas em concreto também depende de fogo, muito fogo. A fabricação de vidro, cimento, de tijolos, ladrilhos, louças e porcelanas também requer as altas temperaturas que o fogo produz.

O fogo é amplamente usado na produção de eletricidade, nas usinas termoelétricas que queimam carvão, petróleo, gás, bagaço de cana ou qualquer outro combustível. Isso contribui para as emissões de CO2 e estimula os avanços das fontes renováveis de energia, como a energia solar e a eólica. Mas a fabricação do silício das células solares e das fibras de vidro ou de carbono das pás dos geradores eólicos consome grandes quantidades de energia. O vidro usado para fazer as fibras é rico em alumínio, sendo fabricado em temperaturas mais altas que os vidros mais comuns. A produção de fibras de carbono de alto desempenho também inclui etapas executadas em temperaturas muito elevadas.

Portanto, fabricar e descartar os materiais usados nas células solares e no armazenamento da energia solar ou eólica também provoca emissões de CO2. Como essas emissões ocorrem longe das vistas da maioria das pessoas, usamos a expressão “energia limpa” para as energias solar, eólica e outras alternativas aos combustíveis. Mas a fabricação dos equipamentos de “energia limpa” produz CO2, e outros impactos ambientais.

Para tratar desses problemas com responsabilidade, pesquisadores e engenheiros fazem análises dos impactos produzidos durante todo o ciclo de vida de um produto, a “Life Cycle Impact Analysis”. Essas análises não são simples, porque dependem de muitos dados de eficiências e rendimentos de vários processos industriais, incluindo despesas de transporte e armazenagem, custos financeiros, etc. Por isso, escolher entre duas ou mais soluções para um problema exige uma visão holística.

Muitos pesquisadores e engenheiros estão ocupados em comparar os impactos causados pela fabricação e uso de carros elétricos e de motores de combustão interna. Por exemplo, uma análise feita pelos pesquisadores italianos P. Girardi e P. C. Brambilla mostrou que os veículos elétricos emitem menos gases de efeito estufa do que os veículos com motores a combustão, durante toda a sua fabricação, uso e descarte. Entretanto, os veículos a combustão saem-se melhor, nos quesitos poluição de águas e toxicidade para seres humanos.

Infelizmente, vários cientistas e jornalistas ainda abordam problemas importantes olhando apenas um ou outro aspecto do problema, e não o seu conjunto. Um exemplo atual é o dos microplásticos, que são pequenas partículas de plásticos e borrachas encontradas em muitos ambientes e que já foram identificadas em seres vivos, inclusive humanos. Uma importante fonte industrial de microplásticos já foi banida, mas eles podem resultar da fragmentação de qualquer plástico ou borracha, seja durante o uso, seja durante a sua degradação no meio ambiente. Sem dúvida, a produção, destino e consequências dos microplásticos deve ser bem investigada, para que se conheça os riscos que ele podem criar. Mas mesmo sabendo-se muito pouco, já surgiram propostas de um puro e simples banimento de todos os plásticos ou de moratórias de sua fabricação.

Mas há evidências importantes que estão sendo ignoradas pelos alarmistas. Por exemplo: uma importante fonte de microplásticos são as partículas formadas no desgaste de pneus e de asfalto, nas rodovias. Essas partículas vêm sendo emitidas há mais de um século, desde que começou a disseminação do automóvel, portanto temos mais de um século de convivência com elas. Durante todo esse tempo, a expectativa de vida de seres humanos aumentou de 46 (homens) e 48 (mulheres) anos para 76 e 83 anos e os índices de desenvolvimento humano (HDI) cresceram, em toda a parte. Esse progresso foi paralelo ao crescimento do uso de automóvel e asfalto, em todo o mundo, emitindo cada vez mais partículas.

Pior, as propostas de banimento foram apresentadas sem considerar quais problemas surgirão, se for impossível usar plásticos e borrachas. Por isso, são tão pouco razoáveis quanto uma proposta de banimento do fogo, para acabar com as mortes em incêndios, ou de automóveis, para eliminarmos qualquer risco de morte, invalidez e de prejuízo material que um veículo sempre pode causar.

Imaginemos o que seria tratar de pessoas em hospitais, ou vacinar bilhões de pessoas em todo o mundo, sem poder usar plásticos. Também podemos lembrar de como se armazenava e embalava comida nos empórios e “vendas” que existiam antes dos supermercados, e da frequência com que dejetos de ratos ou restos de insetos eram encontrados nos alimentos. Ainda podemos pensar em como a água potável era inacessível a populações pobres, antes do PVC. Os exemplos são muitos e podemos encontrá-los a cada momento, basta olhar ao redor.

Muito da melhoria de qualidade de vida conseguida no último século vem da existência e disponibilidade de plásticos e borrachas. Sim, eles também criam problemas, mas resolvem muitos outros. Portanto, precisamos de análises maduras dos riscos e benefícios, e de tecnologias para eliminar os riscos e aumentar benefícios. Quando os riscos se tornam grandes demais, como no caso da energia nuclear, abandona-se a tecnologia – o que vem acontecendo em todo o mundo, principalmente após os grandes desastres de Chernobyl e Fukushima.

Por outro lado, os desastres que ocorreram em Bophal e Seveso, no âmbito da indústria química, provocaram grandes mudanças de atitude e de tecnologia que permitiram à indústria química continuar crescendo acentuadamente, ao contrário da hoje moribunda indústria de energia nuclear.

Muitas tecnologias estão sendo criadas para se eliminar os descartes de plásticos no ambiente, que é uma importante fonte de microplásticos. Mais que isso, muitas empresas estão aumentando seus ganhos, justamente criando formas de reciclar e reaproveitar plásticos, aumentando os seus benefícios e reduzindo a produção de microplásticos.

O mítico Prometeu nos ensinou a usar o fogo. Ao longo dos séculos, muitos outros Prometeus, que são pesquisadores, engenheiros e técnicos, descobriram tecnologias e produtos novos, incorporando benefícios e também riscos às nossas vidas. Algumas tecnologias e produtos tiveram de ser abandonados, porque criaram problemas graves e insolúveis. Mas quando a engenhosidade e inteligência dos Prometeus humanos reduziu ou eliminou os riscos, suas tecnologias floresceram.

Conclusão: é fácil criar alarme, denunciar, criar manchetes e preocupar pessoas, apontando os riscos de produtos industriais. Ao contrário, reconhecer problemas, trabalhar para a sua solução, contribuir para a melhoria de qualidade de vida das pessoas, e do meio-ambiente, é mais trabalhoso, exige esforço e não proporciona tanta fama. Mas é o que produz as soluções.

Para saber mais:
Os pesquisadores italianos citados no texto são Pierpaolo Girardi e Paola Cristina Brambilla, que publicaram o trabalho Electric Cars vs Diesel and Gasoline: A Comparative LCA Ranging from Micro-Car to Family Car na revista Modern Environmental Science and Engineering de fevereiro de 2019, volume 5, páginas 125-136. Doi: 10.15341/mese(2333-2581)/02.05.2019/002.
Há muitas publicações sobre esse assunto na literatura, com conclusões que nem sempre são convergentes. Mas é da discussão que nasce a luz.

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