Desindustrializado e com pouca tecnologia, o Brasil sofre com a pandemia

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A posição do Brasil nas estatísticas globais da atual pandemia causa vergonha e revolta. São muitas mortes, muitos doentes, muitas sequelas, muitos gastos, muita irresponsabilidade e muita ignorância.
Dos cinco BRICS, três são ativos produtores de vacinas, vendendo-as a quem mais lhes interessa e colhendo generosos resultados, estratégicos e econômicos. Conseguem produzir porque têm poderosas infraestruturas industriais, que mobilizam para fazer os insumos das vacinas, as embalagens, os equipamentos para sua produção e todos os elementos de uma extensa cadeia industrial. Além disso, produzem respiradores e também os materiais usados para fazer seringas, tubos, máscaras, tudo o que vemos diariamente nas imagens de UTIs, enfermarias, tendas de hospitais de campanha e de vacinação, enfim: tudo que tem de ser usado no tratamento dos pacientes e na segurança das equipes de atendimento.
Para conseguirem fazer tudo isso, os três países detêm tecnologias, muitas tecnologias. São capazes de operá-las com competência, eficiência e economicidade. Isso exige pessoal bem preparado, que conheça os conteúdos, tenha espírito crítico para avalia-los e tenha energia para transformar seu conhecimento nos produtos necessários à vida. No século 21, a capacidade de criar tecnologias e de apropriar-se de tecnologias existentes e implementá-las, tal como a Rússia, Índia e China fizeram, fazem e continuarão a fazer no futuro próximo, depende do domínio da Ciência. Mais que isso, depende da capacidade de produzir nova ciência, que vai embasar as novas tecnologias. No Brasil, temos gasto um tempo enorme discutindo a importância da ciência básica e a necessidade da ciência aplicada. Esquecemos do que disse Pasteur, em um congresso de viticultura e vinicultura: “Il n’existe pas de sciences appliquées, mais seulement des applications de la science. (Não há ciências aplicadas, mas apenas as aplicações de ciência.)” A ciência avança o tempo todo e os seus frutos pertencem aos que a fazem avançar, sendo também são capazes de aplica-la.
Quando estudante, estagiei durante minhas férias de verão com um grande químico, Ney Galvão da Silva. Ele era então o presidente de uma empresa que fabricava tetraciclina, para um dos grandes laboratórios farmacêuticos da época. E dele ouvi uma frase inesquecível: Temos de conseguir produzir tecnologia, embora nunca vamos conseguir deter todas as tecnologias de que precisamos. Quem tem tecnologias consegue as outras de que precisa, muito mais barato do que se for pagar em dinheiro.
No Brasil, temos falado muito sobre tecnologia e inovação, mas temos feito pouco. E o resultado é a pouca capacidade de termos aquilo de que precisamos, nesta guerra contra um vírus. Por que isso acontece? Uma das razões é a desindustrialização do país, causada pela mal-disfarçada hostilidade de diferentes governantes, federais, estaduais e municipais, representando todo o espectro político, às atividades industriais. A desindustrialização vem vindo há décadas e tem sido debatida por economistas que, tal como os governantes que mencionei acima, também representam todo o espectro político. Infelizmente, os debatedores mostram mais empenho em criticar os governantes e economistas do campo político oposto do que em encontrar soluções objetivas. E isso nos prejudica a todos, empobrecendo e incapacitando o País.
Pior ainda, a sociedade mostra poucos sinais de uma articulação entre atores importantes para a produção industrial: os que são responsáveis pela formação de novas gerações, os que fabricam (ou poderiam fabricar) os produtos demandados pela sociedade, os que são capazes de criar novas tecnologias, os que trabalham para criar nova ciência. Isto é: professores, empresários, engenheiros, técnicos e cientistas. Em cada um desses grupos encontramos poucas pessoas dispostas a conhecer os outros, conhecer suas necessidades, entender seus interesses e disporem-se a trabalhar juntos. Também aqui, muitos fazem belos discursos em público, mas colocam seus próprios interesses sempre acima do bem comum. Infelizmente, são poucos os bons exemplos de ação consequente.
A Constituição brasileira defende com vigor os direitos das pessoas, de cada pessoa. Juízes julgam segundo a Constituição, mas temos de nos perguntar se temos os meios para atender a cada demanda, a cada problema.
A pandemia tem sido pródiga em lições amargas, mas não podemos simplesmente reclamar dessas lições e clamar contra elas. Temos de procurar aprender, se quisermos avançar ao invés de simplesmente produzir argumentos de autodefesa. O necessário isolamento social cria inúmeras oportunidades de ler, ouvir e ver outras pessoas, conhecendo seus anseios, expectativas, demandas e as contribuições que elas podem dar. Podemos perceber em que medida isso complementa nossos próprios anseios, expectativas, demandas e capacidade de contribuir. Como disse Spinoza: “No matter how thin you slice it, there will always be two sides. (Não importa quão finamente você fatie, sempre haverá dois lados).
No mundo da tecnologia e da produção, todos devem estar atentos a todos. O fabricante depende do cliente, mas o cliente também depende do fabricante. O trabalhador na bancada depende do supervisor, do engenheiro, do pessoal de marketing e dos gestores, que também dependem do chão-de-fábrica. Não existe programa governamental ou privado, mesmo com orçamentos generosos, que substitua a vontade de convergir, de trabalhar junto por objetivos que realmente valem a pena. Nesse mundo, personalismos, espertezas pouco éticas e desrespeitos não ajudam. Uma esperteza egoísta, um abuso, podem até produzir algum resultado miúdo durante pouco tempo, mas são contrários à confiança mútua essencial à construção e atuação das equipes capazes de produzirem resultados importantes, de alcançarem grandes objetivos.
É impossível produzir com qualidade, se o trabalho nas fábricas não é feito por pessoas imbuídas de conhecimento e de responsabilidade, qualquer que seja a sua função. É impossível criar tecnologias vencedoras, se os resultados dos pesquisadores não forem verificados por outros pesquisadores e se não forem escalonados, passando das pequenas quantidades e amostras feitas em laboratório aos milhares e milhões de unidades ou de toneladas de produto. E sem essas muitas unidades e toneladas, não há como atender aos direitos assegurados pela Constituição.
Na pandemia, todos clamamos pelos nossos direitos, ou pelo que achamos que são os nossos direitos. Mas podemos aproveitar o tempo para também afirmarmos e praticarmos o que quer que possamos fazer para melhorar a situação geral. Lembrando do discurso de posse de Kennedy, há mais de sessenta anos: “…ask not what your country can do for you–ask what you can do for your country.”
Gente precisa de produtos, que são feitos com tecnologia, que é produzida por gente. Se houver gente capaz, trabalhando em equipes bem focalizadas em objetivos importantes, teremos as tecnologias e os seus produtos, para o bem estar geral. Esta é uma corrente de muitos elos e nenhuma corrente é mais forte que o seu elo mais fraco. Cuidando de cada elo, sofreremos menos, seja com a pandemia, seja com a dengue, câncer, fome, secas, inundações e os muitos tipos de crises com que a humanidade convive, desde sempre. E seremos mais felizes.

Para saber mais
Desindustrialização
Opinião de um professor de economia
https://www3.eco.unicamp.br/cede/centro/146-destaque/508-desindustrializacao-no-brasil-e-real-e-estrutural#:~:text=Nos%20anos%201980%20o%20peso,de%2065%20bilh%C3%B5es%20de%20d%C3%B3lares.
Opinião de um dirigente da indústria
https://noticias.portaldaindustria.com.br/artigos/robson-braga-de-andrade/desindustrializacao-pode-tornar-brasil-a-roca-do-mundo/

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