Ocorrido no Ministério

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Encontro de amigos
— Mais uma vez parabéns Varela! Você é o ultimo dos que completaram a primeira turma do curso de Economia na FAECO-Santo André. Setenta anos de formado não é para qualquer um.
Essa afirmação Mituo fazia ao amigo naquela mesinha de bar, em Rudge Ramos-São Bernardo do Campo, saboreando pãezinhos de queijo com café. Tinham se encontrado por acaso. Eles descobriram ser na mesma farmácia onde ambos compravam seus remédios do dia a dia.
— Você em breve também chegará aos setenta anos de formado, Mituo. Com este seu preparo físico e esta saúde chegará longe, tenho certeza.
A conversa se prolongou. Mataram as saudades dos tempos já idos. Cada um trazia a recordação de alguém ou de algum fato que os faziam dar ruidosas gargalhadas. Pareciam dois colegiais contando um para o outro as aventuras vividas e ao serem relembradas vinham como ondas de risos misturados com nostalgia. Assim o tempo passou sem ser percebido.

No Ministério
A certa altura da conversa, os dois já se preparavam para ir cada um para sua casa, quando Varela resolve contar um fato que naquela manhã tinha recordado.
— Hoje ao levantar me recordei de um caso ocorrido comigo, na época em que trabalhava em Brasília.
¬ — Pois conte homem, temos muito tempo ainda.
— Você sabe Mituo, de meu trabalho por longos anos lá em Brasília, durante a vigência do regime militar. Fazíamos parte da equipe técnica atuando nos Ministérios da Fazenda e em outros momentos no Ministério do Planejamento. Foi uma época muito boa para todos nós que tínhamos aprendido na GE a filosofia e as técnicas do então BTC (rebatizado depois para FMP). Éramos muito valorizados pelo núcleo político do governo, principalmente nestes dois ministérios que tratavam das finanças do país e dos controles, tanto dos orçamentos públicos como da política monetária. Nós, atuando em conjunto com a equipe do Banco Central tínhamos responsabilidades que ainda hoje, muito me orgulham de termos sido colaboradores dos guardiões das finanças do Brasil daquela época.
— Nosso trabalho era técnico, na essência — continua Varela. Não opinávamos sobre decisões políticas. Apenas fazíamos nosso trabalho e algumas simulações dependendo do assunto, mostrando alternativas factíveis a serem possivelmente implantadas. Nossas opiniões ou sugestões eram largamente discutidas, testadas e analisadas antes de serem levadas à pratica, pelos ministros das pastas a que pertencíamos. Durante muitos anos, o Ministro Delfim Netto ou outro das áreas econômicas conversava muito com nossa equipe antes de fazer qualquer tipo de pronunciamento à nação ou de implantar alguma legislação que iria impactar a vida comum de todos os brasileiros. Nós éramos o que hoje se denomina “Equipe de Back Office” da área financeira do governo federal. Lá aprendi muito sobre Finanças Públicas, Contabilidade Nacional, Orçamento Fiscal e Monetário, Cambial e de outras funções. Muita gente trabalhou conosco naquela época. Admiti funcionários de todos os naipes e tipos e, pasme você — muitos estagiários de Economia passaram por minhas mãos. Eu até poderia dizer que alguns dos futuros dirigentes do Banco Central, do Ministério da Fazenda ou do Planejamento foram entrevistados e admitidos por mim.
– Amigo Mituo, eu faço uso deste preâmbulo, na intenção de contar o fato que me veio à memória na manhã de hoje. Lá vai…
— Certa ocasião estava para contratar um profissional com formação em Matemática, ter conhecimentos de Economia, Estatística e Contabilidade Publica. O salário era bom, o valor estava em aberto, e cada caso deveria ser analisado conforme potencialidades do candidato. Era para uma função técnica de alto nível.
— Após muitas triagens preliminares tinham ficado três candidatos para minha escolha, pois ele iria trabalhar em minha área. Conversei pessoalmente com cada um deles e após minuciosa avaliação verifiquei estarem os três nas mesmas condições em termos de capacidade, conhecimento e prontos para serem admitidos. Ficou marcada para o dia seguinte uma última conversa, onde o assunto seria somente sobre o salário que solicitavam, ou seja, o quanto cada um gostaria de ganhar.
— O primeiro diz: “Bem, R$ 6.000,00 por mês, tá de bom tamanho?” (transcrevo em dinheiro de hoje para facilitar comparação). A proposta vinha de um Economista, bom em Matemática e com amplos conhecimentos de Contabilidade Pública, formado pela Unicamp.
— O segundo diz: “Que tal R$ 12.000,00 por mês?” Esta proposta vinha de um carioca formado na UERJ em Economia.
— O terceiro diz: “Acho que podemos chegar a R$ 30.000,00 por mês”. Este era um cearense, com pós-graduação na Fundação Getúlio Vargas e vários MBA no currículo.
— Acredite Mituo, fiquei abismado com a ousadia apresentada por este terceiro candidato, ao pleitear um valor tão alto e fora de mercado. Não aguentei e disse a ele: “Você sabia que um especialista no cargo aceitaria trabalhar por R$ 6.000,00 por mês?”. Ao que ele prontamente responde:
“Eu já previa isto. Pensei em R$ 12.000,00 para mim, R$ 12.000,00 para você e R$ 6.000,00 para o especialista conhecedor do assunto que faria para nós todo o trabalho.”

… Mituo interrompe a narrativa antes das palavras finais do amigo, alegando pressa, acena e sai rapidamente, não ouvindo o final da narrativa. Se vendo sozinho, Varela tem a impressão de que a história ficou sem um desfecho final. Pensa em encontrar-se novamente com o Mituo. O amigo pareceu achar que fez a conhecida “rachadinha”.

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