O jogador de xadrez

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— Senhoras e senhores, o novo campeão desta temporada é Luiz Aurélio. — Dizia o dirigente—coordenador do campeonato estadual de xadrez.
Eu ouvia isso anestesiado de alegria. A emoção transbordava por todos meus poros. Suava frio, aquilo tinha sido muito forte, mexia com meus sentimentos. Meu caminho até essa vitória tinha sido longo. Foram anos e anos de estudos, práticas e mais práticas. Valeu a pena. Eu era, finalmente, o campeão paulista.
Lembro-me de como tudo começou. Fazem mais de trinta anos daquela experiência engraçada e de aparência inocente e que viria mudar em muito minha vida no xadrez.
II
Estávamos numa grande sala servindo de ambiente de trabalho, na empresa onde trabalhávamos. Éramos em grande número, acho que umas trinta pessoas, trabalhando num departamento de Custos e de Orçamentos. Não havia ainda os computadores que tanto facilitam, hoje, a vida dos funcionários neste tipo de atividade, facilitam sim, mas também tiraram o emprego de tanta gente. Os trinta funcionários daquela época, hoje seriam no máximo cinco ou seis pessoas — e fazendo muito mais rápido e melhor.
Eu fazia parte daquele time. Fiquei lá por dois anos, antes de seguir para novas posições na estrutura daquela empresa.
Tínhamos uma hora de almoço. Almoçávamos rapidamente em vinte minutos e ainda tínhamos mais de meia hora para jogar xadrez, alguns estudar e outros cochilarem. O grupo dos que jogavam xadrez era grande, com dois ou três que jogavam relativamente bem. A grande maioria jogava por diversão e para matar o tempo. Eu não conhecia este jogo. Fui conhecer lá.
Tinha passado por ali o Miro (Miroslaw Leon Baranowski), um colega bem mais velho, que era fã do campeão mundial daquela época: Um soviético chamado Mikhail Botvinnik. O Miro que era polonês, falava muito dele, sobre suas técnicas de jogo, seus estudos de xadrez e que na União Soviética o xadrez era um esporte nacional, onde os jogadores eram profissionais. Suas conversas eram interessantes, e sempre traziam mais interessados no gosto pelo xadrez e de como jogar cada vez melhor.
Tinha outro colega, chamado Antonio que jogava relativamente bem, leu e estudou o manual de xadrez de Emanuel Lasker, outros livros de xadrez, revistas argentinas e era fã confesso de um jogador cubano já falecido, na época, de nome José Raúl Capablanca. Para ele, o Capablanca teria sido o melhor enxadrista de todos os tempos.
A propósito, gostaria de apresentar uma pessoa original e sui generis que lá havia. Era amigável com todos, excessivamente vaidoso, papudo e alguém que não media palavras quando era para “tirar o sarro” de adversários que ele vencia. Era o João Gomes. Nas últimas semanas ele tinha endereçado suas gozações para a minha pessoa e isso estava me incomodando. O João jogava melhor, mas tínhamos feito bons jogos e alguns dos últimos tinham sido parelha.
Esse era o ambiente daquela sala de trabalho, onde convivíamos diariamente. Afora assuntos de trabalho, tínhamos uma intensa vida durante os poucos momentos restantes do almoço diário. O grupinho que gostava de jogar xadrez chegava a umas dez pessoas. Depois de algum tempo, onde o aprendizado era feito, todos aprendiam à custa de derrotas e mais derrotas. Lá também aprendi algo sobre a natureza humana, — ninguém gosta de perder… e a derrota só era admitida no início. Depois todo mundo só esperava vencer e vencer sempre.
Lembro-me ainda muito bem. Foi logo após eu ter aprendido o jogo e estar participando de um pequeno campeonato de xadrez de nossa seção. Tinha regras estabelecidas, tinha uma tabela e um placar onde se podia ver a posição de cada um. Tudo muito bem organizado.
Eu estivera em férias e tinha voltado justo naquela semana. Naquele memorável dia, principalmente para mim, em pleno campeonato oficial de nossa seção. O João vinha aumentando o nível das gozações contra mim e me desafiava a provar no tabuleiro de que ele não era tão bom como dizia.
Matutei um bom tempo e momentos após coloquei em prática um plano.
Desafiei o João para uma partida naquele dia. Eu já estava fazendo duas partidas diárias, visando colocar em dia o atraso na tabela do campeonato, devido minhas férias. Informei a ele que iria fazer uma partida simultânea com ele e a outra com o Antonio, ambas atrasadas. Ele concordou, achou que seria mais fácil ganhar de mim. Fiz minha segunda imposição para ele, afirmei que jogaria com as brancas, sabendo que o Antonio também jogaria com as brancas contra mim. Ele novamente não se opôs.
Utilizei uma técnica que hoje, não consigo imaginar como deu certo. Mas, tinha dado naquele dia. Os dois jogos foram rápidos e tiveram esta sequencia até o 6º lance.
Notação Algébrica
Brancas–Luiz Negras- João
1 e4 d5
2 Cf3 d5 x e4
3 Cg5 Dd5
4 d3 e4 x d3
5 B x d3 D x g2
6 Be4 João pensa 10 minutos e abandona
Eu tinha conseguido! O João abandonou no 6º lance após perder a Dama e não ter mais condições de recuperar. Ainda tenho anotado todos esses lances na memória. Aquilo tinha sido minha revanche e minha vingança. A minha partida com o Antonio se estendeu por mais alguns minutos e acabei perdendo para ele. Tudo bem… Era normal. Minha grande vitória aconteceu no tabuleiro com o João.
Apenas um dos assistentes, conhecido por Zézinho percebeu minha técnica, que passo a detalhar a sequência.
O Antonio, com as brancas, fez o primeiro lance, avançando o peão para casa e4 do Rei. Não respondi e fui para o tabuleiro com o João. Fiz o mesmo lance contra ele. Esperei a resposta dele que foi o avanço do peão da Dama para casa d5.
Voltei ao tabuleiro do Antonio e joguei peão em d5, igual lance do João. Esperei a resposta dele que foi sair Cavalo para casa f3. Não respondi e fui para o jogo com João e repeti o lance de Cavalo em f3. Como feito anteriormente, esperei sua resposta que foi peão tomando peão em e4.
E assim fui fazendo, sempre de modo discreto, para não chamar a atenção. Ou seja, respondia ao João com a mesma jogada que recebia no tabuleiro com o Antonio. Minha estratégia tinha sido copiar todos os lances de meu forte adversário do outro tabuleiro.
Podemos ver as pretas, na ânsia de ganhar peças, entra numa arapuca e cai vítima de cavalo e bispo inimigo e é capturada. Forçando as negras a abandonarem a partida, sem condições de reverter o prejuízo. O João ficou arrasado em ter de admitir a derrota. A gozação no local era geral. Ele tinha provado de seu próprio veneno.
A partida com o Antonio continuou três ou quatro lances adiante, assim que tomei um mate.
Todos estes lances passaram despercebidos por todos os presentes, somente eu e o Zézinho sabíamos o que se passava. Ganhei do João, devolvendo muitas gozações e notei que a partir daquele dia passei a ser respeitado por ele.
Depois daquele dia, aliás, todos os dias seguintes, ele me desafiava e pedia uma revanche. Queria fazer uma negra para confirmar o resultado. Minhas respostas para ele eram sempre a mesma: Não Tenho tempo, infelizmente.
III
Hoje, após ganhar o campeonato estadual, fruto de muito estudo, muito treinamento e de muita dedicação, lembro-me daquela época de aprendizado e brincadeiras. Aquela situação, sim estava me preparando para ser em breve um veterano no xadrez.

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