Paracelso, remédios e venenos

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“A dose faz o veneno”. Qualquer pessoa já teve a oportunidade de verificar em si mesma a verdade dessa frase. Por exemplo, alimentos são essenciais, precisamos comer para preservar saúde, bem estar e a própria vida. Mas comer demais faz muito mal. Precisamos ingerir água, todos os dias, mas água demais é prejudicial. Homens adultos devem ingerir cerca de 3,7 litros por dia (incluindo a água contida em todos os alimentos e bebidas) e mulheres precisam de menos, 2,7 litros. E o que acontece se ingerirmos muita água, em pouco tempo? Nossos rins conseguem processar cerca de um litro de água por hora. Ingerindo quantidades excessivas de água, esta se acumula no sangue e tecidos, diluindo os íons sódio e intoxicando a pessoa. Isso pode acontecer: uma menina de 9 anos ingeriu 3,6 litros de água em menos de duas horas, e passou mal.
A descoberta da importância da dose, da quantidade de medicamentos que uma pessoa ingere é atribuída a Paracelso, um importante personagem nas transformações da alquimia que deram origem à Química. Ele pertenceu a um grupo de grandes personagens do Renascimento, juntamente com Andreas Vesalius, Nicolau Copérnico e Georgius Agricola. Seu nome verdadeiro era Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim, suíço-alemão. Foi médico, alquimista, “filósofo natural”, astrólogo e ocultista. Criou o nome “zinco” para um metal que faz parte de nossas vidas, é essencial ao funcionamento do organismo humano e está presente em todas as casas.
Foi um personagem complexo e cheio de contradições, mas deixou um importante legado. Ele é considerado por muitos como um reformador do uso medicamentos e fundador da Bioquímica e da Toxicologia. Por outro lado, também manteve uma aura de místico e a reputação de mago. Ensinou que não existe nada que não tenha propriedades de veneno. O que transforma qualquer coisa em um veneno é a dose. Esse ensinamento foi aprendido por muitas pessoas. Hoje sabemos muito bem que não devemos ingerir alimentos em excesso. E alguns alimentos importantes são cuidadosamente controlados ou mesmo evitados por muitas pessoas. Por exemplo, os pacientes de gota restringem a ingestão de carne e de outras fontes de nitrogênio, quando percebem os dolorosos sintomas dessa doença. A ingestão de proteínas é essencial para qualquer pessoa, mas é preciso restringi-la nessas ocasiões, para evitar dores que limitam ou impedem a locomoção.
No caso dos medicamentos, só os irresponsáveis recomendam o uso de um outro remédio sem atentarem à dose que deverá ser usada. Uma receita médica especifica a dose e também a periodicidade da ingestão. Uso de doses excessivas, ou “overdose”, pode matar, e já matou muitas pessoas.
Apesar de tudo que se sabe a esse respeito, muitos parecem ignorar que qualquer substância pode ser benéfica ou prejudicial, dependendo da quantidade e do meio, o ambiente em que se encontra, o que cria grande confusão e produz decisões equivocadas.
Há muitos anos observo com cuidado o que se diz sobre fosfato e fico preocupado ao ler que “fosfato é poluente”. Nossos corpos contêm muito fosfato, de muitas formas: como um fosfato de cálcio, é o principal componente de nossos ossos e dentes. DNA e RNA são muito ricos em fosfato, que tem papel fundamental na formação, manutenção e funcionamento das suas moléculas. O ATP, adenosina trifosfato, é uma molécula famosíssima, responsável pelo fornecimento de energia para muitas muitos processos celulares. As caseínas, que predominam entre as proteínas do leite humano e de outras espécies é uma fosfoproteína, isto é: suas moléculas contêm fosfato. Plantas não crescem se não forem nutridas com fosfato. Por essa razão, o principal fertilizante usado em agricultura é o NPK, no qual o P se refere a fósforo, elemento formador de fosfatos. Os agricultores que utilizam terra vegetal, produtos de compostagem, pós de rocha e farinha de ossos no lugar de NPK também fornecem fosfato aos seus cultivos.
Portanto, fosfatos fazem parte de cada ser vivo, são absolutamente essenciais. Como podem ser poluentes? O problema surgiu devido ao despejo de efluentes e, principalmente, de esgoto, em rios, lagos e no mar. O esgoto de uma cidade carrega os dejetos de todos os seus habitantes. Urina contém fosfato, excretado em quantidades significativas: 700 a 900 mg por dia, por pessoa. O total excretado por um adulto saudável é de cerca de 1,8 g por dia. Portanto, cada milhão de pessoas elimina 1,8 toneladas de fosfato, por dia. Em lugares civilizados, todo esse fosfato é recolhido nas estações de tratamento de esgotos, mas nos lugares em que a população não prioriza a salubridade do seu ambiente, o fosfato vai para os cursos de água.
Lá, ele é recolhido por micro-organismos, por plantas, fungos e animais, acelerando seu crescimento. Mas o grande florescimento de plantas aquáticas acaba produzindo grandes massas vegetais mortas – porque as plantas aquáticas também morrem – povoadas por micro-organismos que se alimentam dos restos das plantas e os transformam nas substâncias químicas que lhes interessam. Infelizmente, algumas destas substâncias cheiram muito mal e assim produz-se vergonhosas situações de degradação do meio ambiente. No Brasil, encontramos os exemplos em toda a parte, inclusive nas maiores cidades e nas represas. Criadas para produzir energia, armazenar água para o consumo humano e permitir a prática de pesca e esportes aquáticos, muitas foram transformadas em imensas cloacas. Por isso, brasileiros fazem passeios de barco em rios e lagos próximos a grandes cidades – no Exterior.
Diante de catástrofes como os recentes apagões de abastecimento de água no Rio de Janeiro, políticos do tipo “o que eu posso fazer?” buscam um culpado fácil – e frequentemente a culpa cai no fosfato. Assim, a falta de discernimento e de responsabilidade, por parte de populações pouco instruídas e de seus dirigentes ineptos, transforma uma substância absolutamente essencial em um poluente, destruidor do meio ambiente.
Como a ignorância não é um privilégio dos não-diplomados, há muitos outros exemplos do desconhecimento do que Paracelso ensinou. Dias atrás, li duas páginas escritas por um médico, atribuindo ao flúor grandes males. Apenas males, nenhum benefício. É importante notar: nessas duas páginas, não encontrei uma única menção a quantidades, ou doses, ou contextos. Quando encontro um texto assim, sei que o autor acredita que as substâncias químicas que formam absolutamente tudo, no nosso mundo, se dividem em substâncias boas e más. Não aprenderam que a diferença entre remédio ou alimento, e veneno, está na quantidade, na dose. E acabam cometendo grandes erros.
Qualquer tecnologia viável depende de muita atenção às quantidades usadas, de qualquer um dos seus insumos – materiais ou virtuais. Quem ignora isso sofre com as consequências, e produz sofrimentos nos outros.

Fonte: https://citacoes.in/autores/paracelso/

necessidade de água:
https://www.mayoclinic.org/healthy-lifestyle/nutrition-and-healthy-eating/in-depth/water/art-20044256#:~:text=The%20U.S.%20National%20Academies%20of,fluids%20a%20day%20for%20women

Sobre Paracelso:
https://www.mayoclinic.org/healthy-lifestyle/nutrition-and-healthy-eating/in-depth/water/art-20044256#:~:text=The%20U.S.%20National%20Academies%20of,fluids%20a%20day%20for%20women

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