Encontro na Tijuca

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— Bom dia Rubens! Muito calor, não?
Mario Costa tinha chegado sozinho ao escritório de traduções do Rubens Estrella na Barra da Tijuca.
Rubens estava sozinho no inicio daquela tarde quente do Rio de Janeiro. O mormaço aumentava em muito a temperatura real medida pelos termômetros espalhados pela cidade, que já era alta para os padrões da época. Ele aguardava o retorno do motoboy que tinha ido ao cliente chinês que encomendara uma tradução juramentada de contratos comerciais de uma grande corporação alemã. Ultimamente, a receita principal de seu escritório vinha saindo de suas traduções do mandarim chinês. Hoje já era um dos preferidos dos grandes conglomerados chineses, quer fossem governamentais ou da iniciativa privada. A Ásia crescia se comparada com o mercado norte-americano; já tinha serviços em coreano, russo e uma grande maioria de origem chinesa. Não tinha do que se queixar.
— Ora, ora, veja só quem aparece. Alguém sempre bem-vindo aqui. O Mário Costa do Departamento de Lâmpadas. A que devo a honra?
— Vim só bater papo e conversar sobre o próximo encontro que faremos, nós os ex-funcionários da GE e do FMP.
— Pois é, Mário, aquele local que costumávamos ir, me parece que fechou e nosso grupo precisa pensar numa alternativa.
— Isso mesmo, a ideia é de que cada um dos últimos participantes sugira um novo local, que será escolhido por votação da maioria, considerando localização, preços e facilidade de se chegar ao local, aumentando a possibilidade para um grande número de interessados. Pense num local e depois me mande o nome e endereço, faremos uma triagem e posteriormente o grupo irá definir.
— Qualquer que seja o local uma pessoa que não deve faltar em hipótese nenhuma é o Homan. Você não acha?
— Certamente, o Homan Saad foi e sempre será um forte elo dessas nossas reuniões de ex-GE, aqui no Rio. Bem, Rubens, preciso ir, tenho encontro com um primo que mora em Governador Valadares-MG. Ele está aqui no Rio.
— Mas, desse seu primo eu já ouvi falar muito dele. Não é o Fausto, aquele que anos atrás tinha se mudado para os Estados Unidos? — Disse Rubens.
— Ah! Você o conhece? É ele mesmo, já voltou de lá há algum tempo, ganhou muito dinheiro e hoje vive fartamente em Governador Valadares.
— No duro? Fez a América e voltou ao Brasil? Conte-me como foi.
— Esta, Rubens, é uma longa história. Vamos tomar uma cerveja naquele botequim ali em frente e conversaremos.

Fausto
Ambos instalaram-se confortavelmente nas mesinhas e já degustavam a segunda cerveja – geladíssima. O álcool soltou a língua de Mário e numa descrição objetiva e rápida contou ao Rubens o caso do primo Fausto.
— Entre 1982-1985, Fausto foi mais um dos muitos que tentaram ir para os Estados Unidos para trabalhar e fazer fortuna. Era uma época de difíceis possibilidades aqui no Brasil e não custava tentar a vida lá fora. Grandes levas de brasileiros foram para lá e muitos tiveram sucesso, apesar de tantos, em grande maioria, terem de retornar ou lá ficar fazendo serviços braçais onde pouco se exigia de conhecimento e estudo. Fausto era daqueles que não tinham estudo, tinha feito só o curso secundário em Governador Valadares.
— Não faltou coragem, — continua Mário — entrou pela primeira vez com visto de turista em Miami. Não retornou como turista e passou a residir como imigrante ilegal em meio à comunidade de brasileiros que viviam por lá. Trabalhou como ajudante de encanador, abrindo buracos onde passavam tubulação de água ou esgoto. Como imigrante ilegal, não regularizado, não era registrado, não tinha nenhum benefício, nenhum direto trabalhista, só o dever de trabalhar duro. E ainda para piorar, trabalhava para pequenos empresários brasileiros instalados lá há mais tempo. Ele se lembra, muito bem, dos calos espalhando pelas mãos e o cansaço ao final do dia. Muitas vezes, nem banho tomava, chegava do trabalho, engolia algo e dormia tal qual uma pedra. Fausto não aguentou esta vida e oito meses depois achou uma maneira de voltar à sua querida cidade de Governador Valadares.
— Em sua volta, a situação aqui pelo Brasil ainda estava muito mal. Estávamos nos tempos do governo Sarney, com inflação nas nuvens, desemprego e desestabilidade social.
— Não aguenta a situação e junto com seis amigos resolve retornar aos Estados Unidos, tentando ir agora para New Orleans. Naquela época, o setor de saúde americano tornara-se muito rigoroso. Todo turista tinha que fazer exames médicos e de laboratório para conseguir o visto de entrada. Fausto fez os exames médicos e laboratoriais, conseguindo passar normalmente. Dos seus seis amigos, nenhum passou e não obtiveram o visto.
— Fausto notou que todos os habitantes de Governador Valadares, interessados em entrar nos Estados Unidos, estavam sendo reprovados nestes exames. Ele, muito sagaz, procurou saber o porquê de só ele estar apto e nenhum outro mais de Governador Valadares não estar. Confrontou os seus exames com os exames de seus amigos e, auxiliado por um amigo médico, ficou sabendo que todos foram reprovados no exame de fezes, só ele estava apto e tinha passado.
— Foi em outro amigo médico e procurou saber dos motivos. O resultado foi direto. Toda a população de Governador Valadares toma da água tratada, retirada do Rio Doce. Este rio passa por toda cidade vindo de longe, nas Minas Gerais, em direção ao mar, no norte do Espírito Santo. No seu curso recebe inúmeros subprodutos de mineradoras, que o tratamento básico da água não corrige. Com isso toda população possui microrganismos resistentes que se concentram nas fezes, fazendo os resultados serem positivos destas bactérias.
— Mas, escute só, ele Fausto descobre que somente ele não desenvolve tais bactérias, por motivos que estão além de seus conhecimentos. De imediato, vê uma utilização prática para essa aberração que possui em seus intestinos. Ah! Rubens, isso ele aprendeu com os americanos nos poucos meses que viveu por lá. Resolveu tirar vantagem financeira desta sua diferença!
— Fausto, daquele dia em diante passou a vender “merda”, “bosta” ou fezes (como preferir denominar) aos interessados em ir aos Estados Unidos. Com isso todos eram aprovados e passavam pela alfândega carregando em seus intestinos as bactérias do Rio Doce e com isso a conta bancária de Fausto não parava de crescer.
— O IBGE ainda não sabe, Rubens, mas esta é uma das razões de que há mais brasileiros nos Estados Unidos, oriundos de Governador Valadares, do que qualquer outra cidade aqui do Brasil. Todos entraram apresentando a “bosta” do Fausto.

Minutos depois, os dois amigos se despediram. Rubens ficara pensativo sobre o assunto. O Mário sempre foi uma pessoa de muita credibilidade… Será?

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