Provocações entre torcidas: prática saudável ou não?

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A provocação é uma prática muito comum entre as torcidas de times rivais, principalmente em esportes por equipe e que são populares, como é o caso do futebol. Torcedores acalorados buscam diminuir o time rival colocando apelidos ofensivos. O filósofo Arthur Schopenhauer, em seu manuscrito Dialética Erística, explica a ofensa pessoal como uma estratégia de vencer um adversário pela cólera, sem precisar ter razão. Muitos times acabam, depois de muito sofrer, ressignificando esses apelidos.

Um desses casos é o Porco, apelido do Palmeiras. Em 1969, quando dois jogadores corinthianos morreram em um acidente de carro, o clube foi atrás da Federação para conseguir inscrever dois novos atletas fora do prazo. Para a decisão ser válida, todos os times teriam que concordar, mas o dirigente do Palmeiras foi contra. A partir daí, os corintianos começaram a usar o termo Porco no pejorativo, em alusão ao “espirito de porco” e sujo. Só em meados da década de 80, o diretor de marketing palmeirense daquela época, João Roberto Gobbato, decidiu usar o apelido dado pelo arquirrival como identidade do Verdão. Agora a torcida ecoa os gritos ‘’dá-lhe Porco’’ com orgulho nas arquibancadas e o animal virou o mascote oficial do time.

Já o apelido de Macaca, mascote da Ponte Preta, foi dado pela torcida do Guarani, que gritavam nos alambrados que os rivais eram “macacos” além de imitar o som do animal nas arquibancadas, pois a Ponte foi o primeiro time brasileiro em atividade a ter jogadores negros em seu elenco. Inclusive, entre os fundadores do Clube tinham negros e mulatos, como Benedito Aranha, um dos pioneiros da diretoria. Ao invés de revidar a ofensa o clube decidiu adotar o animal como mascote, pois simboliza a luta pela igualdade inscrita no DNA da Associação Atlética Ponte Preta, a primeira Democracia Racial do futebol nacional.
Com o mesmo teor racista, temos o Urubu, apelido dado à torcida Flamengo, por ser um clube do povo. Mas quando um torcedor rival jogou um urubu no campo durante um jogo, o Flamengo, que perdia a partida, virou e ganhou, o apelido foi adotado pelos flamenguistas.

No caso do Corinthians o apelido de Gambás faz referência ao CT, que fica na beira do rio Tietê, onde mau cheiro é presença constante. Os torcedores do time também são chamados de favelado e marginais pelos rivais, pois seus torcedores tem, em media, uma condição social mais pobre.

No caso do São Paulo o bambi tem uma conotação homossexualista. Na década de 10, o negro Carlos Alberto saiu do América para atuar no Fluminense, um dos clubes mais racistas da época. Para se “embranquecer”, o atleta decidiu passar pó-de-arroz no rosto, e o São Paulo fez o mesmo com Jurandir de Aquino. No meio da partida o suor fez com que a farsa fosse notada. A torcida adversária debochou: “ Pó-de-arroz!”, apelido pelo qual o Fluminense é tratado até hoje. Já no São Paulo o apelido sumiu nos anos 90, mas a fama de “Time Afeminado” ficou, e passou a ser relacionada com o personagem Bambi da Disney, depois de uma entrevista do Vampeta em 2000, onde ele disse que “derrotaria os Bambis”.

O que há em comum em todos esses apelidos é o cunho perjorativo e preconceituoso em relação às minorias, e mesmo que muitos times tenham, brilhantemente, ressignificado esses apelidos e transformado uma ofensa em força e identidade, a origem e a história não devem ser esquecidas.
Rivalidades e provocações são naturais e saudáveis ao esporte, contanto que mantenham o decoro e não incitem agressões, físicas ou verbais. Devemos lembrar que o esporte é um micro-sistema que representa e molda a sociedade como um todo, e que alguém agressivo dentro do estádio, também o será na rua. E então, qual o exemplo que queremos deixar para os nossos netos?

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