Carnaval 1953

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Bem cedo, ainda escuro, ele acorda naquele domingo sonolento, após uma longa noite de sono reparador. Caminha lento para o velho rádio e ao ligar, de imediato, chega aos ouvidos um som familiar que o leva aos tempos passados de sua vida.
… ♪♪♪ Confete, pedacinho colorido de saudade, ai, ai, ai, ai,… ♫♫♫.

Hoje com 71 anos, Luiz Aurélio entra de imediato no que chamamos de transe hipnótico. A musiquinha, uma marchinha na voz do inesquecível Chico Alves penetra em sua alma, levando este já senhor, para o corpo pequeno e inocente de um garotinho entre seis a sete anos de idade. Era a aurora da vida! Tinha chegado a este mundo há pouco tempo, conhecendo quase nada das alegrias, realizações, tristezas e decepções que a vida reserva a cada um. Era o que em linguagem de TI (Tecnologia da Informação) podemos chamar de disco virgem, onde tudo poderia ser gravado, tanto coisas boas como más. Hoje, felizmente, avalia que muito que foi gravado, dentro de si, foram coisas ligadas ao bem. O lado sinistro da vida, poucas vezes teve oportunidade de estar ao seu lado.

… ♫♫♫ Ao te ver na fantasia que usei,
Confete, confesso que chorei. ♪♪♪

Porém, esta música singela, inocente e de teor melancólico o levou a recordações de sua primeira infância. Nela sua mãe o levava aos bailinhos de carnaval. Antes de ir, ela o enfeitava tudo de acordo com os costumes da época. Ele adorava e vibrava em se ver no espelho pintado, fantasiado e vestindo roupas coloridas que enchiam de alegria a todos. Para a família ele era o Luizinho, caçula da casa, apresentado a todos como uma promessa para o futuro e por que não dizer para o Brasil. Mas, Luizinho, no momento, estava mesmo era empenhado em fantasiar-se e brincar no carnaval.

Na rua de casa era comum os demais garotos brincarem de guerra de seringas d’água. Alguns faziam uma espécie de bomba com gomos de bambu, que enchidas de água faziam uma verdadeira chuva naqueles que eram atingidos. Tantas vezes ele chegou ensopado em casa. A mãe ralhava, mas não adiantava, o menino era levado mesmo. Enchia sua bisnaga ou sua bomba d’água e já voltava em disparada para rua a fim de devolver aos colegas na mesma moeda que tinha recebido. Assim era nos três ou quatro dias de carnaval. Em certa ocasião, uma filha da vizinha veio reclamar ao pai de Luizinho. Ela alegava que ele tinha descarregado uma bomba d’água inteira, nela e no noivo, quando estavam namorando no portão de casa, molhando a ambos. Quem olhava e via aquele menino educado e comportado, mal poderia imaginar do que era capaz, quando fazia suas artes na rua em que morava.
Mas, nesse domingo relembra com saudades de um bailinho de carnaval a que foi levado pelas mãos da mãe. Acha que tinha uns sete anos. Já se achava um homem e não cabia em si de contente dentro daquela fantasia que estava vestindo, feita pela mãe. Hoje estava vestido a caráter: Era um autentico “Pierrô apaixonado e tristonho pelo amor não correspondido de sua Colombina”. Para ele não tinha nada disso de tristonho, estava isto sim era muito feliz em poder participar pela primeira vez de um baile de carnaval no clube Panelinha de sua cidade. Lá aproveitou tudo que tinha direito, dançou e pulou todas as marchinhas com alegria e entusiasmo. No principio estava só, mas com o passar dos minutos, uma garotinha aproximou-se dele, procurando usufruir um pouco de sua alegria e vitalidade. Luizinho arrasou! Daquele momento em diante sempre estava ao lado daquela menina e ela fazia questão de só dançar e ficar ao lado dele. E, foi assim até o final daquele dia, quando finalmente voltou para casa, extenuado e caindo de sono pelo caminho, tal era o cansaço.

… ♪♪♪ Chorei porque lembrei o carnaval que passou,
Aquela Colombina que comigo brincou, ♫♫♫.

No dia seguinte, foi novamente em outro bailinho de carnaval. Desta vez a tia tinha levado o primo e ele no clube Aramaçan. Luizinho já se considerava um veterano em bailes de carnaval. Até chegou a dar algumas dicas ao primo que estava indo pela primeira vez. Era um autentico carnavalesco já vivido. Foi novamente vestido de Pierrô, tanto na pintura como no vestuário. Estava já na terceira marchinha quando eis que de repente surgiu novamente a mesma menina que no dia anterior tinha ficado com ele no “Panelinha”. Ela estava mais bonita e hoje estava fantasiada de Colombina, tal como uma bailarina. Não tardou que a aproximação ocorresse e logo estavam os dois curtindo todas as deliciosas marchinhas daquele baile. Mas tudo que é bom chega ao fim. Este baile também chegou ao final e também aquele carnaval chegou ao fim.

No dia seguinte tudo voltou a ser como era antes. A mesma turminha da rua, as mesmas brincadeiras de sempre e nesse ano iria começar a escola. A mãe já tinha matriculado ele no grupo escolar. Era tempo de mudanças em sua vida, já estava se tornando um homem. Tinha que estudar, depois trabalhar, depois casar e depois… depois… até quando? Pois é, estudou, trabalhou, casou, depois… e depois….

… ♫♫♫ Ai, ai, confete, saudade do amor que se acabou. ♪♪♪

Hoje, neste domingo, relembra que nos anos seguintes tinha ido aos bailinhos de carnaval naqueles mesmos locais do ano anterior e, nunca mais encontrou aquela menina que com ele brincou. No começo sentiu um sentimento que disseram chamar saudades, mas não ligou. Achava que um dia iria encontrar novamente aquela divertida companheirinha de bailes dos sete anos. Mas, procurou inutilmente nos vários salões em outros carnavais. Foi no salão do Moinho São Jorge, no salão do Primeiro de Maio, no salão do Clube de Campo e nada… Deve ter se mudado para outra cidade, poderia ter morrido…Será? Não ela era muito jovem, deve ainda estar por aí em algum lugar e como diz o ditado que “Até as pedras se encontram, quanto mais as pessoas”. Hoje, passados mais de 64 anos, por onde andará ela?

Mas, a realidade mudou. Luizinho hoje é o Senhor Luiz Aurélio, marido, pai, avô, aposentado, cabelos grisalhos, saudável e feliz. Valeu a vida!

♪Confete,
Pedacinho colorido de saudade,
Ai, ai, ai, ai, ♫♫
Ao te ver na fantasia que usei,
Confete,
Confesso que chorei. ♪♪♪

♪Chorei porque lembrei
O carnaval que passou, ♫♫
Aquela Colombina que comigo brincou,
Ai, ai, confete, ♪♪
Saudade do amor que se acabou. ♪♪♪

Chico Alves – Carnaval 1951, de David Nasser e Jota Júnior.

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