Guerra ou Paz?

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“Uma locomotiva movimenta-se. Pergunta-se por quê. O camponês diz que é o diabo que a empurra. Outro, que ela se desloca porque as rodas giram. Um terceiro afirma que a causa do movimento é a fumaça que o vento leva.
Nada há para objetar ao camponês. Para isso seria preciso demonstrar-lhe que o diabo não existe ou que outro da sua classe lhe explicasse que não é o diabo, mas um alemão que a põe em marcha. Só assim, diante da contradição, se daria conta de que nem um nem outro tem razão. No que diz respeito ao que atribui o movimento ao girar das rodas, contradiz-se a si próprio, pois, uma vez, no campo da análise, será obrigado a avançar um pouco mais; será necessário explicar o movimento das rodas. E só terá o direito de se deter na busca dos motivos quando tiver chegado à última causa do movimento da locomotiva, ao vapor comprimido dentro do êmbolo. Para aquele que explica o movimento pela fumaça que o vento leva, ao notar que a explicação pelas rodas nada explica, lançará mão do primeiro indício que lhe apareceu para apresentá-lo como uma causa.”
Não, essas palavras não são minhas, mas trata-se do Capítulo III do Volume IV de Guerra e Paz, de Leon Tolstói.
Vejam porém, que esta analogia poderia muito bem encaixar-se hoje, nas negações, nas divergências, nas polarizações tão frequentes nesse nosso mundo de meu Deus!
Cada qual, com seus motivos, seus argumentos, suas convicções, pelo seu prisma, está certo. E mais, pretende que esta sua certeza seja compartilhada com o maior número de pessoas possível. Se um mesmo fato suscita inúmeras interpretações às vezes totalmente contraditórias, o que se dirá do fato em si!
O ser humano, com sua massa encefálica tão complexa e criativa, quando se depara com um cubo, infere com base nos seus conhecimentos prévios sobre o que seja um dado, qual o número que se encontra na face oculta, chegando a essa conclusão a partir dos números visíveis. Ocorre que assim como vários fatores poderiam fazer andar a locomotiva de Tolstói, a partir de cada conclusão individual, a verdade não tem um só lado, não é perene e nem imutável.
Porque não se aceitar essa pluralidade de pensamentos? Porque não dialogar? Porque deixar à cargo da história e dos homens que a escrevem, o estigma da verdade?
Afinal foi Alexandre I ou Napoleão que perdeu a guerra?

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