Valeu a pena?

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn

Estávamos em Santo André num bar estilo americano muito conhecido, mas que naquele momento era só nosso: meu e meu amigo. O amigo, aquele mesmo com idade acima dos setenta anos e ainda na primeira dentição — a dos dentes de leite. Ele tomava um vinho português e eu bebericava minha costumeira caipirinha de todos os dias. A conversa versava sobre nossas lembranças dos tempos de juventude, dos estudos na mesma faculdade, dos trabalhos na mesma empresa. Tal diálogo tinha se alongado prazerosamente, agora caminhando para um final. Ele se despedia me deixando, no início de minha segunda caipirinha.
— Você ainda mora naquele prédio chamado Rosa de Saron? — Perguntou-me ele confirmando meu endereço para uma futura visita.
— Sim, moro lá há mais de 25 anos. E você? Ainda mora na Vila Luzita? — respondi.
Confirmou. Depois disso trocamos cordialidades, com promessas um para o outro de que deveríamos nos encontrar mais vezes. Ele se retirou.
Fiquei só saboreando a bebida em pequenos goles. Nisso passa o funcionário que serve o balcão. Não me pareceu estranho, já tinha visto ele em algum lugar…
Ao me sentir só naquele longo balcão, muitos pensamentos sobre o que não tinha dado certo em minha vida me vieram à cabeça. Minha vida poderia ter sido muito melhor do que foi. Quantas oportunidades eu perdi em cada etapa! Mas, quais foram mesmo? Fiquei rememorando uma a uma contando nos dedos da mão. Cheguei a encher as duas mãos de tantas vezes que tinha tomado a decisão errada e que poderia ter mudado o rumo do meu futuro. O futuro daquela época, que seria o presente de hoje.
Deveria ter aceitado fazer testes no Corinthians quando tinha meus 17 anos e era bom de bola! Muito provável que teria ganhado muito dinheiro, alguns campeonatos. Poderia até ser vendido para a Europa… Mas, não, me colocaram para trabalhar e estudar. Adeus sonhos de jogador. Adeus contratos milionários.
Poderia ter ido estudar Física Nuclear, fazer alguns estágios no programa nuclear americano ou mesmo em outra nação. Os especialistas em Física são regiamente pagos em qualquer país. Mas não, convenceram-me a fazer Ciências Contábeis e Economia, tornei-me um burocrata.
Ao me casar, poderia muito bem ter escolhido a Soninha. Era linda, filha de família rica e com pai empresário de sucesso. Teria garantido meu futuro em poucos anos. Queimaria várias etapas na luta pela vida. Fico imaginando o que perdi, não tomando esta decisão.
E o trabalho! Quando penso que poderia ter aceitado trabalhar naquela Financeira em 1973. Colegas tinham ido pra lá e ganhavam rios de dinheiro e tinham ótimas posições. Tinha sido escolhido. Não fui, pois minha mãe sugeriu ficar onde estava.
Assim pensava nas várias ocasiões que poderia mudar o rumo de minha vida, mas tinha optado por nenhuma delas ou então ficado onde estava. E assim… O tempo passou, aqui estou. Já na terceira caipirinha.
Nisso vejo sentado ao meu lado um cara parecido comigo, olho curioso, mal vestido, um lambão e ele sorrindo começa a falar:
— Não me reconhece? Sou aquele “você” que aceitou ir treinar no Corinthians. Tive oportunidades, cheguei até a jogar no time principal. Fiz um bom contrato no primeiro ano. No segundo ano sofri uma contusão violenta que me afastou por três longos anos do time. Quando sarei, estava fora do time, ficara inaproveitável para o futebol. Andei pela vida, caindo e levantando e hoje consigo ganhar pelo menos o que dá para comer. Família nem pensar. Foram embora depois que passei a tomar uns porres.
— Mal ele terminara de falar, vejo outro sentado junto de mim. Era muito parecido comigo, estava terrivelmente pálido. Dirigiu-se a mim nestes termos:
— Sou aquele “você” que seguiu carreira como cientista nuclear. Trabalho ainda hoje como cientista numa nação nuclear e faço parte de suas inúmeras mentes criadoras. Já participei da construção de sofisticadas armas nucleares, armas de destruição em massa e vivo confinado num laboratório do governo, construído debaixo de um enorme deserto longe da grande multidão. Vivo isolado nos últimos anos. Tenho muito dinheiro sem poder gastar, longe de familiares, não falando de futebol, conversas de botequim, piadas de mulheres, piadas de português, papo furado, lá só se fala sobre ciência e testes, etc. etc…
Dá para ver que ser cientista não o deixou feliz. Noto que tem dificuldades em dar um sorriso ou uma risada, por mínimo que seja.
Nisso surge outro ao lado dele e se dirige a mim. Sua imagem me lembra de mim mesmo, mas está diferente, algo me diz que passou por estranhas experiências. Ele começa a falar.
— Eu sou aquele que aceitou ir trabalhar na Financeira do Banco Crefisul em 1973. Tive um aumento relevante em meus vencimentos e estava feliz trabalhando num banco moderno e eficiente. Era um modelo de gestão de sucesso da época no mercado financeiro. Em fevereiro de 1974 as instalações no Edifício Joelma pegou fogo e eu fui um dos que estavam lá e não me salvei.
Depois de estas cópias terem me mostrado como teria sido minha vida, se tivesse ido por outros caminhos, cai na real. Reconheço ter me sentido aliviado. Afinal a vida, apesar dos percalços, tem sido relativamente boa.
Já me preparava para pedir a quarta caipirinha, quando noto no balconista também uma cópia minha. Fico curioso e pergunto:
— Quem é você?
— Eu sou o “você” que se casou com a Soninha. Vivi bem uns cinco anos, depois o pai dela faliu em todos os negócios dele. Um ano antes ele me presenteou transferindo todas as empresas para meu nome. Fiquei feliz, tinha conseguido o sucesso. Após a falência, sumiram o pai e a Soninha, só ficando eu para aguentar a tremenda responsabilidade em minhas costas. Não consegui. Também tive de fugir e como vê — hoje eu vivo de bicos sem ser registrado.
Depois disso terminei a caipirinha e fui feliz para minha casa em São Caetano do Sul. Viva a vida!

Você também pode gostar de: