Tecnologia e sinergias, para avançarmos.

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Todas as pessoas interessadas em tecnologia ficaram chocadas, ao lerem no dia 20/2 manchetes resumindo uma fala do presidente do Ipea, Carlos von Doellinger, defendendo que o Brasil deixe de apoiar o setor industrial e coloque foco em suas vantagens comparativas, como o agronegócio e a mineração.

Impedir a atividade industrial foi lei, no Brasil Colônia, porque as leis feitas pelo colonizador convinham a ele, não aos brasileiros. A atividade econômica hoje compreende mais do que apenas indústria, agronegócio e mineração, e é bem sucedida quando todos os seus setores se entrelaçam, beneficiando-se mutuamente.

No Brasil, alguns grandes sucessos econômicos resultaram da aplicação de novas tecnologias industriais ao agronegócio. Os produtores de açúcar e álcool de São Paulo são hoje também grandes produtores de energia elétrica, graças à introdução das caldeiras de alta pressão na geração de vapor, nas usinas. Para isso, o que foi necessário? Antes de mais nada, foi preciso confiar em um dos principais pilares da ciência e mesmo da cultura contemporânea: a Segunda Lei da Termodinâmica.

Essa Lei (com maiúscula, porque não será revogada por nenhum legislador ou ditador, embora alguém sempre possa tentar uma discussão judicial) é expressa de várias formas. Uma delas, bem adequada ao caso, afirma que a eficiência de uma máquina térmica aumenta quanto maior for a diferença entre as temperaturas da fonte quente e da fonte fria. Na usina de açúcar e álcool, a máquina térmica é uma turbina a vapor. A fonte quente é uma caldeira, que queima bagaço e palha de cana. A fonte fria é a atmosfera vizinha à turbina. Quanto maior a temperatura do vapor gerado na caldeira, maior a eficiência da turbina, o que aumenta a disponibilidade de eletricidade, no coração de uma região que é grande consumidora e próximo de outras grandes capitais brasileiras.

Da teoria à prática, a Segunda Lei rege uma enorme atividade industrial, em muitos países. No Brasil, são várias empresas, nacionais ou não. Uma delas é considerada a maior empresa da América Latina no segmento de turbinas a vapor, redutores e multiplicadores de velocidade, com tecnologia 100% brasileira. Por acaso (ou não?) a sua sede fica na região de Ribeirão Preto, no qual a cana de açucar tem uma presença vigorosa, há muitas décadas. Essa empresa não é um negócio local, que só existe devido a algum favor de algum governante, ou a algum ato de corrupção: ela está presente em mais de 50 países e atende a mais de 550 clientes, anualmente.

Muitas outras empresas brasileiras têm características similares a essa. Infelizmente, são pouco conhecidas da mídia, do público e dos (des)governantes e ocupantes de cadeiras oficiais, pagas pelo público. Mas essas empresas existem, e nos mostram caminhos para o futuro.

A geração de eletricidade a partir de resíduos de biomassa beneficia a muitos: ela aumenta a receita das usinas e cria mais empregos, dentro das usinas e nas indústrias fabricantes de equipamentos. Como utiliza resíduos, beneficia o ambiente, ao invés de poluir. Ela diversifica a matriz energética da região, diminuindo o impacto dos muitos problemas que afetam os sistemas geradores: as secas que reduzem o estoque de água dos reservatórios, ou as oscilações nos preços internacionais de petróleo e gás, ou ainda os problemas causados pelo clima na geração solar ou eólica. Além de todos estes problemas, com os quais já temos experiência, há muitos outros (como a atual pandemia), que ninguém previu, ou poderia prever.

Um simplório sempre poderá dizer: mas se precisarmos de turbinas, de caldeiras de alta pressão ou de qualquer outro produto industrial, não será mais rápido e barato simplesmente importar de algum fabricante do exterior?

De novo, a pandemia nos dá lições. Logo no início, o Brasil teve dificuldades na importação de equipamentos necessários para instalar as UTIs dedicadas ao tratamento dos pacientes de Covid-19. Com um pouco de esforço de memória, vamos lembrar dos respiradores destinados ao Brasil que, já em uma escala no aeroporto de Miami, foram impedidos de seguirem viagem para o Brasil. O fato foi denunciado pela Casa Civil do Governo da Bahia e amplamente desmentido por autoridades americanas, acompanhadas de algumas autoridades brasileiras. A denúncia baiana poderia parecer apenas mais um caso folclórico, mas foi logo seguida de denúncias análogas, feitas por autoridades alemãs e da França. Muitas pessoas perceberam, em todos os países desenvolvidos, o enorme risco estratégico representado pela desindustrialização descontrolada, burra.

Um outro episódio interessante da pandemia foi o questionamento feito por um entrevistador de um canal de televisão, ao presidente de uma empresa farmacêutica brasileira que se prepara para produzir no Brasil uma vacina, com tecnologia russa. O jornalista insistia em que a empresa não está produzindo a vacina, mostrando dificuldade em entender a afirmação do empresário, de que a empresa estava fazendo produção piloto. Entendo a dificuldade do jornalista, apesar da clareza da explicação do empresário, por uma razão: não são muitas as pessoas que, no Brasil, têm vivência das várias etapas de pesquisa e desenvolvimento de um produto – especialmente a produção-piloto.

A produção piloto é uma etapa obrigatória. Não se passa diretamente de uma idéia, ou de um resultado de laboratório ou mesmo da “vontade política” de alguém, a milhões de unidades de qualquer produto. Ao longo da minha carreira, aprendi a distinguir rapidamente as empresas que têm reais condições de inovarem, daquelas em que a inovação é apenas um discurso. Basta observar, mesmo que rapidamente, os seus laboratórios, oficinas e plantas-piloto. Quando essas instalações inexistem, a empresa não faz inovação. Quando são excessivamente caras e lustrosas, também não faz.

Como podemos conseguir todos os produtos de que necessitamos? Dominando os conhecimentos científicos relevantes, que embasam tecnologias que por sua vez, em um ambiente industrial fecundo, produzam o que é necessário para nós e para outros. Contribuindo mais, seremos menos dependentes.

Para ler uma notícia sobre a fala do presidente do IPEA: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2021/01/20/fala-de-presidente-do-ipea-sobre-indstria-gera-forte-reao-do-setor.ghtml ou as ferramentas oferecidas na página.
Uma notícia de denúncias e desmentidos sobre desvios de respiradores e mascaras:
https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/04/04/embaixada-do-brasil-nega-que-eua-tenha-desviado-equipamentos-para-covid.htm

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