As fake news e a literatura

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Em meu texto anterior fiz um desabafo sobre polarização, negação, enfim sobre este período de trevas que estamos vivendo. Trevas na saúde, trevas na política, trevas no entendimento e na empatia universal.
Não por coincidência, foi na Idade das Trevas, ou Idade Média, que surgiu a peste negra, de que tanto ouvimos falar – na verdade, a peste bubônica. Neste período e em outros tantos da história de nosso planeta, muitas pragas e pestes assolaram as populações.
A literatura acompanhou o obscurantismo que toma conta dos governantes e da grande massa, quando fatos assustadores e descontrolados como esses ocorrem, e escancaram a forma como essas tragédias são assimiladas perante a História.
Um exemplo clássico é o excelente 1984, de George Orwell, publicado em 1949. Mesmo aquele que não leu essa obra já ouviu falar do Grande Irmão – ou Big Brother – o assustador e onipresente líder, que controlava e “estava de olho” em todos, através das temíveis teletelas. Estas se encontravam em toda parte, nas ruas, comércio e dentro das casas de todos os habitantes do fictício país criado a partir de uma guerra global, que gerou três grandes estados totalitários. Orwell explora o tema do totalitarismo, da restrição das liberdades e também da manipulação das notícias e dos acontecimentos. No livro ele cria o ‘Ministério da Verdade”, com o objetivo de apagar e modificar a história a ser replicada no futuro.
Essa não aceitação dos fatos e a cegueira daqueles que se julgam donos absolutos da razão também é revista por José Saramago, em seu brilhante romance “História do cerco de Lisboa”. Nele um revisor de livros altera o texto de um livro sobre esse momento histórico da reconquista de Lisboa, acrescentando um simples “não” ao texto, o que mudaria todo o rumo dos acontecimentos passados. Com a intervenção a frase ficou: “Os cruzados NÃO ajudaram os portugueses a conquistar Lisboa”.
Sabemos que as informações à medida que chegam aos ouvidos das pessoas, costumam ser decodificadas de acordo com a crença, instrução, histórico de vida de cada um; porém quando são manipuladas e distorcidas podem tornar-se destruidoras da realidade.
Em “Crônica de uma morte anunciada” de Gabriel Garcia Marquez, um crime poderia ter sido evitado, se as versões e depoimentos dos envolvidos fossem fidedignos. Na descrição de uma das edições deste romance, temos a seguinte frase: Em que e em quem acreditar? Como descartar a parcialidade das versões e “o espelho quebrado da memória” dos envolvidos?

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