A imprensa esportiva deve também investigar e denunciar!

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O célebre jornalista Armando Nogueira, morto em 2010, disse uma vez que quando foi contratado para trabalhar em um jornal no Rio de Janeiro lhe perguntaram do que ele gostava e área ele mais conhecia. Como não deu uma resposta convincente, ele foi enviado para o setor de esportes, porque segundo ele é o lugar para os jornalistas inexperientes.
São poucos os jornalistas de destaques, como o próprio Armando Nogueira ou Orlando Duarte, que encerraram suas trajetórias profissionais no esporte. Casos típicos motivados pela paixão!
O jornalismo esportivo ou se limita a ser puramente informativo ou, invariavelmente, se confunde com o papel de entreter. Vários programas esportivos buscam audiência exclusivamente no deboche ou na polêmica com seus profissionais mais preocupados em fazer humor do que jornalismo.
Na minha opinião, de quem não é profissional da área, falta ao jornalista esportivo o trabalho investigativo e a denúncia, características de um bom jornalismo. Como exemplo cito a ‘máfia do apito’ que foi denunciada em 2005. Quem trouxe a notícia à época foi a revista Veja, que nem coluna de esporte mantinha, embora, reconheça-se, que o repórter que fez a reportagem, André Rizek, hoje está envolvido totalmente no segmento esportivo.
A estrutura corrupta da FIFA ruiu após denúncias de vários casos de extorsão e corrupção por conta do trabalho investigativo de jornalistas independentes como Andrew Jennings que ajudou o FBI nas investigações que culminaram com a prisão de vários dirigentes esportivos em 2015 na Suíça.
Há muito tempo sabemos que o futebol brasileiro é dirigido de forma amadora por dirigentes que não querem que a estrutura dos clubes se profissionalize e que programas sérios de governança sejam implementados para que esses dirigentes prestem contas aos associados e às autoridades civis.
O futebol brasileiro sofre com a falta de dinheiro e de patrocínios que permitam que os clubes consigam manter um time minimamente competitivo por mais de um ano. Há muitos anos, não há um clube dominante no futebol brasileiro, infelizmente, porque a qualidade está nivelada por baixo.
Empresas sérias não investirão em instituições que não têm gestão profissionalizada e que seus gestores são escolhidos, pela camaradagem e apoio político que dão a presidentes são eleitos de forma bisonha. Um clube com a dimensão de um Corinthians, por exemplo, teve um presidente eleito por apenas 1.081 votos em sua última eleição.
Um dos setores mais importante em um clube esportivo, se não o mais importante, é a formação de jogadores. Identificar e desenvolver talentos, em um momento em que falta dinheiro para maioria dos clubes é a única solução possível para manter um certo nível competitivo a um custo acessível.
Infelizmente, sabemos que em vários clubes a base é tomada por gestores e agentes que pensam primeiramente no ganho pessoal a curtíssimo prazo. Muitos jovens talentosos são descartados prematuramente ou porque não têm empresários influentes ou porque não têm condições financeiras para pagar “pedágios” impostos por dirigentes nomeados politicamente para dirigir esses setores.
Essa estrutura é mantida também por conta do desinteresse da imprensa esportiva em investigar e denunciar ao público como os clubes formam seus jogadores. Me parece que, ao contrário, a imprensa procura ser amiga dos dirigentes a fim de garantir exclusividade e furos de reportagem.
Escrevo este texto, no sábado em que o Palmeiras foi campeão da Copa Libertadores após vencer o Santos FC. Uma característica comum atual dos dois clubes é a quantidade de jogadores no elenco formados nos clubes, recentemente.
O Palmeiras, historicamente, nunca foi um clube formador. No passado sempre optou em trazer jovens revelações ou mesmo jogadores já consagrados de outros clubes. Poderia aqui citar vários exemplos, começando com o maior deles, Ademir da Guia, contratado junto ao Bangu. Essa mudança na estratégia foi uma mudança natural ou foi determinada por um patrocinador forte com poder de influência na gestão do clube? Não sei dizer, mas tomara que essa estratégia do Palmeiras, seja permanente para o bem do futebol.
Contrariamente, o Santos FC sempre foi um clube formador de talentos. A minha leitura para o sucesso do clube nessa área é histórica e geográfica. O clube, com sede em uma cidade relativamente pequena do litoral paulista, formou um dos maiores times de futebol da história do futebol e vários jogadores que integraram esse esquadrão, após a aposentadoria, mantiveram frequência constante no clube, como o eterno capitão Zito, Pepe, Clodoaldo, Coutinho entre outros.
Jogadores como Robinho e Neymar foram trazidos ao clube diretamente pelo Zito. Qual dirigente do clube teria meios de interferir nesse processo de revelação quando ex-jogadores consagrados têm influência direta na base do clube? Creio que além do Santos FC, nenhum outro no Brasil.
O SPFC é um clube que sempre teve uma estratégia para revelar bons jogadores e é também reconhecidamente um clube com uma governança mais avançada. O clube mantém um centro de formação em Cotia e depende da revelação de bons jogadores tanto para fortalecer o elenco como também para criar fluxo de caixa pela cessão dos direitos federativos de alguns jogadores a clubes do estrangeiro.
Já o meu clube do coração, Corinthians, tem um histórico muito ruim na base. O clube até consegue identificar talentos, vários, mas não tem a capacidade de retê-los para montar times competitivos e depois lucrar nas transferências desses jogadores para outros centros. Exemplos não faltam, como o do Everton Ribeiro do Flamengo, Deco que foi ídolo em Portugal, William que hoje está no Arsenal, Marquinhos no PSG, mas nenhum deles jogou um campeonato inteiro pelo clube e, pior, não renderam dinheiro razoável nas transferências. O Deco, fugiu do clube quando era um promissor jogador da base! O Corinthians é um caso típico de falta de governança que permite que indivíduos e não o clube lucrem com os jogadores revelados.
Se a imprensa esportiva também fosse investigativa muitos casos de corrupção e aliciamento de jogadores seriam descobertos e revelados. Os clubes se veriam obrigados a montar estruturas mais profissionais e regulamentar a governança. Clubes profissionalizados com governança sólida irão atrair os investidores que são a principal fonte de receita de qualquer clube esportivo.
Só que, infelizmente, parece que os dois lados, imprensa e dirigentes, querem que tudo permaneça como está…

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