Vacina e tecnologia. Como funciona isso?

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Para grande alívio geral, as primeiras doses de vacinas começaram a ser aplicadas, no Brasil. A atual efervescência do assunto leva muitos brasileiros a opinarem, dando suas posições contra ou a favor das vacinas, ou de algumas delas, mas nem todos explicam as suas razões.
Eu sofri um sarampo, quando criança, quando também me angustiei durante um surto de poliomielite, na cidade de São Paulo. Adulto, senti-me impotente ao ver meu filho de oito anos chorando, atrás de uma janela em um hospital. Ele estava isolado, com catapora visceral. Hoje, sarampo, pólio e muitas outras doenças deixaram de nos assombrar. Minha memória e a minha bem sucedida experiência com a vacina contra gripe me obrigam a esperar ansiosamente pelo momento em que receberei a injeção de vacina contra a Covid-19.
Desde o surgimento da pandemia foram feitos grandes esforços para se conseguir uma vacina e já há algumas dando bons resultados, em muitos países. Mas poderia não ter surgido o resultado desejado. Afinal, várias décadas de trabalho, gastando centenas de milhões de dólares em laboratórios muito bem equipados e com pessoal muito bem qualificado, só recentemente produziram a primeira vacina contra a malária. Além disso, não basta que haja vacinas, em muitos lugares: a Covid-19 seguirá matando milhares de pessoas por dia, pelo menos até que uma parte significativa da população esteja vacinada. Isto é: precisamos de quatorze bilhões de doses aplicadas, e não sabemos ainda com qual periodicidade a aplicação terá de ser repetida.
O noticiário a respeito da vacinação é abundante e aprendemos, diariamente, novos nomes das empresas fabricantes, bem como dos fornecedores de matérias-primas essenciais, de empresas de tecnologia, universidades e instituições de pesquisa que desempenharam papéis importantes na criação das vacinas e ainda de outras empresas e instituições públicas como o Instituto Butantan e a Fiocruz, que atuam no Brasil como fabricantes licenciados e distribuidores de vacinas.
Além das vacinas que já estão em uso, há mais um grande número de projetos de pesquisa e desenvolvimento de novas vacinas. O site da OMS listava, em 22 de janeiro de 2021, 237 projetos, sendo que 64 estão em fase de estudos clínicos (veja o endereço da OMS, abaixo). O site alemão VFA mencionava, em 18 de janeiro, mais outros onze projetos que não constam da lista da OMS.
No Brasil, há dois projetos autóctones em fase pré-clínica: um é realizado na Universidade de São Paulo, outro é um projeto conjunto do Instituto Butantan e Fiocruz. Além disso, muitos pesquisadores brasileiros, de vários estados, participam de estudos clínicos de vacinas desenvolvidas no exterior. Os casos mais conhecidos são os do Instituto Butantan, com a Coronavac chinesa e da Fiocruz, com a vacina adquirida da AstraZeneca.
A observação do que se passa com as vacinas da Covid-19 nos ensina muito, sobre como se desenvolvem as tecnologias, hoje em dia. Uma delas é: faz sentido que existam 237 + 11 (e talvez ainda mais) projetos de desenvolvimentos de vacinas, para uma mesma finalidade? Por que há tantos projetos?
A resposta tem várias partes. Em primeiro lugar, são várias as possibilidades de se produzir uma vacina. Todas elas atuam produzindo uma resposta dos nossos organismos, mas há várias formas de se produzir essa resposta. Por isso, os caminhos para se produzir uma vacina são muitos, e cada um deles deve ser explorado. As ciências da matéria viva não são exatas (como aliás quaisquer ciências da matéria), portanto não existe nenhuma equação, teoria ou algoritmo que permita afirmar, com certeza, qual será a melhor vacina, muito menos qual pode se tornar disponível em menos tempo. Estão sendo exploradas dez plataformas diferentes, predominando as baseadas em subunidades de proteínas do vírus, em vírus inativados, em DNA e RNA. A grande maioria dos ensaios clínicos é feita usando injeções intramusculares, mas também há ensaios com administração oral, subcutânea e intradérmica.
Outra razão de haver muitos projetos é o empenho de governos, empresas e do público em conseguir uma solução. Examinando a lista de projetos, vemos vários projetos em alguns países ou em uma mesma empresa ou organização. Países que não fazem parte do rol dos mais ricos têm seus próprios projetos. Um país rico como Israel tem os seus, mas está comprando e usando o que já está disponível
Os projetos na China são numerosos. Treze já estão em fase clínica. Só a empresa Sinopharm (não confundir com Sinovac, outra empresa) tem dois, um com um instituto de pesquisa de Beijing, outro com um instituto em Wuhan, ambos baseados em vírus inativados. Nos Estados Unidos também são vários os projetos. Alemanha, Japão, Reino Unido, França, Israel, Índia, Rússia, Canadá e Cuba têm mais de um projeto cada um, em fase clínica. Também aparecem na lista a Indonésia, Tailândia e Taiwan.
Todo esse empenho se justifica por razões humanitárias, mas também estratégicas e econômicas. Conter a pandemia significa reduzir as restrições às atividades de todo o tipo. Todos os governos precisam dos impostos gerados pelas atividades econômicas, precisam que as escolas funcionem plenamente, que os hospitais possam cuidar de pacientes de todas as muitas doenças “normais”.
A disputa entre empresas é acirrada, porque o mercado é imenso e inclui todos os indivíduos com alto poder aquisitivo, de todo o mundo. Um fato curioso foi o observado há poucos meses, quando a AstraZeneca e Universidade de Oxford publicaram os resultados obtidos com sua vacina, mostrando uma taxa de produção de anticorpos inferior à de outras, que já haviam sido divulgadas: no dia seguinte à publicação, as ações da empresa caíram cerca de 10%, na bolsa de Nova York. Esse fato demonstra que investidores também se interessam pela literatura científica.
Nesse cenário, a posição brasileira é obviamente modesta. Mesmo louvando os dois projetos em fase pré-clinica e as participações em projetos de outros países, não é possível que nos orgulhemos dos feitos brasileiros. Mas essa decepção poderá ser uma consequência positiva da pandemia: ela escancara as mazelas do nosso sistema de formação de pessoal e de produção de ciência e tecnologia. Algumas mazelas são recentes mas as mais graves vêm sendo cultivadas há décadas, governo após governo, com poucos bons exemplos contrários. Mais do que nunca, precisamos resolvê-las. No século 21, com ou sem pandemia, só sobreviverão os que conseguirem criar tecnologia, incorporando-a aos seus produtos. Sem isso, não se consegue nem mesmo aproveitar bem, e rapidamente, as tecnologias criadas em outras nações.

Para ler mais:
O site da OMS citado no texto é:
https://www.who.int/publications/m/item/draft-landscape-of-covid-19-candidate-vaccines
Nele, pode-se fazer o cownload do documento “Novel Coronavirus Landscape Covid-1920210122” o site é atualizado periodicamente e os últimos seis dígitos são da data de atualização.

O site da VFA é: https://www.vfa.de/de/englische-inhalte/vaccines-to-protect-against-covid-19

Um vídeo do Prof. Jorge Kalil, coordenador do projeto de vacina da USP:
http://usptalks.prp.usp.br/pt/usp-talks-35-ciencia-x-coronavirus-vacinas-jorge-kalil/

Sobre a vacina da malária:
https://www.nationalgeographic.com/history/2020/04/new-malaria-vaccine-sparks-hope-cheaper-measures-still-useful/

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