Tecnologia, normas e pandemia. O que é “bom”?

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Mentiras, meias-verdades e omissões são encontradas em qualquer ambiente, em um ou outro momento. Seus motivos mais comuns são a busca de poder, dinheiro, status ou vantagens. Muitos alquimistas mentiram, afirmando que sabiam produzir ouro a partir de metais comuns e baratos, ou que podiam fazer algum elixir da longa vida e outros produtos muito desejáveis.
Poucos anos atrás, qualquer pessoa podia comprar pela Internet uma máquina para produzir seu próprio ouro, em casa. O site foi bloqueado, mas sempre me pergunto quantas máquinas foram vendidas. Por outro lado, uma das experiências de Química feita pelas alunas de um caríssimo “college” dos Estados Unidos mostrava como moedas de cobre (aquelas vermelhinhas, de 1 cent) podem ser revestidas com uma fina película de ouro, parecendo ser preciosas – mas só parecendo. Essa experiência de laboratório alerta alunos e alunas para a facilidade com que se pode produzir uma falsificação – uma lição que vai muito além da Química ou mesmo das ciências naturais.
Foi o receio de falsificação de ouro que levou o rei Herão, de Siracusa, a perguntar a Arquimedes se ele tinha como saber se o artesão encarregado de fazer sua coroa tinha realmente usado todo o ouro que lhe fora entregue pelo rei. Problema difícil. A solução ocorreu ao filósofo durante o banho, o que o levou a sair correndo gritando “Eureka!, para informar ao rei que o problema estava resolvido.
A ciência e a tecnologia atuais aplicam muitos esforços e gastam muito tempo e dinheiro em formular e responder a perguntas como: “isso é o que me querem fazer crer que seja?” ou “como posso garantir que não estou enganando, ou sendo enganado”, em uma infinidade de situações. Qual é a melhor solução hoje praticada por consumidores, pela indústria e governos, para obterem as respostas? São as normas, uma ocupação de muitas pessoas com excelente formação técnico-científica. Normas são, para engenheiros, pesquisadores e consumidores, o mesmo que as leis são, para juízes, advogados e cidadãos. Elas dizem o quê pode ser chamado de o quê. Também dizem como se procede para que qualquer conclusão, sobre qualquer bem ou produto, seja compreendida da mesma forma, por qualquer pessoa.
As normas são parceiras dos padrões, cuja existência responde à necessidade de vendedores e compradores estarem seguros de quanto estão vendendo ou comprando, seja de leite ou trigo, tecido, terra ou qualquer outro bem. Padrões evoluíram lentamente: o palmo e o cúbito eram medidas de comprimento baseadas em medidas anatômicas dos faraós, portanto deviam mudar, quando assumia um novo faraó. Imaginem se isso acontecesse com o metro!
Hoje, todos os países se ocupam de normas e padrões, com maior ou menor intensidade. Quanto mais um país pretende ser tecnologicamente desenvolvido e quanto mais queira se apresentar como respeitável, mais se ocupa desse assunto. Nos últimos cinquenta anos, normas e padrões são tratados dentro dos sistemas de qualidade de países e empresas, sendo observados atentamente pelas organizações de consumidores.
Mas sempre surgem desafios, porque sempre surgem coisas e situações novas, produtos novos e preocupações novas. Surgem as necessidades de novas normas e padrões, para que os sistemas de qualidade sejam significativos e cada pessoa possa ter um razoável nível de segurança a respeito daquilo que adquire, ou a que está exposto.
Durante a atual pandemia surgiram vários problemas desse tipo. Dois exemplos bem claros são o uso de medicamentos já bem conhecidos ou em desenvolvimento, na prevenção e tratamento da Covid-19, e a avaliação das vacinas.¬¬¬¬ O noticiário nacional e internacional desses dois assuntos tem sido fortemente poluído por conflitos de interesses, seja econômicos, políticos ou de prestígio social, que podemos ver nos jornais, televisão e internet diariamente.
Uma frequente causa de confusão é a falta de quantificação ou de contextualização dos dados. Outra, é a comparação do que não pode ser comparado. Pudemos ver isso durante a apresentação feita por cientistas e dirigentes do Instituto Butantan, dos resultados da avaliação da vacina Coronavac. Ficou muito claro que os ensaios obedeceram a critérios muito exigentes. Por exemplo, todas as pessoas que receberam vacina ou placebo atuam em ambiente hospitalar, portanto a população testada estava sob risco muito maior do que, por exemplo, todos os que têm liberdade para não se exporem. Por outro lado, mesmo sintomas leves, que poderiam ter outras causas, foram levados em conta para definir o número de pessoas que teriam contraído a doença. Obviamente, a equipe do Instituto Butantan estava muito mais preocupada em apurar a eficácia da vacina, do que em produzir números agradáveis a acionistas, ou políticos, ou aos seus próprios egos.
A comparação dos números da Coronavac com os de outras vacinas foi muitíssimo explorada. Uma revista muito prestigiada por cientistas e jornalistas científicos destacou os 50,4% (…was 50.4% effective at preventing severe and mild COVID-19 in late-stage trials…). A frase está correta, mas omite um ponto extremamente importante que é a grande eficácia em prevenir os casos graves. A mesma revista compara a CoronaVac a outras vacinas, sem informar o contexto ou +se a base de comparação dos números é a mesma. Isso sempre acontece, na falta de normas, ou quando pessoas e organizações pretendem transformar suas opiniões em normas.
Uma situação análoga ocorre quanto ao uso de medicamentos. O que se lê com frequência, em discursos de pessoas que merecem ser ouvidas, é que não há nenhuma evidência científica da eficácia de nenhuma das vários drogas apontadas como eficazes. As afirmações são acompanhadas de citações de artigos científicos e de posições de órgãos oficiais.
Entretanto, há também muitos relatos, em artigos científicos e depoimentos de pessoas competentes e decentes, sobre a eficácia de vários medicamentos bem conhecidos, na prevenção e tratamento da doença. Qual é a origem desse problema? Ela pode estar no fato de alguns cientistas só aceitarem as metodologias e protocolos com os quais estão familiarizados, menosprezando a multiplicidade de formas de construção da Ciência. Também contribui o sempre presente, mas às vezes inconsciente, risco de rejeitarmos tudo o que não nos convém, nem aos nossos projetos.
Nenhuma tecnologia pode ser desenvolvida, sem que sejam definidas normas, que permitam que as pessoas se comuniquem para serem entendidas, e não para confundir. Mas isso precisa de tempo e reflexão que não estão disponíveis, na atual pandemia.
Não havendo normas suficientes para dar completa transparência às informações, temos de depender de uma virtude que tem sido ignorada por muitas pessoas: a honestidade intelectual.
E temos de duvidar, que é uma parte importante do processo de descoberta científica e do avanço tecnológico, reconhecendo em cada pessoa o direito de duvidar. Mas não podemos fazer isso de maneira que paralise nossos esforços, ou que se transforme em negação sistemática do que não nos agrada.

Para ler mais:
O link https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7698683/ dá acesso aberto ao artigo de Martin D. Hellwig and Anabela Maia, A COVID-19 prophylaxis? Lower incidence associated with prophylactic administration of ivermectin, Int J Antimicrob Agents. 2021 Jan; 57(1): 106248.
doi: 10.1016/j.ijantimicag.2020.106248
Uma análise crítica de artigos sobre ivermectina pode ser lida em https://rebelem.com/covid-19-update-ivermectin/#:~:text=Conclusion%3A%20According%20to%20the%20authors,patients%20with%20severe%20pulmonary%20involvement.
Sobre a honestidade intelectual: http://thomasvconti.com.br/2013/honestidade-intelectual-principios-esquecidos/; https://sisyphuslitmag.org/2018/01/intellectual-honesty/

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