Monteiro Lobato, a Chave do Tamanho e a Pandemia

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De toda a magnífica obra de Monteiro Lobato, o livro que mais admiro é “A Chave do Tamanho”. Lançado em 1942 é classificado entre os seus livros infantis, mas eu discordo. Eu entendo que se trata de uma admirável alegoria sobre a importância de conhecermos o meio em que vivemos, para podermos sobreviver.

A história começa durante um belíssimo pôr do sol, “de trombeta”, segundo a Emília, que logo acha pretexto para exercer seu agudo espírito crítico mostrando como as falas dos adultos estão cheias de mentiras. Como sempre, ela não usava meias-palavras, mas tinha bom-senso,
mais adiante ela explica que “Se a mentira fizer menos mal do que a verdade, viva a mentira!”

Chega o carteiro com os jornais, o Pedrinho lê as notícias de bombardeios e outros horrores da guerra, que deixam Dona Benta muito perturbada, a ponto de produzir uma decisão, em Emília: ela deveria ir à Casa das Chaves, as que regulam todas as coisas do mundo, e desligar a chave da guerra. Sim, a guerra acontecia porque alguém tinha ligado essa chave.

Uma nova versão do pó de pirlimpimpim a levou diretamente à Casa das Chaves, onde ela encontrou todas as chaves que regulam o mundo – todas iguais. Desligou uma delas, e ocorreu um grande imprevisto: descobriu-se nua, muito pequena, rodeada de objetos familiares, mas gigantescos. Ela não havia desligado a chave da guerra, e sim a chave do tamanho. Isso transformou todos os seres humanos em bichinhos minúsculos, mas só as pessoas haviam diminuído. Todos os outros seres e coisas continuavam do mesmo tamanho!

Podemos então ler esta frase inspiradora: : “A situação era tão nova que as suas velhas idéias não serviam mais. Emília compreendeu um ponto que Dona Benta havia explicado, isto é, que nossas idéias são filhas de nossa experiência. Ora, a mudança do tamanho da humanidade vinha tornar as idéias tão inúteis como um tostão furado. A idéia duma caixa de fósforos, por exemplo, era a idéia duma coisinha que os homens carregavam no bolso. Mas com as criaturas diminuídas a ponto duma caixa de fósforos ficar do tamanho dum pedestal de estátua, a “idéia-de-caixa-de-fósforos” já não vale coisa nenhuma.”

Emília procurava uma forma decisiva e rápida de acabar com a guerra, e o que conseguiu foi colocar toda a humanidade em uma situação completamente nova, onde as ideias anteriores não valiam mais! Mas isso sempre acontece com cada um de nós, com grupos inteiros, com nações.
No momento atual, acontece com toda a humanidade. Precisamos hoje de muitas ideias novas, da ciência que as gera e dos seus produtos: vacinas, máscaras, medicamentos, terapias, equipamentos, diagnósticos, produtos químicos para fabricar tudo isso, logística. Além disso, cada pessoa precisa encontrar novas formas de se comunicar, de educar, compartilhar sentimentos e emoções, enterrar seus mortos e receber os que nascem. E precisamos todos continuar enfrentando velhos problemas, de saneamento, de habitação, de mobilidade, e de aumento da infraestrutura material. Para fazer tudo isso é preciso termos as redes de pessoas motivadas e capacitadas para examinar situações, propor e testar soluções, analisar (sempre com muita humildade) os seus resultados e fazer as necessárias correções de curso.

Aprendemos com Emília que a saída oferecida pelo superpó do Visconde de Sabugosa pode ser perigosa e que não há nenhuma grande mágica salvadora. Mas estando em uma situação tão nova, completamente imprevista, o que acontece com Emilia, Dona Benta, Tia Nastácia, Narizinho, Pedrinho e todas as demais pessoas? O coronel Teodorico, antes vaidoso dos seus 1,80 metros, estava reduzido a 4 centímetros e meio!

Voltando ao Sítio, Emília logo encontrou um monstro: um pintinho que ciscava no terreiro e certamente não iria deixar de querer incluir a Emília na sua alimentação do dia. Os capítulos seguintes são cheios de surpresas. Destaco as descobertas de um mundo novo e, ao mesmo tempo, a criação de um sem-número de tecnologias apropriadas para a nova situação. A primeira descoberta foi o uso do mede-palmo como uma escada-rolante (deu certo), seguida de tentativas fracassadas de usar um caramujo, um tatu-bolinha um gafanhoto como cavalos. Ameaçada por formigas e aranhas, Emília inventou seu primeiro instrumento de defesa, usando um espinho seco para se defender de uma aranha.

São 25 capítulos de aventuras, invenções, reflexões, discussões e frases inesquecíveis. Cada um deles nos serve de inspiração para respondermos a duas questões que sempre estão presentes, mas atualmente nos pressionam muito: Qual conhecimento nos permite sobreviver, e o que precisamos saber fazer, nas circunstâncias em que nos encontramos?

As respostas incluem muitas questões de Cultura, de Ciência e de Arte, mas vou me deter em um ponto das questões de Tecnologia: uma certa tecnologia pode ser apropriada a um lugar e um tempo, mas não a outro. Um exemplo simples: a tecnologia trazida por agricultores de clima temperado que colonizaram o Brasil, nos primeiros séculos, provocou inúmeros problemas de degradação do solo. As queimadas praticadas desde sempre pelos índios brasileiros, em uma certa condição de ocupação da terra, mostraram-se devastadoras, nas novas condições.

Estes são exemplos dramáticos que nos mostram a necessidade de olharmos para o nosso meio e estuda-lo, para podermos decidir de quais tecnologias precisamos, quais podemos e devemos adotar, quais são prejudiciais. E principalmente, quais devemos criar, porque inexistem ou são pouco conhecidas. E aí vem uma questão: mas faz sentido pensarmos em fazer aqui coisas que não são feitas em outros países, mais ou menos desenvolvidos? Sim, porque vivemos, desde Pedro Álvares Cabral, em uma situação nova e temos de enfrentar o desafio de encontrar as tecnologias apropriadas para a nossa singular condição geográfica e climática. E temos de descobrir novas bases científicas para embasar e compreender essas tecnologias.

Monteiro Lobato percebeu isso, com toda a clareza. Poderia ter escrito um grande tratado doutrinário que o levasse a grandes debates acadêmicos, entrevistas e posições de destaque. Não o fez, apenas escreveu um livro para crianças – que cada adulto deve reler. Por isso mesmo, não vou contar mais nada sobre o livro. Ele tem de ser lido, relido e pensado. É riquíssimo, de informações e reflexões sobre quase tudo que é realmente importante.

Para saber mais:
Monteiro Lobato, A Chave do Tamanho. A edição original é de 1942, passando por uma revisão, ao ser inserido nas “Obras Completas” do autor. O livro é facilmente encontrado, inclusive em forma eletrônica.

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