Uma tinta é muito mais que uma tinta

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Quando olhamos para uma casa, um automóvel, navio, ou avião, uma placa de publicidade, de trânsito ou um impresso e muitas outras coisas que nos rodeiam, o que realmente enxergamos é o seu revestimento. E o revestimento é, quase sempre, obtido com uma tinta.
Tintas fazem parte da cultura humana. Há muitos milênios que o seu uso viabiliza a comunicação visual, através da pintura e da escrita, incluindo obras de arte admiráveis e valiosíssimas.
Pintando seus produtos, fabricantes dos mais diversos setores satisfazem as exigências dos compradores, ampliando o significado do provérbio: “À mulher de Cesar não basta ser honesta, ela também precisa parecer honesta”. Este provérbio é inspirado na defesa feita por Júlio Cesar perante os senadores, quando foi perguntado sobre o seu divórcio de Pompéia Sula.
O papel decorativo das tintas é bem conhecido. Outro papel importante, mas menos óbvio, é o seu papel protetor. Uma parede de alvenaria com a pintura descascada logo apresenta manchas, que revelam a sua colonização por fungos e a deposição de fuligem e poeira. Essa é também a origem da feiura vista em muitas cidades, onde as construções de concreto aparente e outros materiais apresentam extensas manchas escuras e irregulares, criando ambientes urbanos deprimentes. Também há belíssimos exemplos de uso da cor e da proteção oferecida pelas tintas, pelo mundo afora. Um caso bem conhecido é o dos Lungarnos de Pisa e Florença. São os trechos urbanos do rio Arno, nessas cidades, transformados pelo planejamento e pelo respeito às leis em lugares nobres. Neles, se explora os efeitos da luz solar sobre as cores dos prédios adjacentes.
O concreto aparente foi muito usado no Brasil, privilegiando questões escultóricas mais que respeitando a própria função do prédio, além de ignorar o conhecimento sobre a química do concreto, a sua suscetibilidade aos agentes ambientais e a elevada umidade atmosférica, em grande parte do país. Em muitos casos, formaram-se trincas que cresceram até expor o aço das estruturas e acelerar a sua decomposição, criando graves problemas urbanos. Hoje, há bons novos exemplos do seu uso, mas agora devidamente protegido por tintas, vernizes ou hidrofugantes. Estes últimos são aplicados em camadas muito pouco espessas que preservam o aspecto do concreto e diminuem o seu contato com a água. Mesmo assim, não resistem a jatos de água sob pressão, nem a gases ácidos e também são destruídos pela lenta oxidação, ao ar.
Além do seu papel decorativo e de proteção, as tintas exercem muitas outras funções. Por exemplo, contribuem para se economizar energia gasta na iluminação de interiores. Isso é muito fácil de observar: basta pintar de branco as paredes e principalmente o teto de qualquer ambiente para que a claridade do ambiente aumente: as paredes passam a refletir e espalhar a luz, ao invés de absorvê-la.
Tintas anticorrosivas são muito importantes em veículos e estruturas metálicas, especialmente grandes estruturas expostas a ambientes muito agressivos, como os navios, diques e plataformas de exploração de petróleo que sempre estão em contato com a água do mar.
Além da corrosão, estruturas metálicas no mar também estão expostas à colonização por cracas, ostras e outros organismos, que podem formam camadas pesadas e espessas. O resultado é o aumento no peso das estruturas e no efeito das correntes marinhas sobre as plataformas, ou do atrito com a água do mar, nos navios. A colonização de metais por seres marinhos é tão importante que automóveis, vagões de metrô e outros veículos descartados têm sido parte importante de programas de criação de recifes artificiais, em vários países. Os recifes artificiais que se formam sobre a sucata descartada são benéficos para o aumento da população de peixes, mas se quisermos evitar que navios e plataformas de petróleo se transformem em recifes flutuantes, eles devem ser protegidos. Isto pode ser feito acrescentando substâncias venenosas às tintas, o que é cada vez menos aceito pelo público. Outra maneira de fazer isso é que a tinta seja anti-aderente, por algum mecanismo que dificulte a adesão dos organismos marinhos.
Um outro caso importante é o das tintas anti-chama, ou retardantes de chama, que podem impedir desastres trágicos, como os do incêndio do Museu Nacional, do centro de treinamento do Flamengo e de hospitais no Rio de Janeiro, ou da catedral de Notre Dame em Paris, além de muitos outros exemplos.
Estas e muitas outras demandas do público motivam uma intensa atividade de pesquisa e desenvolvimento de novos tipos de tintas, ou da agregação de novas propriedades e funções às tintas já existentes. Por exemplo, há muita pesquisa sendo feita para se criar tintas que possam conduzir eletricidade, ou calor, ou eliminar cargas estáticas, inativar ou matar bactérias, fungos e vírus, coletar energia do meio ambiente, etc.
Para estimular esse trabalho de pesquisa, a Associação Brasileira de Fabricantes de Tintas realiza, desde os anos 80, uma premiação de trabalhos de pesquisa em tintas. Em 2020, tive a grande satisfação de ganhar o primeiro prêmio, dividindo com a Dra. Leandra Pereira dos Santos a autoria de um trabalho que apresentou uma nova classe de tintas retardantes de chama. Os outros dois trabalhos premiados, entre dezenas de concorrentes, trataram de outros temas muito importantes. O segundo colocado mostrou o desenvolvimento de matérias-primas para tintas, capazes de atender às estritas exigências ambientais da União Européia, usando matérias-primas de fonte renovável e com excelente desempenho, no uso. O terceiro colocado abordou uma outra matéria-prima de fonte renovável, com grandes possibilidades na formulação de tintas.
Note-se a preocupação das empresas e pesquisadores com a sustentabilidade e a proteção ambiental, em um clima muito diferente dos anos 40-70, e convergente com as diretrizes das Nações Unidas. Hoje, tecnologia é desenvolvida, cada vez mais, tendo em vista o interesse comum, sem descuidar da viabilidade técnica e econômica dos produtos e processos.
Para saber mais:
A cerimônia de entrega do 21º. Prêmio de Ciência em Tintas (2020) da Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas (Abrafati) foi gravada, e está disponível na página do Youtube do Abrafati Show. O link é: https://www.youtube.com/watch?v=durttz2D7PQ. Em breve, a Abrafati vai colocar o link no canal institucional de Linkedin.

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