Leitor voraz

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J. Pascoal S. foi iniciado no amor pela literatura desde os ensinos primários no antigo Seminário Franciscano de Santa Bárbara. Frei Ambrósio do Amor Divino, o primeiro professor de letras lhe apresentara Dom Quixote de La Mancha, de Cervantes quando ele tinha apenas 11 anos de idade. Ainda se lembra de como tinha mergulhado naquelas palavras mágicas que para sempre iriam mudar e redirecionar a vida daquele garoto dali em diante. Dom Quixote lhe ensinou ver na vida um misto de realidade e magia que cabe a cada um de nós colhermos e se deliciar, cada um à sua maneira. Frei Ambrósio há muito tempo já se foi, mas deixou dentro de Pascoal um vírus, que não morrendo, se alastrou sempre de modo contínuo e ampliando cada vez mais.


Tantos anos já se passaram desde aquele inocente 11 anos de idade. O amor pela ficção ficou transposto em páginas maravilhosas que ao longo de todos os anos ele soube cultivar e alimentar sempre mais. Esse vírus o contaminou. Durante muito tempo levou-o a conhecer mentes brilhantes dos melhores e mais conhecidos mestres da literatura tanto de seu país, o Brasil, como também os que escreveram em outras línguas. Cada livro lido contribuía para seu aperfeiçoamento intelectual, enriquecendo seu conhecimento e quase sempre o conduzindo a um novo autor ou a outra obra que entrava em sua agenda de “próximas leituras”. Esta agenda foi com o passar do tempo sendo atualizada e novos livros eram incluídos lá.


Certo dia procurou de memória calcular quantos livros de ficção já teria lido. Não foi fácil chegar a um número, mas como acha ter lido em média dois livros por semana, calcula ter lido algo em torno de 5.800 livros nos últimos 55 anos. Leu livros comprados em sebos, ou emprestados de bibliotecas públicas e muitos os comprou nas livrarias. Nos últimos anos tem comprado grandes quantidades que espera ler quando tiver mais tempo disponível. Sua casa esta abarrotada de livros. É livro para todo lugar, muitos verdadeiros best-sellers e outros são complementos de obra de seus autores favoritos. Só de Georges Simenon deve ter mais de 80 volumes que aguardam uma releitura. Já de James Michener lá temos todos os escritos por este favorito autor, também aguardando releitura.

Este é Pascoal, um homem comum que fez da leitura de livros de ficção de todos os tipos, sua principal atividade nesta vida. Demais atividades sempre foram acessórias e colocadas em segundo plano, mesmo sua vida em família e no trabalho…
…Pascoal está casado há longos anos. Não tem filhos. Vive com a esposa e com seus amigos inseparáveis — os livros de sua vida. A todo o momento é visto segurando um livro, lendo de modo metódico e constante. A esposa se acostumou com estes hábitos do marido e com o passar do tempo a casa tornou-se silenciosa e raramente havia longas conversas sobre qualquer assunto. Quando havia, a iniciativa era tomada por ele, seja comentando algo de suas leituras e do que se passava em sua mente. Ela é paciente e uma companheira ideal. No íntimo, preferia o marido com essa mania, ao invés de outros adoradores de degustar cervejas nos bares da vida. Tal casal havia sido feito um para o outro.
— Pascoal, tome seu café. Vai acabar esfriando e aí você reclamará do café frio. Pare essas leituras pelo menos enquanto se alimenta. — Dizia ela quase todas as manhãs, mas ele nem ouvia. Sua mente estava no enredo do que lia.


Era esta a rotina diária daquela diminuta família. Saia apressado para o trabalho, carregando o livro do momento e no trajeto lia sempre que o sinal permitia, mesmo sabendo ser proibido. Já pagara multas por ler ao volante. Vivia em seu mundinho ficcional e lá tendo deleites e um imenso prazer…
… Profissionalmente sempre fora competente e eficiente. Cumpria a contento todas as atribuições que eram dadas a ele.
Trabalhava nos últimos anos em serviços administrativos burocráticos. Uma enorme sala, instalado atrás de uma mesa com várias gavetas. Lá nelas se podia achar o livro atual e sempre que podia procurava ler um pouquinho, desde que não atrapalhasse o trabalho em andamento. Ao ir ao toalete, em podendo, lá ia também o dito livro. Com isso o enredo de tal livro estava sempre na mente e o intelecto fazia previsões de como a trama iria se conduzir dali em diante.


Os chefes sabiam destas manias. Já tinham alertado, tinham ameaçado, mas não adiantou. Ele não mudava, seu vício era este. No mais, era excelente profissional e com o tempo era aceito, apesar desta idiossincrasia.


Já estava chegando à velhice e sua vista aos poucos foi dando sinais de fraqueza. Já não lia tão bem como antes. Os oftalmologistas que o atendiam vinham com o correr dos anos, aumentando os graus de seus óculos, pouco a pouco. Já estava usando graus altíssimos ultimamente. Eram óculos daqueles considerados verdadeiros fundo de garrafa.
Pascoal não enxergava praticamente mais nada sem os atuais óculos.


A rapidez na leitura tinha diminuído um pouco, mas em nada mudou suas leituras que ainda continuavam sendo feitas a todo tempo e em todo lugar. Só se tornara dependente dos óculos super possantes…
… Pascoal dentro de seu mundinho pouco ligava para o que se passava à sua volta.


A geopolítica internacional vinha mudando nos últimos anos e as grandes nações da Terra faziam tudo o possível para manter seus interesses em equilíbrio, mas grandes dramas estavam se tornando inevitáveis. Uma nova guerra estava se tornando mais do que provável e tudo indicava que as missões diplomáticas não estavam conseguindo manter as partes interessadas isoladas e fora de um possível conflito, que desta vez seria de consequências catastróficas para todos.

O mundo estava dividido naqueles que apoiavam a nação norte-americana, contra aqueles que mantinham vínculos com potências asiáticas poderosas. O caos parecia estar se aproximando. O próximo conflito seria de proporções mundiais e neste seriam usados artefatos nucleares em grande quantidade, pois vários países beligerantes os tinham em grandes estoques e o uso, uma vez começado o conflito, seria de uso obrigatório. A corda que segurava tal situação estava prestes a se romper. Só Pascoal nada sabia disso…
… Pascoal levava uma vida alheia a este imenso estopim de pólvora que se construía. Sua vida era seus livros e cumprindo suas obrigações no trabalho e em sua casa.


Naquela quarta-feira, 1º de Abril de 2020, tinha ido buscar documentos num local que a empresa possuía. Era uma espécie de “bunker”, construído há trezentos metros abaixo da superfície da terra. A empresa onde trabalhava, tinha depósitos de matéria prima ultrassecreta neste local, longe de radares e satélites inoportunos. Como sempre acontecia tinha levado um livro e lá, em meio ao silêncio, continuara sua leitura habitual.


Depois de algumas horas retorna ao local normal de seu trabalho.
Mal saíra da porta especial de tal “bunker”, Pascoal tem uma surpresa. Tudo mudara desde que tinha se ausentado para buscar tais documentos. Não vê ninguém circulando nas redondezas e tudo parece ter parado. Não há eletricidade, não há movimento nas ruas, um silêncio completo toma conta de tudo.
Caminhando mais vê estarem todos mortos. Todas as pessoas tinham morrido no local onde estavam no momento, não apresentando nenhum ferimento ou sinais de medo ou de dor. Homens, mulheres e animais domésticos, todos estavam mortos. Os veículos parados com seus passageiros ainda nos bancos e mortos. Não havia fumaça, nem destruição de casas ou instalações de qualquer espécie. Tudo intacto, só os seres viventes tinham morrido.


Pascoal corre por todos os locais da empresa onde trabalha e não acha ninguém. Vai para casa rapidamente e lá encontra a esposa morta junto ao cachorrinho da família. Meu Deus! Que tinha ocorrido?
Fica desesperado, chora amargamente sem entender o que ocorrera.


Volta à rua e caminha sem rumo, na esperança de encontrar alguma viva alma. Nada encontra. Ao passar por uma banca de jornal vê manchetes publicadas naquela manhã. Lê tudo que consegue nos jornais e revistas disponíveis e em pouco tempo fica sabendo da possibilidade de uma deflagração iminente de uma guerra de consequências mundiais e os efeitos desastrosos que se previam, se isto fosse ocorrer.
Pascoal leu que entre as armas atômicas previstas para serem utilizadas havia uma chamada de Bomba de Nêutrons. Esse artefato mataria todos os seres vivos, sem destruir a natureza e instalações físicas. O objetivo desta arma era eliminar o inimigo, deixando o caminho livre para uma invasão e ocupação posterior, aproveitando toda a estrutura já existente. Pascoal deduziu ser isso o que tinha ocorrido…
… Ficou desorientado e com o passar do tempo foi se adaptando à nova realidade. Achou comida, pois os produtos da terra não sofreram com a destruição. Até conseguiu utilizar os veículos existentes abandonados por todo lugar e assim podia se locomover para locais mais distantes.


Com o passar dos dias sua vida, por incrível que pareça, voltara a uma nova rotina após o colapso.
A vontade de ler ainda existia e descobriu poder buscar os livros que precisava sem pagar ou sem pedir para ninguém. Buscou por grandes livrarias e lá se instalou lendo tudo que era possível e quando completava, partia para outra e assim passou a fazer. Até nas grandes bibliotecas entrou e leu tudo o que quis. Chegou a catalogar, enumerar em ordem para que cumprisse certo cronograma de prioridades.
Parece incrível, mas depois de algum tempo, Pascoal não se lembrava do mundo de antes do cataclismo. Tinha seus livros, comida… O que mais precisava?…


… Certo dia começava a ler mais um de seus livros favoritos. Era outro de Simenon. Senta-se num local aprazível para ler. Minutos após uma breve soneca, acorda em sobressalto e instintivamente dá um pulo para trás. Nesse movimento brusco, seus óculos caem no chão duro e se quebram num barulho seco, espatifando-se. Apalpa com cuidado o chão e percebe que tinha perdido seus inseparáveis óculos de grau altíssimo. Agora não conseguia ver quase nada, apenas uma vaga e inexpressiva imagem. Sentia estar num quarto escuro e sem luz.


A partir de então Pascoal vagueia por aí tateando as paredes a procura de comida. Até quando?

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