Teoria dos Vasos Comunicantes

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Parece ter sido ainda ontem, a minha aposentadoria do Banco Central. Já completou mais de dois anos. Nossa! Como o tempo passa tão rápido. Os dias são como a água que escorre por nossas mãos, vai embora numa velocidade incrível. Logo, logo já estarei um velho e esta existência já terá passado.
Bons tempos aqueles em que ingressei no serviço público, depois de trabalhar longo tempo nas empresas privadas. O emprego público tem suas vantagens, mas na sua grande maioria é como se a pessoa estivesse entrando num caixão e ele fosse aos poucos se fechando. Não foi o meu caso, mas sei que para muitos tem sido assim. O fato de se ter garantia de emprego para o resto da vida é ao mesmo tempo uma vantagem, mas é também uma dura condenação à monotonia dos longos dias em serviços considerado públicos. Sei de casos, de conhecidos meus, que ao entrar num concurso, suas vidas profissionais se anularam e passaram dali em diante a seguir o curso dos dias, alguns tediosos, outros cansativos, muitas vezes fazendo um trabalho de que não gostam, sujeitando-se a chefias tirânicas e incompetentes, onde sua capacidade criativa é drasticamente interrompida em prol de um emprego seguro. Tudo tem seu preço. Graças a Deus, este não foi meu caso.
Trabalhei por 26 longos anos no Banco Central, um órgão proeminente de grande significado para a comunidade brasileira. Mesmo assim tive momentos de ansiedade, onde meus neurônios tinham mais a ajudar, mas que não pude satisfazer, pois lá tudo é regulado por leis e normas internas, matando em grande parte a iniciativa pessoalNotei muito no serviço público que, considerado não existir o risco de desemprego, muitos servidores relaxam no trato pessoal, na aparência e a maioria, sem exceção, caem na rotina do serviço repetitivo, depois de algum tempo, em todos os escalões da estrutura…
… Fiz minha faculdade de Economia na Fundação Santo André. Era o começo de minha vida profissional.
Conheci lá muitos professores que muito direcionaram minha vida. Mas há um, em especial, que me marcou profundamente.
Tratava-se de um velhinho simpático, aparentando entre 75 a 80 anos, mas de uma saúde inabalável, segundo ele mesmo dizia. Este professor tinha um hábito cativante a todos os que assistiam a suas aulas sendo elas verdadeiras cátedras na acepção da palavra. Esse hábito era o de trazer um pacote de balas de MEL. Trouxe por várias vezes e eram distribuídas por seu assistente. Esse mestre de Contabilidade era o professor Licurgo do Amaral Campos e o seu assistente chamava-se Álvaro. Dizia o Professor Licurgo que todos nós deveríamos chupar uma bala de mel ou tomar numa colher todos os dias, isso preveniria doenças e proporcionaria vida longa. Ele se colocava como prova do hábito.
O professor Licurgo sempre aproveitava suas preleções em falar sobre normas de conduta, tanto de saúde como de natureza moral. O velhinho deixou saudades tanto em mim quanto a muitos dos demais colegas, naquele longínquo ano de 1972.
Com o Professor Licurgo, aprendi a gostar de Contabilidade, que seria a base de muitas portas de entrada no complexo mundo corporativo das empresas onde trabalhei. Em qualquer área de Finanças e Controle ela era a base. No Banco Central me foi extremamente útil em muitos momentos. Foi com o Professor Licurgo que ouvi pela primeira vez, a explicação da Teoria dos Vasos Comunicantes, sobre como funcionavam as contas de partidas dobradas e de todo o embasamento teórico criado por Luca Pacioli, ainda no século XV.
O Professor Licurgo foi sempre lembrado por ser o único que tinha um assistente em sala de aula, que fazia chamada de presença, escrevia e apagava no quadro negro e corrigia as provas. O Professor Licurgo era só o comunicador, nos encantando com suas lições. Em dias de prova, quando o ambiente ficava silencioso, podia-se notar que ele dava algumas cochiladas rápidas. Todos nós fazíamos de conta que não era notado…
… Durante minha longa permanência no Banco Central, em determinado dia, percebi que as lições dos princípios gerais de Contabilidade ensinadas pelo Professor Licurgo seriam úteis e necessárias. Informei a meu Chefe que deveríamos contratá-lo para ensinar alguns conceitos num Curso de Treinamento inicial para novos Técnicos do Banco Central que estava para acontecer. Principalmente os conceitos de registros contábeis, teoria do Débito e do Crédito, e, principalmente a Teoria dos Vasos Comunicantes. Meu Chefe concordou e pediu que eu procurasse entrar em contato e sondar da possibilidade dele vir e ensinar aos novatos do Banco Central.
Infelizmente, ao procurar por ele fiquei sabendo de que havia morrido e por incrível que pareça, o Assistente Álvaro também tinha falecido. Ficamos todos nós, desta forma, sem a explicação da Teoria dos Vasos Comunicantes e, principalmente, eu fiquei sem as balas de MEL que ele certamente teria trazido a meu pedido.

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