Uma Revolução Silenciosa

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Arduino nasceu por volta do ano 955. Foi o ultimo marquês de Ivrea, no Piemonte, e depois rei da Itália (1002 a 1014), sempre disputando a coroa com rivais germânicos. É lembrado em Ivrea de várias formas, uma delas é um bar frequentado por estudantes do Istituto Europeo di Design Ivrea (IDII). No século 21, tornou-se o nome de uma empresa de hardware e software abertos e de projetos. Também designa uma grande comunidade de usuários, que cria e manufatura microcontroladores e kits usados para fazer dispositivos digitais. Seus produtos são licenciados de forma aberta, permitindo que qualquer interessado produza as placas de circuitos e os aplicativos.

Hoje, “arduíno” também é um substantivo comum, usado em muitas línguas, por milhões de profissionais, estudantes, designers e por pessoas que gostam de fazer coisas, os “mexedores” ou “fazedores”. Designa não apenas os produtos da empresa que os criou mas também muitos outros dispositivos e equipamentos de outros fabricantes, inclusive clones e variantes que têm suas próprias marcas e também fazem muito sucesso.

Tudo começou com projetos de estudantes de design, supervisionados por professores do IDII.
Em 2003, a tese de mestrado de Hernando Barragán, orientada por Massimo Banzi e Casey Reas descreveu uma nova plataforma de desenvolvimento, chamada de “Wiring”. O objetivo era criar dispositivos simples e ferramentas de baixo custo, que permitissem a não-engenheiros a criação de projetos de tecnologias digitais. A plataforma consistia de uma placa de circuito impresso, um microcontrolador ATmega168 e de um ambiente de desenvolvimento integrado (IDE) para criar, editar, corrigir e alterar os programas usados no microcontrolador. Em 2005, o projeto cresceu, com uma equipe de cinco pessoas. Massimo Banzi e um outro estudante do IDII ampliaram o projeto para incluírem um microcontrolador mais barato, o AT mega8, batizando o novo projeto como Arduíno. Em 2013, 700 mil placas de circuito (oficiais) já estavam nas mãos de usuários. Em 2020, estima-se que a comunidade de usuários inclua 30 milhões de usuários ativos.

Outros grupos e fabricantes criaram muitas alternativas ao Arduíno original, com nomes sugestivos: Raspberry Pi, BeagleBone, Sharks Cove, Minnowboard MAX, Nanode, Waspmote e LittleBits. Um site especializado lista as “Dez melhores alternativas ao Arduíno”, mas os produtos que recebem mais atenção são o próprio Arduíno e o Raspberry Pi.

De onde vem todo esse interesse? Ele deriva da enorme utilidade desses produtos e da facilidade no seu uso. Eles são usados em têxteis “inteligentes”, em drones, robots, computadores e em eletrônicos vestíveis ou montados em paredes, portas de geladeiras, plantas e outros locais que fazem parte de cada casa. Os hoje incontáveis “arduínos” estão por toda a parte. Tornaram-se uma parte importante do nosso dia-a-dia: podem não ser identificados por nós, mas percebemos os resultados da sua presença. mesmo que não os enxerguemos.

O conceito básico da sua criação, isto é, serem utilizados por pessoas não-especializadas, está bem sintonizado com a atmosfera tecnológica das duas últimas décadas, na qual surgiu o movimento “maker”, ou “fazedor”. Este movimento valorizou o “faça você mesmo”, o aprendizado adquirido pelo não-especialista e a transformação desse aprendizado em coisas úteis, em objetos, em utensílios e equipamentos, artesanato e objetos artísticos. Também valorizou a criação tecnológica feita, independentemente, por milhões de indivíduos, ao invés de mantê-la como um privilégio de especialistas.

O movimento “maker” provocou a criação dos “maker spaces”, os espaços de fazedores, em universidades, escolas de ensino técnico e médio, e mesmo em igrejas e outros ambientes comunitários. A idéia foi abraçada e promovida por entidades muito relevantes, como a American Society for Engineering Education que em 2014 já havia publicado um documento analisando as justificativas, fundamentos e importância desse movimento na formação de engenheiros. Nele, podemos ler: “O pilar central dos espaços maker é o ato real de construir e fazer..o uso de tecnologias de criação de espaço influenciou uma mudança no currículo de design e fabricação em direção ao que é conhecido como o modelo Learning Factory (fábrica de aprendizagem)…Foi demonstrado que a modelagem física e a prototipagem aumentam a eficácia e a qualidade de design final, e ambos desempenham um papel fundamental no desenvolvimento dos alunos, ligando o material coberto na sala de aula para o mundo real. Estudos têm mostrado que as representações físicas de conceitos podem auxiliar os designers, ajudando-os a encontrar novos requisitos de design e design características.

E como os criadores do Arduíno conseguiram materializar seu produto, em uma época dominada pela extrema concentração na fabricação de componentes eletrônicos e de microcircuitos? Eles não fizeram grandes discursos convocando governos a gastarem grandes somas em projetos irrealizáveis, como vimos acontecer em muitos lugares – incluindo o Brasil. Em Ivrea, utilizaram as instalações que a Olivetti tinha usado para fabricar seu microcomputador, nos anos 70 e antes de sair desse mercado. Situação análoga ocorreu com a Raspberry Pi, usando antigas instalações da Sony, na Inglaterra. Isso nos dá uma lição: não devemos sucatear instalações que podem parecer obsoletas, porque os seus produtos concebidos inicialmente se tornaram obsoletos. Ao contrário, elas podem tornar-se valiosas, quando mentes criativas têm novas ideias que podem perfeitamente ser realizadas nestas instalações.

Como infelizmente costuma acontecer, o sucesso do Arduíno também produziu problemas. Um dos cinco membros da equipe inicial registrou a marca “Arduíno” sem informar seus colegas. Quando estes formaram uma empresa e tentaram registrar a marca, teve início uma disputa que chegou aos tribunais em 2015. Essa disputa incluiu lances pouco edificantes, como por exemplo a falsificação de um currículo acadêmico e outras manifestações de oportunismo. Isso não surpreende, pois é infelizmente observado em outros casos importantes de novas tecnologias. Como em outras situações, muitas pessoas querem “faturar” (no mau sentido) explorando indevidamente a criatividade e o suor de outros. Afinal, tecnologias são criações humanas e podem incluir marcas de tudo que é humano.

No futuro, as disputas legais e os erros causados pela ganância terão sido esquecidos. O que ficará é a história de um momento em que a criação tecnológica se tornou a prática diária de muitos milhões de pessoas, usando ferramentas acessíveis para criarem coisas que tornem sua vida mais fácil, segura, confortável e rica. Vivemos hoje um momento de real democratização do conhecimento, como poucas vezes ocorreu.

Para saber mais:

Site oficial:
https://www.arduino.cc/en/Guide/Introduction

As melhores alternativas ao Arduino:
https://www.bbvaapimarket.com/en/api-world/best-alternatives-arduino-do-it-yourself-internetthings/#:~:text=Raspberry%20Pi%2C%20BeagleBone%2C%20Sharks%20Cove,the%20community%20of%20software%20developers.

American Society for Engineering Education, A Review of University Maker Spaces: https://smartech.gatech.edu/bitstream/handle/1853/53813/a_review_of_university_maker_spaces.pdf

Os 50 melhores makerspaces em universidades e colleges dos Estados Unidos:
https://www.greatvaluecolleges.net/best-maker-spaces/

Maker space em igreja:
https://www.biblecenterchurch.com/makerscenter/

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