A quase guerra entre vizinhos

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Deve ter passado despercebido para muitos aqui no Brasil, a notícia sobre a morte de uma ex-autoridade sul-americana na data de ontem — 06 Dezembros 2020. Faleceu aos 80 anos na cidade de Montevidéu, Uruguai, o ex-presidente da República Oriental do Uruguai, o político Tabaré Vasques.

Tabaré Vasques tornou-se conhecido no seu país por presidir o clube de futebol Progresso por longo tempo, antes de entrar para a política. Era um dirigente esportivo aguerrido, parecido em muito com Castor de Andrade (Bangu-RJ), Beto Zini (Guarani-Campinas), Andrés Sanchez (Corínthians-SP) ou com Eurico Miranda (Vasco-RJ). Após tornou-se Presidente do Uruguai por duas vezes: a primeira entre 2005 a 2010 e na segunda vez entre 2015 a 2019, saindo recentemente, entregando o poder ao atual presidente uruguaio, o político Luis Lacalle.

Tabaré Vasques era um personagem com grande carisma e muito querido pelos nossos vizinhos uruguaios.

Quando olhamos no mapa da América do sul, notamos que o Rio Uruguai, nascendo em solo brasileiro, é o que separa as terras argentinas com o Brasil, nos limites do Rio Grande do sul, e seguindo mais abaixo separa também as terras uruguaias das argentinas. Ele deságua no estuário do Rio da Prata, já em solo argentino, em frente da capital Buenos Aires, antes de mais à frente se perder no Oceano Atlântico.

Os fatos que se vai narrar ocorreram após 2005, época em que o governo uruguaio autorizou uma Papeleira Finlandesa de nome Botnia construir uma enorme planta industrial às margens do Rio Uruguai, na cidade de Fray Bentos, com finalidades da produção de pasta de celulose partindo da polpa de eucalipto. O Uruguai precisava se industrializar e tal projeto se iniciou com capital de 91% finlandês e 9% uruguaio.

No ano seguinte, 2006, a Argentina protestou contra tal projeto, alegando contaminação das águas do Rio Uruguai. Houve protestos na Província de EntreRios (na Argentina Estado se chama Província), região que seria a mais afetada pela suposta contaminação. Imprensa, autoridades e opinião pública argentina discutiu os prós e contras de tal projeto, sendo rebatido ponto por ponto pelo lado uruguaio. A discussão teve muita repercussão em ambos os países, nossos vizinhos. O governo argentino levou o caso para a Corte Internacional de Haia alegando descumprimento de acordos internacionais, pois deveria haver concordância prévia entre as partes. Os uruguaios rebateram, dizendo que havia outras papeleiras já construídas, rio acima, no lado argentino e de que não tinham sido consultados. A polêmica estava formada.

Quem já passou perto de uma fábrica de celulose sabe muito bem o que era um dos motivos desta “poluição” reclamada pela população. O cheiro de celulose processada tem um fedor horrível, cheira a “bosta” daquela mais fedida que se possa imaginar. E essa fedentina vai longe, levada pela brisa e pelo vento. A imprensa da época relata episódios onde os uruguaios diziam já estarem fartos de cheirarem a “bosta” gerada pelas “papeleras argentinas” e esse projeto era também uma espécie de retaliação devolvendo o cheiro da “bosta” direto para Buenos Aires. Num artigo lido escrito pelos argentinos a esposa do então presidente Kirchner, a conhecida Cristina Kirchner – atual vice presidenta, teria dito “Enviaremos este carajo apestoso de volta a Montevidéu!”

Governava a Argentina o peronista Néstor Kirchner (2003-2007) e do lado uruguaio governava Tabaré Vasques (2005-2010). Tal caso ganhou manchetes internacionais.

Certo momento a coisa ficou feia. Os argentinos começaram a colocar tropas militares na fronteira com o Uruguai, nas margens em frente da cidade uruguaia de Paysandú. Faziam exercícios militares anormais, de conotação intimidativa ameaçando invadir o Uruguai.

Tabaré Vasques reuniu suas forças armadas e fica sabendo ser infinitamente inferior aos vizinhos do outro lado do Rio da Prata. Descobre só ter cinco aviões antigos e combustíveis para até 24 horas.

Ele analisa as possibilidades e vendo as coisas ficarem cada dia mais preta para seu lado, toma a iniciativa de ir buscar ajuda junto a Condoleezza Rice, então Secretária de Estado do governo G.W.Bush dos Estados Unidos. Viaja até Washington e conversa com Condi Rice (a mesma formada na Rand Corporation, considerada um dos “falcões” da política americana e que atuou com mãos de ferro no Iraque, Afeganistão, Líbia…). Conversa com a ela dizendo que o Uruguai sempre foi amigo leal do povo americano, e pede que o presidente Bush interfira no caso com a Argentina.

Sabe-se que semanas depois o presidente G.W.Bush durante uma de suas viagens internacionais, faz um pouso em Montevidéu por algumas horas e é visto conversando com Tabaré Vasques como se fossem grandes amigos.

A beligerância esfria. Ainda acontecem passeatas e protestos, mas só na Província de EntreRios. Tempos depois o Tribunal de Haia julga o caso, exigindo protocolos de mecanismos de controle de contaminação, mas permite que a Papeleira Botnia continue operando. Atualmente chama-se UPM Fray Bentos, sucedendo em 2009 a Papeleira Botnia, sendo ambas de capital finlandês.

Os jornais publicam que após estes eventos, o atual presidente argentino Alberto Fernándes, que na época dos fatos era chefe do gabinete da Casa Civil de Néstor Kirchner, dizia numa entrevista que “a ideia de uma guerra sobre esse assunto jamais foi cogitada pela argentina”.

Tabaré Vasques acreditamos pensava diferente.

É bom termos amigos que nos protejam.

A quase guerra entre vizinhos

Deve ter passado despercebido para muitos aqui no Brasil, a notícia sobre a morte de uma ex-autoridade sul-americana na data de ontem — 06 Dezembros 2020. Faleceu aos 80 anos na cidade de Montevidéu, Uruguai, o ex-presidente da República Oriental do Uruguai, o político Tabaré Vasques.

Tabaré Vasques tornou-se conhecido no seu país por presidir o clube de futebol Progresso por longo tempo, antes de entrar para a política. Era um dirigente esportivo aguerrido, parecido em muito com Castor de Andrade (Bangu-RJ), Beto Zini (Guarani-Campinas), Andrés Sanchez (Corínthians-SP) ou com Eurico Miranda (Vasco-RJ). Após tornou-se Presidente do Uruguai por duas vezes: a primeira entre 2005 a 2010 e na segunda vez entre 2015 a 2019, saindo recentemente, entregando o poder ao atual presidente uruguaio, o político Luis Lacalle.

Tabaré Vasques era um personagem com grande carisma e muito querido pelos nossos vizinhos uruguaios.

Quando olhamos no mapa da América do sul, notamos que o Rio Uruguai, nascendo em solo brasileiro, é o que separa as terras argentinas com o Brasil, nos limites do Rio Grande do sul, e seguindo mais abaixo separa também as terras uruguaias das argentinas. Ele deságua no estuário do Rio da Prata, já em solo argentino, em frente da capital Buenos Aires, antes de mais à frente se perder no Oceano Atlântico.

Os fatos que se vai narrar ocorreram após 2005, época em que o governo uruguaio autorizou uma Papeleira Finlandesa de nome Botnia construir uma enorme planta industrial às margens do Rio Uruguai, na cidade de Fray Bentos, com finalidades da produção de pasta de celulose partindo da polpa de eucalipto. O Uruguai precisava se industrializar e tal projeto se iniciou com capital de 91% finlandês e 9% uruguaio.

No ano seguinte, 2006, a Argentina protestou contra tal projeto, alegando contaminação das águas do Rio Uruguai. Houve protestos na Província de EntreRios (na Argentina Estado se chama Província), região que seria a mais afetada pela suposta contaminação. Imprensa, autoridades e opinião pública argentina discutiu os prós e contras de tal projeto, sendo rebatido ponto por ponto pelo lado uruguaio. A discussão teve muita repercussão em ambos os países, nossos vizinhos. O governo argentino levou o caso para a Corte Internacional de Haia alegando descumprimento de acordos internacionais, pois deveria haver concordância prévia entre as partes. Os uruguaios rebateram, dizendo que havia outras papeleiras já construídas, rio acima, no lado argentino e de que não tinham sido consultados. A polêmica estava formada.

Quem já passou perto de uma fábrica de celulose sabe muito bem o que era um dos motivos desta “poluição” reclamada pela população. O cheiro de celulose processada tem um fedor horrível, cheira a “bosta” daquela mais fedida que se possa imaginar. E essa fedentina vai longe, levada pela brisa e pelo vento. A imprensa da época relata episódios onde os uruguaios diziam já estarem fartos de cheirarem a “bosta” gerada pelas “papeleras argentinas” e esse projeto era também uma espécie de retaliação devolvendo o cheiro da “bosta” direto para Buenos Aires. Num artigo lido escrito pelos argentinos a esposa do então presidente Kirchner, a conhecida Cristina Kirchner – atual vice presidenta, teria dito “Enviaremos este carajo apestoso de volta a Montevidéu!”

Governava a Argentina o peronista Néstor Kirchner (2003-2007) e do lado uruguaio governava Tabaré Vasques (2005-2010). Tal caso ganhou manchetes internacionais.

Certo momento a coisa ficou feia. Os argentinos começaram a colocar tropas militares na fronteira com o Uruguai, nas margens em frente da cidade uruguaia de Paysandú. Faziam exercícios militares anormais, de conotação intimidativa ameaçando invadir o Uruguai.

Tabaré Vasques reuniu suas forças armadas e fica sabendo ser infinitamente inferior aos vizinhos do outro lado do Rio da Prata. Descobre só ter cinco aviões antigos e combustíveis para até 24 horas.

Ele analisa as possibilidades e vendo as coisas ficarem cada dia mais preta para seu lado, toma a iniciativa de ir buscar ajuda junto a Condoleezza Rice, então Secretária de Estado do governo G.W.Bush dos Estados Unidos. Viaja até Washington e conversa com Condi Rice (a mesma formada na Rand Corporation, considerada um dos “falcões” da política americana e que atuou com mãos de ferro no Iraque, Afeganistão, Líbia…). Conversa com a ela dizendo que o Uruguai sempre foi amigo leal do povo americano, e pede que o presidente Bush interfira no caso com a Argentina.

Sabe-se que semanas depois o presidente G.W.Bush durante uma de suas viagens internacionais, faz um pouso em Montevidéu por algumas horas e é visto conversando com Tabaré Vasques como se fossem grandes amigos.

A beligerância esfria. Ainda acontecem passeatas e protestos, mas só na Província de EntreRios. Tempos depois o Tribunal de Haia julga o caso, exigindo protocolos de mecanismos de controle de contaminação, mas permite que a Papeleira Botnia continue operando. Atualmente chama-se UPM Fray Bentos, sucedendo em 2009 a Papeleira Botnia, sendo ambas de capital finlandês.

Os jornais publicam que após estes eventos, o atual presidente argentino Alberto Fernándes, que na época dos fatos era chefe do gabinete da Casa Civil de Néstor Kirchner, dizia numa entrevista que “a ideia de uma guerra sobre esse assunto jamais foi cogitada pela argentina”.

Tabaré Vasques acreditamos pensava diferente.

É bom termos amigos que nos protejam.

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