Pagode e suas mil faces

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O termo “pagode” está presente na linguagem musical brasileira desde, pelo menos, o século XIX. Inicialmente, era associado às festas que aconteciam nas senzalas e, mais tarde, se tornou sinônimo de qualquer festa regada a alegria, bebida e cantoria.


Com a abolição da escravatura e fixação dos negros libertos no Rio de Janeiro, o pagode se consolidou a partir do século XX como uma necessidade de compartilhar e construir identidade de um povo recém liberto, e que precisa dar outra função ao corpo que até então era somente instrumento de trabalho.
Alguns especialistas advogam que o pagode teve seu início na capital baiana e que teria chegado ao RJ anos mais tarde. A elite da Bahia usava o termo “pagode” de forma preconceituosa para designar o tipo de evento feito por populações pobres e afrodescendentes.

De qualquer forma, pode-se observar uma relação estreita entre música e dança, típica da cultura de origem africana, além do fato de ter a sincopa como principal característica da construção técnica-musical, derivada da percussão marcadora do ritmo.


O pagode, completamente marginal aos grandes meios de comunicação brasileira, só apareceria em 1978 quando os cantores Tim Maia e Beth Carvalho foram visitar a quadra do Cacique de Ramos, um bloco carnavalesco do bairro de Ramos, no subúrbio carioca. O bloco era reduto de sambistas anônimos e jogadores de futebol, que se reuniam aos finais de semana para comer, beber e cantar. Lá conheceram o Fundo de Quintal, um grupo que tinha entre seus vocalistas Almir Guineto, ex-diretor de bateria da escola de samba Unidos do Salgueiro. O Fundo de Quintal fazia um samba diferente, misturado com outros ritmos africanos não tão difundidos e que tinha uma sonoridade nova, com a introdução de instrumentos como banjo com braço de cavaquinho (criado por Almir Guineto) e o repique de mão (criado pelo músico Ubirany) e a substituição do surdo pelo tantã (criado pelo músico e compositor Sereno).


Beth começou a gravar composições desses novos sambistas, ajudando a revelar nomes como Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Almir Guineto e o Fundo de Quintal. Com boa aceitação de público, outros começaram a ser gravados no início da década de 1980, e os próprios sambistas revelados pela cantora passaram a ser lançados e difundidos nas emissoras de rádio e canais de televisão pela indústria fonográfica. Desta forma, se consolidava um novo estilo musical dentro do samba. Em São Paulo, Adoniran Barbosa se destacou neste novo ritmo, lançando seu primeiro álbum já com idade avançada.
Na década de 90, determinados grupos, oriundos principalmente dos subúrbios paulistanos, começaram a adaptar coreografias e roupas de conjuntos vocais americanos (como The Temptations, The Stylistics, Take 6) sob uma base rítmica próxima ao pagode como se conhecia até então, mas diferentemente dos trabalhos de cantores como Bezerra da Silva e Zeca Pagodinho. As gravadoras apostaram com força nessa vertente mais “açucarada” de pagode injetada por letras românticas e instrumentos eletrônicos (até então praticamente alheios ao samba), pois viam nesse novo pagode um grande potencial para ser tocado em grandes “shows” e competir com os artistas sertanejos populares daquele momento. A partir dessas modificações, nasceu o pagode romântico, um estilo de pagode muito distante de suas originais feições, embora tenha se tornado tão ou mais popular do que o pagode original.


O maior expoente deste tipo de pagode veio de Uberlândia. Só Pra Contrariar ou SPC foi criado em 1989 numa fria noite de inverno. Alexandre Pires e seus amigos criaram na mesma noite algumas de suas canções mais célebres, como “Que Se Chama Amor”, um samba romântico, e “A Barata”, um pagode de duplo sentido. Mais tarde, as faixas foram incluídas em seu primeiro disco, lançado em 1993. O CD lançado em 1997 vendeu 3 milhões de cópias.

Infelizmente, na década de 90, o Brasil viveu uma involução musical jamais vista na história. Não faço este julgamento por causa do cunho popular que tomou conta da elite econômica do Brasil, tal como o sertanejo, o Axé da Bahia e o Pagode, mas por causa da difusão de uma sexualidade, quase apelativa, que tomou conta das festinhas infantis e das baladas jovens do país todo. Grupos populares tais como Gera Samba, Mamonas Assassinas, “É o Tchan”, Art Popular e o próprio SPC, romperam com a ética, compondo letras de duplo sentido e com uma sensualidade explícita que cativaram não só os adultos como o público infantil. Chocou o fato de a maioria dos pais permitirem, e até motivarem seus filhos pré-adolescentes, de 8 a 12 anos, a se exibirem sobre uma garrafa, que fazia alusão a um objeto fálico, como na música “Na Boquinha Da Garrafa” do grupo “É o Tchan”. Dançarinas com shortinhos hiper curtos, com corpos malhados e de medidas avantajadas excitavam até quem não gostava. Os Mamonas Assassinas vinham vestidos de super heróis, de bichinho de pelúcia, encantando a criançada, mas falavam de suruba, homossexualismo, prostituição, tudo num tom jocoso que conferia às composições um caráter de “permitido”. Sem perceber, famílias dançaram e cantaram, junto com seus filhos, músicas paupérrimas em ritmo e letra, mas riquíssimas em sensualidade, abrindo a porta para outros ritmos mais escancarados como o Funk.

Não cabe analisar neste artigo os efeitos sociais e comportamentais de tal movimento musical, mas uma coisa ficou claro: para a sociedade brasileira, mais vale a diversão do que qualidade. Para os produtores, mais vale o sucesso/dinheiro do que qualidade. Vai ver por isso que não vemos música de qualidade por aqui desde o fim da década de 90. Será´?

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