Espionagem Intelectual

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— Conheci o Sigmar ainda muito nova, acho que ainda não tinha dezoito anos. Me simpatizei com ele desde o começo. Sempre achei ele muito sério, às vezes, confesso, sério demais para o meu gosto. Mas, não reclamo, tem sido bom companheiro e muito bom pai para os filhos.
Tal conversa tinha lugar na sala de estar de uma aprazível residência de Campinas – SP. A senhora que nos atendia era a esposa de Sigmar, um velho companheiro de trabalho e de estudos, durante os memoráveis anos 70 e 80. Tínhamos trabalhado juntos na fábrica de Locomotivas, geradores elétricos e motores de grande porte. Ainda me lembro de que ele teve muito de sua experiência e desempenho, justamente no segmento de Locomotivas. Sabia tudo sobre Locomotivas. Adorava subir na boléia das Locomotivas em teste e dirigia parecendo um garoto em seu brinquedo predileto.
— A senhora se recorda dos assuntos dele durante o namoro? Sabe, lá na empresa ele só falava de trabalho, trabalho e trabalho. Quando alguém sugeria mudar de assunto, aí, ele voltava a falar de trabalho e mais trabalho. Existia lá um que falava mais que ele sobre trabalho. Era um senhor chamado Ivanoé Lobão.
— É isso mesmo, ele sempre foi assim. Hoje chamam a esse comportamento de ‘workaholic’, mas naquele tempo, eu achava ser excesso de puxa-saquice mesmo. Só falava na empresa e nas benditas Locomotivas. Sabe, eu conheci ao longo de muitos anos todo tipo e nome de peças das Locomotivas, tanto das elétricas como das ‘à Diesel’. Eu conhecia os modelos que fabricavam com código e tudo, rodas, sistemas operacionais, relays, tempo de autonomia, e os itens mais passíveis de causarem problemas, sabia de preços tanto dos itens nacionais como os importados de Erie-USA.
— Veja senhor, eu conhecia tanto sobre Locomotivas, — continuava ela, — que ao acompanhar ele numa visita de serviço na divisão Transportation System, no estado de Erie – USA, fiquei sabendo ser conhecedora muito mais sobre o assunto Locomotivas, que as moças americanas de lá que só preenchiam papéis e tiravam cópias de documentos. Lá fiquei sabendo do amplo conhecimento do meu Sigmar. Vi que os gringos americanos o respeitavam e ouviam atentamente suas opiniões e sugestões. Ficava orgulhosa dele, pode acreditar
— Senhora, me conte mais sobre como era ele aqui em casa.
— Sempre muito sério. Como somos de descendência germânica, temos na disciplina uma das bases de nossa vida. Com ele não é diferente. Leva todo e qualquer assunto à sério, é focado no que faz e tem idéias pragmáticas sobre tudo. Tem também seu lado descontraído. Quando toma qualquer bebida, se transforma, e num instante passa a ser o mais brincalhão de todos. Os filhos já conhecem o pai e curtem seus momentos conforme o humor daquele dia. É amado por todos nós.
— Ainda falando sobre Locomotivas… Ele já contou para senhora de que quando era responsável pelo depósito de produtos acabados de Locomotivas, justo quando estava sendo feito um inventário físico anual, foi constatado a falta de uma Locomotiva que já estava pronta e prestes a ser entregue ao cliente. No dia tal evento causou um estardalhaço tremendo. Dizem que ele não dormiu por alguns dias. Até que foi localizado a dita Locomotiva num ramal ferroviário perto de Jundiaí. Descobriu-se depois que sem ser percebido, ela havia sido acoplada numa outra Locomotiva que fazia manobras no pátio da empresa e teria passeado até Jundiaí. Foi localizada por um morador de Jundiaí, chamado Euzébio Neto, também nosso conhecido da empresa. Posteriormente, um outro, o Wilson Cassado também teria visto tal Locomotiva circulando pelos arredores de Jundiaí.
— Bem, essa história da Locomotiva sumida é assunto que dá calafrios nele só de lembrar. Aqui em casa não se fala no assunto.
— Noto que a senhora deve ter uns 1,92 metros de altura e todos nós sabemos que ele tem estatura bem mais baixa. Lá na empresa, nunca ousamos chamar ele de ‘baixinho’, pois isso poderia ser motivo de encrenca. Tal fato não chegou a criar alguma situação que a senhora poderia nos contar. Sabe, todos nós, gostamos de uma boa fofoca.
— Não nada que me lembre. Só estranhava que quando recebíamos visitas, eu sempre me sentava numa cadeira de pernas curtas e ele nas ligeiramente mais altas que o normal. Ele também gostava de usar sapatos com saltos mais altos, ele curtiu muito a época do salto carrapeta. Nunca dava abertura para outros brincarem com ele sobre este assunto de altura.
— Poderíamos ficar horas e horas aqui falando dele. Sei que a senhora, sempre o protegerá dos possíveis ‘pagamento de micos’, mas sabemos ter algumas histórias que poderiam ser contadas. A senhora se lembra de alguma que tenha chamado a sua atenção nos tempos em que ele trabalhou por lá?
— Sobre ele tenho a falar o melhor possível. Bom marido, bom pai. Só me chateava, na época, de ficar ouvindo a todo instante sobre assuntos que não me diziam respeito. Coisas como: Budget review, Long Range Forecast, Get There from Here, Summary of Operations, Balance Sheet, Net Income Variance Analysis, Monthly Estimate, Exchange Variation, Imputed Interest base, Billing System, Progress Collection, Current Account, Facs, TB4, Financial Management Program e muitos mais… Ah! Este ultimo citado era o famoso FMP que muitos de vocês fizeram. Ele também o fez e foi depois instrutor e acho que um dos melhores.
— A senhora poderia nos contar algo sobre o FMP?
— Não sei se deveria contar, mas considerando que já se passou tanto tempo, acho que não teria nenhum constrangimento contar um caso agora aqui para você.
— Pois conte, sou todo ouvidos.
— Ele era instrutor dum curso chamado 202 – Administração Financeira II. Como você deve saber havia testes, exame parcial e exame final. A média para passar era no mínimo 75 e era ‘pedreira’ para muitos. Ele iria aplicar o quarto teste daquela turma e depois deste teste só faltaria o exame final. Ele comentou comigo que já tinha recebido o teste e disse que era igual a um aplicado há exatamente dois anos antes. Isso não significava nada para mim.
— Conte mais, por favor.
— Havia um colega de vocês que trabalhava por lá e fazia tal curso e justamente era um dos alunos dele. Este rapaz era nosso conhecido. Às vezes, nos encontrávamos numa lanchonete ou outro local para tomar lanches e sorvetes com as crianças, mais um dos inúmeros eventos onde muitos da empresa participavam. Neste encontro fiquei sabendo que este rapaz, estava com a média baixa, precisando melhorar a nota. Entendi o drama dele e por descuido, falha exclusiva minha, cheguei a dizer a ele que meu marido havia comentado que o próximo teste já havia caído dois anos antes. Ele ficou quieto e não se falou mais nada do assunto. Semanas depois fiquei sabendo, apenas um dos alunos não tinha passado naquele semestre, e não era ele. Fiquei com problemas de consciência, tinha falado demais, mas logo esqueci.
— É… Espionagem sempre existiu e sempre existirá.
— Tirei uma cópia do teste, guardei todo este tempo e agora acho que posso passar para você. Meu marido nunca soube.
Ela buscou numa gaveta um envelope antigo e me entregou.
Tal teste foi publicado neste mural. Para muitos foi um retorno a momentos mágicos do passado e para ele, o favorecido, a prova do crime.

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