Somos apenas humanos, não super-heróis.

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Há cerca de 30 anos atrás, quando fui eleito para ser conselheiro em uma instituição religiosa, o presidente daquele conselho me deu a seguinte recomendação: “Seja muito tolerante com o erro dos seus pares, mas seja exigente consigo mesmo, porque quem exige a perfeição nos outros invariavelmente se torna muito tolerante com as suas próprias falhas”. Em outras palavras a recomendação era para ter uma disciplina pessoal modelar.
Alguns anos mais tarde, no ambiente empresarial, esse comportamento esperado para a liderança me foi passado com uma definição lacônica, porém mais abrangente: seja um modelo a ser seguido (to be the role model).
Percebi logo que em qualquer papel que eu desempenhasse sempre estaria sendo observado e julgado e quanto mais complexos fossem os espaços ocupados, maiores seriam as expectativas sobre o meu desempenho ou comportamento.
Na frieza do capitalismo, onde a competência de uma pessoa muitas vezes é determinada somente pelo sucesso alcançado, somos pressionados para a superação contínua. Como em uma disputa de salto em altura, a meta de cada ano é para subir a altura da régua (raise the bar). Entretanto, nem todos conseguem atingir as expectativas impostas, sequer superá-las e, não raro, vemos pessoas tristes, doentes e com um profundo sentimento de fracasso.
Seremos sempre observados, comparados e julgados, não tem como escapar disso. Eu já tive muito medo do insucesso, de não atender as expectativas e de falhar nos meus objetivos. Precisei aprender, entretanto, que o medo é um sentimento legítimo, do ser humano, que nos indica que algo não está bem e que precisamos reagir para mudar a situação.
Aceitei minhas limitações como um ser-humano e percebi que pessoas infalíveis simplesmente não existem. À medida que envelheço, essa convicção vai se enraizando e mesmo meus familiares percebem que não consigo desempenhar, com a mesma competência, todas as tarefas que preciso realizar.
Devemos, sim, ser modelo e inspiração para outras pessoas e essa atribuição se tornará mais prazerosa quando entendermos essa missão como um privilégio. Porém, precisamos ter cuidado em reconhecer os nossos limites, saber comunicar isso de forma clara para os nossos pares e pedir conselhos e ajuda.
Uma das atribuições de uma boa liderança é identificar pessoas com qualidades e competências complementares para compartilhar responsabilidades. Isso também é válido na nossa vida familiar e social. Aliás esse também é o ideal do casamento feliz, pessoas diferentes que se amam e se complementam.
Seguramente no nosso contexto somos rodeados de pessoas admiráveis que nos inspiram. Não necessariamente são pessoas que exerçam uma posição hierárquica superior ou quem conseguiu juntar fortunas.
Eu tenho três filhos já adultos e é muito prazeroso perceber que em muitas áreas eles me superam, sabem mais do que eu, me inspiram e podem me aconselhar. Tenho também amigos, sócios e outras pessoas do meu convívio que me ajudam em situações que não domino ou mesmo que com simples atitudes muito me ensinam.
A vida é complexa demais para conceitos encaixotados como muitas vezes as corporações procuram entregar para os seus colaboradores. Não tenha medo quando disserem que você precisará agir como um modelo, mas aprenda também a aceitar a falha não negligente. Supere suas limitações, mas também verbalize os seus medos e receios e retroalimente-se com a experiência de outras pessoas. Lembre-se: somos humanos e não super-heróis

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