Ator por acaso

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn

Walter chegou à sua casa, após dura e cansativa semana na empresa Tintas Coral, do grupo AkzoNobel. A empresa passava por novas reestruturações e como sempre sua área — a administrativa — era uma das mais atingidas. Aconteciam reduções de pessoas, acumulo de trabalho para os que ficavam e novos problemas em potencial para contornar. Essas imagens não saiam de sua mente, mesmo nesta sexta-feira quando o expediente rotineiro tinha terminado e tendo pela frente um fim de semana para poder se recompor. Iria agora curtir a convivência familiar e descansar.
Guardou o carro na garagem. Preparava-se para entrar em casa e prometia a si mesmo, só pensar no trabalho da Controladoria na próxima segunda-feira.
Girou a chave da sala e entrou em casa. A sala estava iluminada.
A esposa o abraça e o recebe com um selinho carinhoso. Ele abraça os dois filhos, perguntando a cada um pelas ocorrências na escola naquele dia. Em poucos minutos está pronto para tomar o banho diário, colocar roupas leves de dormir, não sem antes assistir o capítulo da novela predileta na TV ou a nova série do Netflix.
Entra no quarto e acende a luz.
— Luzes! Ação!
O quarto iluminou-se todo. Walter dá um pulo para trás, atordoado. Algo tinha acontecido. Teria entrado em casa errada? Mas, não aquela era sua casa, falara há pouco com a esposa. Tanta gente! Sua casa parece um cenário.
— O que está acontecendo? Quem são vocês? O que estão fazendo aqui em minha casa? — Disse assustado e ao mesmo tempo indignado com aquela situação inusitada.
— Corta!
Chega alguém, pega sua pasta e guarda. Chega uma mulher que passa creme em seu rosto, pincelando as maçãs da face, tirando o brilho da testa, retocando uma maquiagem que poderia ter existido. A seguir, um jovem com trejeitos efeminados aproxima-se e passa um batom incolor nos lábios de Walter, dizendo melhorar o brilho.
Surge um assistente com uma espécie de script na mão dando broncas.
— O que acontece? Enlouqueceu Sr. Walter? — pergunta o assistente. — Vamos ter que começar tudo de novo. Sabemos que está cansado, mas…
Todos ficam esperando o que vai acontecer. O assistente enfim comenta.
—… Tudo bem pessoal parece ser estafa. Paremos uns instantes, depois continuamos.
— Nada disso! Estafa coisa nenhuma, eu estou em minha própria casa e quero todos fora daqui. Chamem minha mulher e meus filhos. Mas, cadê eles? Sai correndo pela casa.
— Corta!
Nisso surge outro personagem, de prancheta na mão. Walter sente estar dentro de um cenário de gravação em sua própria casa. De fala mansa, ele aproxima-se de Walter e diz:
— Está bom, mas achamos que deve ser mais convincente e mais real. Errou em algumas falas com as crianças, mas nada que não possa ser acertado na edição final.
— Afinal, quem é você? Pergunta Walter.
— Sou o diretor e acho que vamos ter que refazer as cenas. Você tem que transmitir melhor sua inconformidade e desespero com a situação. Deve mostrar que sua casa não é um cenário de gravações. Mostrar que está num local onde não entende do que se passa.
— Mas, não estou entendendo mesmo. O que se passa?
— Isso mesmo, deve mostrar surpresa e nada entender. Ser mais convincente nas suas falas.
— Meu Deus! Devo estar louco! Invadem minha casa, me filmam e agora estão me criticando dizendo que não estou fazendo certo o que deveria estar fazendo. Cadê minha família? Quero todos eles aqui e saiam todos, peço mais uma vez. Quero descansar e tenho este direito.
— Assim está melhor, espere até terminarmos. Volte à sua marca. Atenção, luzes…
— Nada disso. Não sou ator. Isso de tentar filmar minha chegada não está certo. É algo fora de moda e não digam que estou errando nas falas. Falo o que penso e ninguém tem nada com isso. Aqui é minha casa e aqui mando eu. Saiam imediatamente daqui, não me responsabilizo pelo que possa acontecer.
Dizendo isso Walter parte para a briga, se engalfinha com o diretor de cena e os dois rolam pelo chão numa briga ferrenha. Walter age como um louco defendendo seu território com unhas e dentes. A briga se desenvolve com mais intensidade, principalmente da parte de Walter que desabafa e descarrega no diretor toda sua ira e stress semanal da empresa, neste ato. O diretor tenta se livrar e o que recebe são socos e pontapés partindo de alguém em acesso de fúria.
— Corta!
— Ótimo! Agora sim ficou muito bom. — Diz o assistente. — Vamos!
Cinco minutos após a casa estava totalmente escura e vazia. Todos tinham ido embora. Walter Serer caminha até o interruptor, acende as luzes da sala e de toda a casa. Pergunta a si mesmo: Aquilo realmente tinha acontecido ou teria sido um sonho?

Você também pode gostar de: