A Morte

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Sempre que acontece uma tragédia onde há um grande número de mortos e há uma comoção social, parece que uma espécie de ligação entre todos nós humanos se estabelece de maneira evidente e palpável, uma vontade genuína de ajudar e fazer algo para consolar, uma identificação com a dor do outro, uma comunhão.
Unimo-nos, compartilhando a dor, lamentando a morte, mas agradecidos por estarmos vivos. Diante da morte a vida é valorizada e as diferenças se extinguem.
Sentimos a dor do outro como se fosse nossa (e é mesmo) e queremos amenizá-la de alguma forma. As grandes tragédias nos obrigam a ver a morte e o que somos realmente, nossas fragilidades e anseios; percebemos que todos nós queremos viver e sermos felizes.
Viver e ser feliz.
Percebemos que a vida é o presente, o ontem já passou e o futuro não é garantido. A morte nos confronta com essa realidade.
Quantos de nós estamos presos ao passado? Vivemos nesse tempo que não existe, tentando entender os motivos de nos tornarmos quem somos. Fazemos o mesmo pensando e planejando o futuro, esperamos que nossa vida se torne melhor, que seremos melhores no tempo que está por vir.
Trocamos o presente, o único tempo que existe de fato, vivendo no passado ou sonhando com o futuro. Não sabemos quanto tempo ainda teremos para sermos e vivermos. Se quisermos mudar algo, façamos isso agora.
A morte sempre foi e é um assunto proibido, ninguém pode falar sobre ela naturalmente, há uma recusa em olhá-la de modo direto. Não somos educados a entender que ela, inevitavelmente, vai chegar. Às vezes de maneira esperada, outras, completamente inesperada.
Crescemos na ilusão de que o futuro existe e de que o amanhã é um fato. Vivemos como se fossemos imortais, sonhamos em nos tornarmos os primeiros humanos que viverão para sempre. Amamos ler livros e filmes que falem sobre a imortalidade. Desejamos acreditar que a morte física não é o fim, que sobreviveremos de alguma forma.
Aprendemos a planejar nosso futuro, fazemos seguros, previdência privada para prevenir possibilidades futuras, crescemos seguindo um roteiro onde o amanhã existe e será melhor do que o hoje. Planejamos nossas férias, nosso futuro profissional e pessoal, sempre querendo mais, o presente nunca é o suficiente, é no futuro que existem todas as maiores felicidades. Precisamos acreditar nisso de alguma forma para darmos sentido à nossa vida. Como se pudéssemos prever o dia seguinte, como se houvesse o amanhã.
Somente o hoje, o agora, é real. É no hoje que podemos ser felizes e darmos o nosso melhor, sendo quem somos e vivendo o que vivemos. Jogar para um tempo inexistente a felicidade é uma ideia falsa. É um hábito alimentado pela propaganda. Grandes corporações vivem justamente do nosso medo de enxergar a realidade da morte, da imprevisibilidade da vida e de vermos que o amanhã não existe.
Celebramos secretamente a vida diante da morte, lembramos que não somos imortais e questionamos o que estamos fazendo com a nossa vida. Se soubéssemos que a morte não está lá longe no futuro como nos fazem acreditar, mas que é possível a cada instante, não precisaríamos que ela se mostrasse de maneira tão evidente para que valorizássemos o fato de estarmos vivos.
Diante da morte, todos os problemas que nos tiram o sono, parecem muito pequenos. Todos os nossos desafetos parecem melhores e pouco importantes, todas as nossas conquistas materiais parecem tão menos necessárias, todos os julgamentos que fazem sobre nós deixam de nos afetar e tudo o que queremos mudar nos outros, deixa de ter sentido. Entendemos que a diversidade faz parte da vida e que todos nós queremos ser felizes. Entendemos que cada qual está seguindo o seu roteiro de felicidade, assim como nós fazemos.
A natureza de ser humano fica evidente: todos nós sofremos, queremos ser felizes e estamos fazendo o nosso melhor. Acolhemos melhor todas as circunstâncias e pessoas.
Por que não vivemos assim todos os dias?

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