A circular polêmica

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Nasceu em São João da Boa Vista, uma cidadezinha do interior de São Paulo. Na época de seu nascimento a cidade era local onde o café, o algodão e o milho representavam seus principais produtos. Ela fazia parte de um dos principais ramais da inesquecível Companhia Mogiana de Estradas de Ferro. São João da Boa Vista, hoje é uma das megalópoles regionais, com 90.000 habitantes aproximados dentro de seus limites.
Filho de um imigrante sírio-libanês, vindo para o Brasil nas primeiras levas de imigração anterior à segunda grande guerra, conhecido por todos como ‘seo’ Nicolau. Seu pai praticava nas redondezas de São João, uma das mais antigas profissões comerciais, a de mascate de produtos em geral. Para os de hoje, a figura do mascate não mais existe. Mas, naqueles anos de 1930 eram os mascates que em suas carrocinhas iam e vinham para todos os lugares levando e trazendo mercadorias de todo tipo. Vendiam de tudo: lençóis, tecidos de casimira, cobertores, panelas de alumínio, sandálias alpargatas, urinóis, escarradeiras, canela, cravo da índia, pimenta do reino, navalhas, alguns mascates vendiam até vestidos de noiva. Tais comerciantes faziam chegar às mãos de sua freguesia todo tipo de mercadorias da cidade grande e que faltavam para os que moravam na roça. Como pagamento, tais mascates recebiam todo e qualquer tipo de produto que tivesse valor, o que menos recebiam era o próprio dinheiro vivo, em espécie. Recebiam leitoas, galinhas, ovos embalados com palha de milho, jacás de milho debulhado, sacos de arroz em casca e tantos outros produtos in natura. Tais produtos o ‘seo’ Nicolau revendia com polpudos lucros nos armazéns da cidade. Para todo cliente localizado tanto nas fazendas como nos sítios da região ele tinha um cartãozinho onde lançava os valores que tinha a receber. Este foi um dos primeiros aprendizados que teve com o pai, ou seja, como se controla eficientemente um Contas a Receber.
‘Seo’ Nicolau, veio do Líbano, quando sua terra ainda era controlada pelo Império Turco Otomano. No passaporte dizia ser ele cidadão turco-otomano, mas ele não gostava de ser chamado de turco. Mas, no Brasil, ele só era conhecido como o turco Nicolau — o mascate.
… Ainda muito novo, ele seguiu com a família para a cidade de Santos, no litoral paulista. A família tinha vindo tomar banhos de mar e tanto ‘seo’ Nicolau, como os familiares resolveram ficar. ‘Seo’ Nicolau tinha pensado em entrar para o ramo têxtil do comércio de retalhos, pretendia fazer fortuna em Santos com a venda de tecidos. Na época, só se fazia roupas sob medida no Brasil. No final, muda de planos e entrega-se de corpo e alma a outro ramo de negócio. Abriu uma mercearia junto à praia e vendia fiado para pagamento no final do mês para toda baixada santista. As entregas ficavam por conta do filho, que as fazia em sua bicicleta com bagageiro. Ele se lembra que muitas vezes os tamancos utilizados ficavam presos nos raios das rodas da bicicleta. Foram tempos memoráveis.
Ali estudou, curtiu as praias e em chegando a idade de ganhar a vida, resolve vir para São Paulo. De início, vem sozinho. Arruma emprego numa empresa de Santo André e lá passava de segunda até sexta-feira trabalhando, só vindo para Santos nos finais de semana. Foi o tempo dos estudos secundários, vindo depois o curso superior e no pouco tempo vago, curtia a maravilhosa fase dos 20 anos de idade. Muita gandaia, é o que ele recorda.
Formou-se em Direito e passa a trabalhar nos departamentos financeiros da GE. Sua permanência nesta empresa se estendeu por um longo período, exatos quarenta e três anos, e lá reconhece ter obtido grande parte da sua experiência profissional. Era inteligente, sagaz, ousado e sempre jogou o jogo corretamente. Poderia destacar inúmeros pontos de sua passagem por lá. Nos deteremos em poucos apenas, talvez os mais inocentes e irrelevantes sob seu ponto de vista, mas que para todos marcariam sua presença nos corredores da GE.
… Nos primeiros anos se dedicou de modo eficiente aos diversos trabalhos a que era destinado. Era político e aprendeu a mexer com os interesses das pessoas, tanto das que estavam no comando acima, como das que estavam sendo comandadas por ele. Com isso tornou-se alguém sempre focado no que fazia e sempre defendendo sua classe. Tornou-se popular, comunicativo, sincero e sempre um amigo.
Na década de 70, era comum os bancos não fazerem empréstimos pessoais de maneira fácil e descomplicada, tal como é feito hoje. Era difícil obter crédito e o mais corriqueiro era as pessoas juntarem primeiro o dinheiro e só depois fazerem suas compras à vista. Estamos falando sobre comprar carros, um bem, mais ou menos caro, e que era aspirado por muitos. Ele resolve criar uma espécie de cooperativa de dinheiro, ou uma caixinha como era conhecida, uma coisa que posteriormente ficou popularizada como consórcio para compra de carros.
Reuniam-se 30 ou mais, geralmente 50 pessoas, onde todos entregavam a um coordenador cheques mensais de valores fixos, por um período pré determinado. O coordenador retirava uma taxa de comissão, que era sua remuneração, e o resto do montante recebido era destinado a emprestar a um dos mesmos cotistas, que precisasse de numerário para seu uso. A destinação mais comum era a compra de um carro novo, à vista, pago com este empréstimo. O devedor entregava vários cheques pré-datados ao coordenador como pagamento previsto daquele empréstimo, podendo ser em 6 meses, 12 meses ou outro prazo qualquer, sempre incluindo o principal mais os juros. Os juros eram compensadores para os demais componentes do grupo da caixinha. Também era compensador para o tomador do dinheiro, pois dificilmente obteria tal montante de bancos a juros módicos e sem complicações. Essa cooperativa dava muito trabalho a ele, mas os resultados sempre foram compensadores. Fazia extensas planilhas de cálculo e de controle. Durante os meses que se seguiam depositava tais cheques em sua conta como administrador. E assim, com o passar do tempo, várias caixinhas estavam em andamento e um volume maior de dinheiro circulava em sua conta.
Após completar a faculdade, e tendo concluído o curso financeiro ministrado pela empresa, teve uma promoção que o levou ao departamento de Tecnologia de Informação da empresa, na época se chamando Sistemas de Informação. Lá coordenou e administrou um possante computador instalado na empresa. Era um enorme computador ocupando duas salas, processando gigantescos discos contendo informações. Era a época dos cartões perfurados e das leituras de fitas. Em complemento ao CPD, ele era o dirigente responsável por programação e análise de sistemas controlando todas as operações da empresa nesse setor, em nível Brasil. Algo muito relevante. Ficou por pouco tempo nesta área da empresa.
O Gerente responsável pelos Recursos Humanos da empresa tinha morrido repentinamente. Sílvio di Lascio deixara saudades. Foi mais uma vez promovido e se dirigiu para uma área em que ficaria por muito tempo de sua vida profissional.
Agora, nesta função, tinha um contingente muito maior de pessoas sob seu comando. Desde restaurantes (três em atividade: bandejão horista, bandejão mensalista e o à la Carte), recrutamento e seleção, benefícios, remuneração, portaria e segurança.
No primeiro mês destas suas novas funções, algo inusitado ocorreu no setor de segurança. Passo a relatar.
Ele estava sentado, em determinado dia, em sua sala. Tinha à sua frente o gerente de Segurança da empresa — o Lucas Costa — seu funcionário.
— Lucas, ontem recebi uma circular sua endereçada a todos os departamentos, inclusive aqueles que raramente recebem circulares — o pessoal da fábrica. Pelo que vejo é uma comunicação alertando a todos os horistas e principalmente os seus supervisores e líderes a que façam orientações aos funcionários do chão da fábrica em nosso nome. Leia novamente o que foi escrito. Em voz alta, por favor.
Entrega uma cópia ao Lucas e aguarda a leitura. Lucas lê pausadamente.
“Comunicamos a todos os que lêem esta circular de que coloquem em prática ou fiscalizem o que aqui se escreve. É terminantemente proibido que, durante o período compreendido entre 11 até às 13 horas, que funcionários fiquem deitados no gramado existente no passeio de frente para a Avenida Industrial, entre a fábrica da FAM até o prédio do Setor de Finanças perto da FAE. Temos notado muitos fazendo este descanso, e fingindo dormir, descaradamente, ficam olhando para as coxas das moças que passam. Esperamos contar com a colaboração de todos, etc., etc…”
Lucas ia ficando vermelho à medida que lia. A seguir, se prepara para ouvir seus comentários.
— Recebi nesta manhã um grupinho de supervisores da fábrica, pedindo que seja identificado “Quem fica olhando as coxas das moças…”. E agora Lucas, o que digo eu a eles? — Dizia isso olhando para os olhos de Lucas, sem mexer um só músculo de sua face.
Lucas tentou achar uma justificativa e todas tentadas, foram rebatidas impiedosamente pelo chefe. Ele saiu da sala de orelhas baixas e rabo entre as pernas, como diríamos no passado.
Tal assunto caiu no esquecimento semanas depois e tudo continuou como antes. Só ficou na lembrança o fato da circular.
Depois deste incidente viveu uma longa fase ascensional e produtiva na carreira, durante os muitos anos de empresa. Acredito ter perdurado até que tenha se aposentado de lá.
Hoje, tantos anos já passados, é consultor de Recursos Humanos e nas horas vagas Governador do Rotary Club.(31-01-2019)

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