Um drama pessoal

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn

“Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe”.

João Barbosa

Uma Consulta

— Meu nome é Nicão.

— Pois não, Sr. Nicão, sou o Dr. Murilo, um psiquiatra para lhe ajudar. Fale o que tem a dizer.

— Dr. Murilo, tenho ultimamente pensado muito, se devia ou não, vir me consultar com um psiquiatra, abrindo meu coração e contando todo meu drama pessoal. Tenho muita vergonha de expor em público, coisas íntimas minhas; mesmo para um profissional como o senhor. Sabe, Dr. Murilo, meu pai nos ensinava não depender excessivamente de outras pessoas, pois grande parte das soluções de nossos problemas, nós mesmos temos que analisar e resolver. Peço desculpas, se não for claro ao que irei narrar, mas no final entenderá meus motivos.

— Sr. Nicão, nós os psiquiatras fomos treinados para entender a natureza daqueles que nos procuram, tentando encontrar padrões de comportamento e orientar a melhor maneira de como se deve voltar ao equilíbrio de novo, na vida de cada um. Tenha confiança, vamos, conte-me os motivos que o aflige. Não preciso nem dizer que tudo que me informar só ficará entre nós dois e estas paredes. Fique à vontade!

— Vinha pensando em começar pelo fim, tal é a ansiedade atormentando minha alma, querendo acabar logo com isso, mas, pensando bem, começarei do princípio, já que o senhor não me conhece e deduz, como todos, vendo minha aparência exterior de que tudo está bem e vivendo no melhor dos mundos e não tendo motivos de reclamar de nada nesta vida. Mas, não é assim doutor, quem me vê não imagina o difícil drama por que passo.

— Muito bem, Sr. Nicão, eu até já estou curioso para conhecer sua história. Prometo fazer o melhor possível.

— Como o senhor pode notar, já passei da adolescência e estou na melhor fase da vida de qualquer ser vivente. Tive uma infância de superproteção, de muito apoio e duma verdadeira felicidade para qualquer garoto. Participei de todos os brinquedos possíveis, passeei nos melhores lugares e vivi abertamente esta fase de minha vida.

— Terminada a infância, cheguei à adolescência, — continua Nicão — trazendo tudo aquilo de que temos plenos direitos desde que o mundo é mundo. O senhor pode notar que sou e sempre fui muito bonito, tendo um porte altivo e atlético. Isso muito me ajudou nesta nova fase de minha vida.

Adolescência

— doutor, nem lhe conto. A natureza trouxe para mim uma energia que até aquela idade ainda não tinha conhecimento. Alguns chamam a isso de energia sexual. Ah, Doutor, como isso é bom! Dá-nos alegria, dá vitalidade, e cada dia que passa nos tornamos mais bonitos, mais dóceis e principalmente, mais em paz com a vida. Como o Criador é bom! Essa energia criadora ativa nossa inteligência, nossos gestos, nossa voz e tudo que ele tão bondosamente criou em todos nós.

­ — Continue Sr. Nicão, o assunto interessa e o senhor está dando testemunho de uma das melhores dádivas recebidas por nós da mãe natureza.

— Pois é, doutor, minha vida tornou-se um ato de louvor ao Criador, pelas atribuições e poderes que recebemos da mãe natureza. Daquela data em diante, me relacionei ativamente com as fêmeas de nossa espécie. Eram amores que chegavam e iam embora. Alguns ficavam mais tempo que outros, mas sempre o amor era o ponto forte daqueles relacionamentos. Eu adorava aquela fase da vida. Houve até casos em que disputei a companheira com outros rivais e em muitos casos, eu fui o vencedor. Ah! Como era bom vencer naqueles casos, eu me parecia até um cavaleiro andante da corte do Rei Artur que conquistava a virgem donzela após uma sangrenta batalha com meus adversários. Eu era invencível e arrasava nestas disputas. E, depois da vitória, eu era um verdadeiro macho alfa a triunfar.

­ — Sr. Nicão, está me parecendo que muito tem a contar sobre esta sua vida amorosa e das conquistas junto ao belo sexo.

— Pois é, Dr. Murilo, não é por estar na minha presença, mas eu posso lhe confessar que nada me escapava, nas artes da conquista e das delícias do amor.

— Como dizia um sábio chamado João Barbosa, “Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe”. Um dia tudo isto chegou ao fim. E esse é o meu drama. O senhor é o primeiro a quem conto com todos os detalhes.

O Crime

— Num certo dia, não me recordo muito bem dos detalhes, — continua Nicão — pois acho que comi ou bebi algo que me amorteceu os sentidos. Acho que desmaiei. Quando acordei estava numa cama de hospital, cercado pelas pessoas de minha família e parecia estar tudo bem. Todos estavam felizes, e me tratando muito bem. Eu só sentia algumas dores na região da virilha. Estas dores também foram sumindo nos dias seguintes e aos poucos lá estava eu de novo caminhando e levando uma vida aparentemente normal.

— Mas, doutor, algo tinha acontecido comigo. Não me sentia mais o mesmo. Tinha medo de tudo! Aquela minha vitalidade parecia ter acabado. Estava mais fraco. Ficava acovardado perante outros colegas de minha convivência. Esse não era eu! O que tinha acontecido comigo?

— Noutros momentos, sentia-me isolado, tendo um comportamento extremamente dependente de outras pessoas. Antes eu não era assim, sempre fui autossuficiente em tudo que se dizia a mim e não implorava favores de ninguém, eu simplesmente me apossava daquilo que julgava ser meu. Eu estava mudado, doutor, este Nicão nem parecia ser eu…

— A pá de cal nesta minha nova fase é quando me encontrava com as fêmeas tão queridas e tão apreciadas por mim anteriormente. Agora eu nada sentia, parecendo até que elas me irritavam. Este meu novo comportamento, me fazia ter a sensação de estar enlouquecendo aos poucos com aquela situação. Algumas das fêmeas chegavam perto de mim, cheiravam minhas partes, se esfregavam na minha cara e vendo que eu não dava mínima, iam embora procurando algo melhor para fazer. Meu Deus! O que tinha acontecido comigo?

— Dr. Murilo, nas três últimas semanas a minha vida tem sido um martírio. Por favor, me ajude! Ainda ontem ouvi certa conversa das pessoas humanas lá de casa dizendo que: “Nosso cãozinho, o Nicão está tão depressivo depois que fizemos a CASTRAÇÃO dele”. Finalmente, eu tinha descoberto o que se passara comigo… Eu estava CASTRADO. Para uns resolvera alguns tipos de problema, mas criaram um problema muito maior, matando a natureza que agia dentro de mim.

— O que será de mim, de agora em diante, doutor? Tenho pensado em algo antes nunca imaginado, pois já chega até mim pensamentos suicidas.

O psiquiatra Dr. Murilo precisava consultar os livros escritos por Freud para tentar resolver o problemão insolúvel do cãozinho Nicão.

Você também pode gostar de: