Tecnologias para um Mundo futuro: legado de uma geração.

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Os processos naturais da vida sobre a Terra são circulares, isto é: todo fim é um novo começo. Já os processos industriais praticados pelos humanos são lineares: os produtos industriais são feitos de matérias-primas extraídas de reservas naturais, usadas em cadeias de produtos que terminam por ser descartados, acumulados em aterros sanitários ou simplesmente abandonados no ambiente, poluindo águas, ar e solo.

Mas quando o capim deixa de ser uma planta e se transforma no alimento de um animal, seus átomos são incorporados à carne, sangue e ossos do animal, aos seus dejetos e aos sólidos, líquidos e gases que este emite no ambiente. O gás carbônico exalado pelo animal volta a ser absorvido por uma planta, o estrume fertiliza o solo em que cresce novo capim, ou qualquer outro vegetal. Portanto, a natureza tem ciclos, e hoje já temos um razoável conhecimento dos ciclos de hidrogênio, oxigênio, da água, do carbono, do gás carbônico e de muitas outras substâncias, na superfície da Terra.

Os processos industriais lineares criados pelas tecnologias humanas dependem da existência de recursos naturais, como o petróleo, minérios, solo e água, e o descarte dos produtos que chegaram ao fim da sua vida gera muita poluição. Muitas tecnologias atuais só serão úteis enquanto houver recursos naturais acessíveis, a custos compatíveis com o valor dos produtos que vão gerar. Mas é óbvio que o petróleo, por exemplo, depois de queimado, não voltará a algum reservatório, para ser novamente extraído, processado e consumido em uma viagem de avião, ou na forma de uma escova de dentes.

Hoje, não pensamos nas ilhas britânicas ou em Chipre como importantes fontes de metais, mas os romanos pensavam assim. Chipre foi uma importante fonte de cobre, na antiguidade, mas em 2012 o setor mineral do país já não tinha peso importante no seu PIB. Hoje, o cobre se torna cada vez mais raro, em toda o mundo. É caro e os objetos, especialmente os cabos elétricos de cobre, são muito visados por ladrões urbanos ou rurais. Exemplos como esses levaram muitos pesquisadores a avaliarem a disponibilidade global dos muitos minerais que hoje usamos, e o resultado é preocupante. O esgotamento das suas fontes produz, inevitavelmente, a inviabilização da produção em importantes setores industriais.

Por exemplo, o pujante agronegócio brasileiro tem um calcanhar de Aquiles, que é a grande dependência nacional dos principais fertilizantes: o potássio, os fosfatos e os nitrogenados. Esses são hoje predominantemente importados. A produção brasileira de potássio, por exemplo, atende a uma pequena parte da demanda e não poderá ser mantida durante muito tempo, devido ao esgotamento das reservas conhecidas.

O esgotamento de recursos naturais preocupa a todos, pois impede que muitos negócios sejam realmente sustentáveis. Por isso, muitas estratégias estão sendo examinadas e praticadas, para prevenir desastres econômicos que poderão ocorrer na falta de ação oportuna. Um grande objetivo atual de quem quer que se preocupe com o futuro, com o mundo em que nossos filhos e netos viverão, é circularizar a economia, isto é, transformar os restos dos produtos que já foram usados em novos produtos. Em resumo, isso significa que devemos passar a olhar o lixo, de todos os tipos, como a principal fonte de matérias-primas que serão utilizadas na fabricação dos novos produtos.

Olhando ao nosso redor, encontramos alguns exemplos de circularidade, mas estes ainda são minoria. Por exemplo: o morador de cidades que usa um pequeno espaço do seu quintal para compostar o lixo da cozinha, produzindo fertilizante para seus vasos; o industrial que transforma ossos de bois e outros animais em farinha de ossos, uma excelente fonte de fósforo e cálcio para plantas; o reciclador de plásticos, de alumínio, de cobre, aço, ouro e outros metais, que praticam a hoje importante “mineração urbana”; o produtor de açucar, álcool e energia elétrica que usa a vinhaça produzida nas usinas como fonte de água e minerais para o plantio da cana, e de gás combustível, são alguns exemplos bem conhecidos. Mas são apenas uma pequena fração do que pode e deve ser feito.

A circularização de processos lineares exige esforço, investimentos, pesquisa – mas os resultados compensam. Em grandes cidades europeias e asiáticas, o lixo urbano e industrial não vai para aterros sanitários ou lixões, nem é jogado no mar. Ele é transformado em combustível, gerando calor e eletricidade. Copenhagen tem uma planta construída em um prédio no qual se queima lixo, se produz eletricidade e calor e…se esquia. O esqui de montanha é impossível na Dinamarca, que não tem montanhas ou mesmo colinas adequadas. Mas a BBC informa que desde outubro de 2019 se pode esquiar no meio da cidade, no mesmo prédio em que se alimenta a rede de eletricidade e se produz vapor usado para aquecer 72 mil casas, o que é muito bom em um país com longos invernos. Este é apenas um de vários exemplos.

Entretanto, é possível fazer muito mais que isso, e algumas organizações estão realizando trabalhos notáveis, para difundir ideias e estimular a iniciativas de governos, empresas, a academia e cidadãos. A Fundação Ellen MacArthur, com sede no Reino Unido, trabalha seguindo três princípios: Eliminar resíduos e poluição desde o princípio, Manter produtos e materiais em uso e Regenerar sistemas naturais. O seu alcance é muito amplo e em 2015 foi lançada no Brasil a sua primeira rede satélite, a CE100 Brasil, fortemente apoiada pela Natura.

Como todos os produtos e materiais que usamos, bem como todos os sistemas naturais são formados por substâncias químicas, o papel da Química na transformação de qualquer matéria em um novo produto, o alongamento dos seus tempos de vida, a sua reciclagem e a prevenção da poluição dependem muito de conhecimento químico.

Vários pesquisadores brasileiros hoje trabalham em projetos motivados pela Economia Circular. O Seminário Abiquim de Tecnologia e Inovação, realizado no Instituto Senai de Inovação em Biossintéticos, no Rio de Janeiro, em outubro de 2019 incluiu um painel intitulado ““Economia Circular: Desafios e Oportunidades para o Setor Químico” e os sites das principais empresas do setor hoje abordam o assunto.

Muito trabalho de pesquisa e desenvolvimento é necessário, para criar e introduzir as novas tecnologias necessárias para circularizar a economia. Nesse processo, o Brasil tem grandes vantagens sobre outros países e já mostra exemplos importantes de aproveitamento de biomassa e da biodiversidade. Mas é preciso fazer muito mais, e rápido, para não assistirmos ao colapso da economia devido ao esgotamento de recursos não-renováveis.

Sobre o incinerador Amage-Bakke, em Copenhagen:
https://www.bbc.com/news/business-49877318.
Sobre os incineradores de Tóquio: http://202.214.194.147/tomodachi/2015/winter2015/advanced_waste_disposal_technology.html
Sobre a importância da Química para a Economia Circular:
http://static.sites.sbq.org.br/rvq.sbq.org.br/pdf/VitorNoPrelo.pdf
Sobre a rede CE100 Brasil:
https://www.ellenmacarthurfoundation.org/assets/downloads/Brasil-Launch-Summary.pdf

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