A milagrosa cirurgia bariátrica

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Estávamos no pátio da fabrica de pães de queijo, em Ribeirão Pires, na Grande São Paulo.
Joamir e eu já tínhamos enchido baldes e mais baldes de escorpiões que não paravam de sair do pequeno matagal existente nos fundos do terreno. Joamir praguejava a todo momento. Dizia “esses bichos vão acabar com meu negócio de pãezinhos de queijo; justo agora que tinha lançado os novos modelos com design inovador”. Ele tinha razão, a quantidade de escorpiões aumentava dia após dia, naquelas duas últimas semanas. Alguém tinha dito que era devido ao calor insuportável do verão. Realmente, notamos que tanto o calor como a umidade, eram os motivos da proliferação e do aumento chegando a níveis alarmantes.
Eu tinha dito ao Joamir que o queijo estocado e a farinha dos pãezinhos atraia os bichinhos. Para eles era uma questão de sobrevivência e de gosto. Ele não se conformava, não parava de xingar e lá íamos nós novamente a catar escorpiões, colocar nos baldes e depois de mortos a pauladas, os jogávamos no Ribeirão dos Pires. As tilápias de lá gostavam e faziam a festa com os escorpiões.
O assunto dos escorpiões era apenas um pequeno problema.
Tínhamos um muito maior. No quartinho ao lado, usado às vezes como local de curtição de bebedeira ou de alguma preguiça que surgisse, estava deitado nosso amigo João. Passava mal e aquele dia era o quarto que nós dois cuidávamos dele.
Afinal, que tinha ele? Era o mais novo de nós três e nestes últimos meses vinha sentindo dores, tonturas, palpitações e toda espécie de desarranjo orgânico, como diarreias, urina solta, aftas na boca, bafo de onça, suor excessivo e por ai vai.
— O João está muito gordo! — dizia Joamir.— Conheci ele quando ainda pesava 60 quilos, mas agora, com 150 passou da conta, não há estrutura física que aguente. Só para falar da resistência óssea, imagine o quanto sofre um joelho, um tornozelo ou a própria coluna vertebral, para aguentar alguém pesando 10 arrobas, bem pesadas por sinal. É por isso que anda de pernas abertas, os braços balançando parecendo que estão remando e balançando o corpo para manter o equilíbrio. Coitado! Ele que tanto gostava de jogar uma partida de futebol. Correr agora para ele é muito complicado, para não dizer muito perigoso.
— Eu, por mim, estou tentando a meses convencer ele de fazer uma cirurgia de redução de estômago ou até mesmo uma bariátrica. — Respondi colocando panos quentes no assunto.
Joamir estava preocupado, não sabia se pensava na eliminação dos escorpiões ou se cuidava do amigo. A chuva tinha aumentado, no céu os trovões faziam enorme barulho, relâmpagos riscavam de lado a lado o espaço, muito vento. Aquela chuva traria mais escorpiões. E João não estava bem. Naquele dia, notou ter começado a dizer palavras desconexas durante o atormentado sono. Falava de querer ir jogar xadrez; depois gritava por socorro dizendo que a Cuca vinha pegar ele; chamava pela mãe a todo instante; falava para o irmão acender a luz porque tinha medo do escuro; dizia que o local estava cheio de baratas e estava com medo; e muitas outras coisas que tinha escondido de mim. Eu confesso, estava muito preocupado pelo amigo doente.
Naquela noite, lá pelas altas horas, eu não podia precisar a exatidão, já tinha dormido e agora procurava retomar o sono, quando algo ocorreu. Pareceu ter caído um raio no quintal ou no arvoredo existente nos fundos, perto do galinheiro mantido pelo Joamir no local. Fui até a janela e nada pude perceber. Voltei para a cadeira e procurei retomar o sono perdido.

Dia seguinte, de manhãzinha, vi Joamir atarefado espantando escorpiões dos sacos de farinha de mandioca e do queijo. Tais itens constituíam as matérias-primas dos deliciosos pães de queijo fabricados por ele. A luta foi ferrenha entre ele e os escorpiões. Ele venceu no final e lá fomos nós momentos depois jogar no riacho os baldes de escorpiões mortos por ele naquela manhã.
O galinheiro estava quebrado, parecia que algo tinha caído em cima dele. Devia ser algum galho de árvore caído durante a ventania com chuva da noite passada. As galinhas estavam inquietas e algo as incomodavam. Fui ver rapidamente, pois há sempre o perigo de que algum animal mate as galinhas. Mas, não era um animal o que estava lá no galinheiro.
Notei algo estranho, chamei o Joamir e juntos fomos ver o que ocorria. Fiquei abismado com que vi!
No fundo do galinheiro estava uma criatura parecendo ser humano, mas não era. Gemia baixinho, soltava sons ininteligíveis parecendo ser duma língua desconhecida. Trazia nas costas, em péssimo estado, um par de asas parecidas com as asas de uma águia. Elas estavam quebradas, muitas penas arrancadas e sangrava em vários lugares. Coitada da criatura! Joamir chegou mais perto e viu ser alguém em mau estado, uma espécie de velhinho com idade aproximada de 80 anos, cabeça com ralos cabelos, todo enrugado e com duas enormes asas grudadas ou amarradas nas costas. Tentei cutucar ele com uma vara, mas nem se mexeu ou falou algo comigo.
Joamir estava uma pilha de nervos. Com escorpiões por todo lado, o amigo doente, e agora um velho caquético jogado em seu galinheiro em péssimo estado. Alguém poderia chamar a policia e isso complicar sua vida. Pediu para mim, Valter, dar um jeito neste assunto pois precisava voltar para cuidar de seus pães de queijo. Tinha entregas a fazer.
Avaliei o que foi possível fazer e como não cheguei a nenhuma conclusão, resolvi apelar para minha fada madrinha, a maga, a mística esotérica, a minha amiga Ana Rosa. Ela de pronto me atendeu e em poucas horas lá estava ao meu lado analisando a estranha figura.
— Mas, Valter, você ainda não entendeu? É um anjo…
— O quê? Um anjo? Isto ? Não pode ser.
— Pois é um anjo. Tudo indica que estava numa missão, houve contratempos, talvez a tempestade de ontem, a ventania, os raios, devem tê-lo atingido. É como se tivesse sido atropelado em plena atividade de resgate.

As mulheres são práticas por natureza. Ana Rosa, depois de nossa conversa, chamou o padre local. Juntos analisaram o anjo e parece que o padre não se convenceu muito de que aquilo seria um anjo, tal como ele tinha aprendido. Em certo momento, puxou tanto as asas do pobre anjo que quase o matou. Só obteve mais gemidos e fez com que ele se encolhesse ainda mais na posição fetal, tal qual um bebê no útero materno. O padre tentou conversar com ele em português, depois tentou em italiano — a língua da Roma atual —, tentou o latim e nada. Nenhuma resposta. Desistiu e foi embora.
Ana Rosa continuou ao lado do anjo, tudo em consideração ao amigo Valter. Se fosse por si mesma, também teria ido embora, tal qual o padre, pois tinha muito o que fazer, “make money” como sempre dizia.
Depois do padre, ela tentou com pastores evangélicos cristãos e chegando até a consultar um mulá muçulmano, pois tinha aprendido que os muçulmanos são recebidos após a morte por anjos no paraíso, este poderia ser um deles.
Ana Rosa tudo fez o que estava a seu alcance. Mexeu céus e terra a procura de uma explicação plausível que justificasse o que tinha ocorrido, mas não teve êxito. Abandonou o caso, a exemplo de todos os outros conhecedores dos assuntos espirituais.
Joamir e eu também deixamos o assunto do anjo de lado. Fomos cuidar de nossa própria vida.
O anjo caído do céu continuou lá no galinheiro junto com as galinhas do Joamir. No começo foi difícil achar algo que ele comesse, mas a vizinha um dia tentou dar papinha de mandioquinha com purê de batatas e não é que funcionou. Ele gostou e assim passou a se alimentar junto com as galinhas e lá ficou morando.

Meses se passaram.
João tivera um pico na sua crise de dores, desconfortos e sofrimentos naquela noite estranha. Dias depois, tomou a iniciativa de se curar, melhorar seu visual, gostar de si mesmo e partiu para uma Cirurgia Bariátrica. Em poucos meses, operou, se recuperou, fez exercícios, melhorou a dieta alimentar e contando o resultado, alguém pode não acreditar.
Ele reduziu o peso de 150 quilos para míseros 80 quilos. Uma redução de 70 quilos, ou como diríamos estatisticamente uma redução de 47%.
Está esbelto, mais bonitão, usa camisetas que marcam o corpo, diz que próxima meta é ter barriga-tanquinho, não anda mais balançando a bunda, os braços também não vivem remando um barco imaginário. Enfim, está feliz! Isso mesmo, feliz e renovado, até diz que tem melhorado a performance da libido, que antes quase tinha desaparecido.
Joamir e eu também gostamos de seu novo visual. É nosso amigo e queremos o melhor para ele.

Nos últimos dias, fizemos nós três um churrasco no quintal, onde foi palco dos acontecimentos tão toscamente narrados acima e em certo momento João comentou:
— Cara, há dez meses atrás quase que morri naquele quartinho que ali está. Estava mal, achava que ia morrer e, em certo momento, rezei pedindo ajuda aos céus. Reconheço hoje que fui atendido.
— Me lembro bem. Justo naqueles dias houve uma epidemia de escorpiões por aqui, causando transtornos e acredito que algo aconteceu acabando com todos eles, — disse Joamir. — Hoje não temos nenhum escorpião circulando por aí.
— Coisas da vida! Disse eu. — Realmente muita coisa aconteceu neste tempo. Até o anjo velhinho que vive no galinheiro junto com as galinhas tem melhorado. Chegou naquele dia. Tenho notado que suas asas estão ficando curadas e tem nascido novas penas em suas costas.

Dois dias após esta conversa, Ana Rosa tinha nos visitado e depois de conversarmos, tinha ido visitar o anjo lá no galinheiro. Ela disse ter notado um olhar de felicidade em nosso anjo. Percebia algo de bom acontecendo com ele.
Depois disso passei a observar de como ele estava agindo discretamente, sem chamar muita atenção. Fazia todos os dias exercícios com suas novas asas, logo depois do anoitecer. Eu ocultamente, percebia que a cada dia iam melhorando cada vez mais.
Até que certa manhã, bem cedinho, o vi levantar voo e após dar uma volta circular pelo local onde estava, subiu cada vez mais, até sumir nos céus.
Liguei no mesmo dia para Ana Rosa contando da partida do anjo. Ela me confidenciou — dizendo que não deveria chegar aos ouvidos dos outros dois,— de que tal anjo tinha vindo para buscar o João, mas devido a problemas climáticos de tempestades, relâmpagos e trovões, fizeram com que fosse atropelado e sua missão ficasse estagnada aguardando melhores momentos. Se fosse um anjo forte e robusto João teria ido. Como João fez sua cirurgia bariátrica, tudo tinha acabado bem para todos. O anjo tinha esperado até a confirmação das melhoras de João enquanto recuperava suas asas.
A missão a ser cumprida tinha sofrido alterações. Ficara para outra época.

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