Vive la France

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Allons enfants de la Patrie
Le jour de gloire est arrivé
Contre nous de la tyrannie
L’étendard sanglant est levé
L’étendard sanglant est levé…

Ao longe se ouve os últimos sons da Marseillaise, cantada em tom militar por Jean Claude Bounie. Caminhando a seu lado, está o companheiro destes tempos de solidão, o leal cãozinho Voltaire, também já avançado em anos. É o crepúsculo de mais um dia, à beira mar, no Boqueirão da Praia Grande.
… Os pensamentos voam como sempre à sua saudosa Oran, com belas praias de frente para o Mediterrâneo. Lá nasceu, viveu a infância, aprendeu as primeiras letras e lá conheceu o primeiro amor de sua vida. Amava como ninguém sua querida França. Não se importava haver nascido no norte da África, na Argélia Francesa. Era um autêntico cidadão francês, conforme regras da época. Conhecido pelos franceses do continente, como de uma família de “pieds noirs”, ou pés-negros — cidadãos franceses brancos nascidos em África —.
O pai tinha sido um aventureiro francês do início do século XX, nascido em Alpes-de-Haute-Provence, emigrando ainda jovem para terras argelinas, tendo aportado em Sidi Bel Abbès e lá, em pleno deserto, serviu por dez longos anos na valorosa Legião Estrangeira. Depois do serviço militar no norte da África a serviços da Legião, e tendo participado em muitas missões de combate, resolve deixar a Legião Estrangeira, indo para Oran, no litoral argelino, cuidar duma plantação de arroz. Lá conhece Christine que seria durante anos a companheira de todos os momentos. Tiveram três filhos, duas meninas gêmeas e um menino de nome Jean Claude, que trouxeram alegria ao casal. Eles afirmavam serem os filhos, no momento oportuno, os guardiões desta tradicional família francesa em terras africanas.
Jean Claude, hoje, pensa no pai com carinho e murmura para si mesmo: “— A vida nem sempre realiza os planos idealizados pelas pessoas. Imprevisíveis são os resultados!”.

O final da década de 1940 traz para os argelinos e, particularmente, para os habitantes da cidade litorânea de Oran, acontecimentos dramáticos que atingem grande parte das famílias. Como não poderia deixar de ocorrer, a família de Jean Claude também sofre os nefastos efeitos desta catástrofe que varreu boa parte do norte da África mediterrânea. A cidade de Oran sofre os maiores efeitos, pois tinha uma quantidade maior de habitantes. As habitações dos árabes e berberes, em estado lastimável de higiene tornam-se foco ideal e inevitável de propagação da temida peste bubônica.
As residências de árabes muçulmanos foram as mais varridas pelos focos de ratos contaminados com o vírus da temível peste. O escritor argelino Albert Camus, prêmio Nobel de literatura, detalhou esta peste num de seus livros mais emblemáticos e chocantes. Oran foi dizimada em grande parte de sua população em pouco tempo.
O pai de Jean Claude perde nesta época para a horrorosa febre bubônica, sua esposa Christine e suas filhas mais velhas, em questão de poucos dias. Milagrosamente consegue não se contaminar e o filho caçula, Jean, teve uma pequena febre que as autoridades sanitárias conseguiram controlar a tempo. Só lhe sobrara o filho, ao final do grande drama local e familiar. Com muito custo, as equipes sanitárias e o governo francês conseguem debelar a peste. Os estragos causados foram imensos na maioria das famílias de Oran.
Após a peste, o pai de Jean Claude continua por algum tempo cuidando dos negócios nas plantações de arroz, mas sente não ser mais o mesmo de antes. A energia parecia ter ido embora, e as antigas alegrias da família, são agora recordações duras e amargas. Só tinha lhe sobrado o filho.
Além das amargas recordações dos entes queridos, havia ainda o assunto das rebeliões árabes na luta pela independência do território argelino. Queriam se livrar do jugo colonial que já duravam 130 anos. Ouve-se de todos os lados notícias de atos de terrorismo, mortes, brigas, provocações e todo tipo de situações que colocam em risco o fato de ser branco na Argélia e ainda mais de ascendência francesa. Na Argélia revoltosa da época, a população era de oito milhões de árabes e berberes e um milhão de cidadãos brancos franceses.
Não tem dúvidas. Decide deixar a Argélia. Mas, voltar para Alpes-de-Haute-Provence não dá mais. Lá não existe mais nenhum conhecido ou parente de que se recorde. Tal problema é idêntico à grande parte daqueles que querem deixar solo argelino. Muitos vão para o Canadá francês. O pai de Jean Claude tem um amigo trabalhando numa multinacional francesa no Brasil e o convida a vir. É o que se apresenta a ele.
Não pensa duas vezes, resolve e prepara todos os meios para se transferir para o Brasil. Chegam à Santo André – SP e em poucos dias o pai de Jean Claude estará trabalhando nas linhas de produção da Rhodia, empresa francesa atuando na divisão química.

Na época de 1964, Jean Claude trabalhava durante o dia, como office-boy administrativo na divisão têxtil do Grupo Rhodia, conhecida como Valisère. Estudava à noite com o relator destes fatos.
Atualmente o pai, já é falecido. Nunca deixou de ser um francês vivendo em terras estranhas. Aprendeu da língua portuguesa o suficiente para o gasto, e até o final de seus dias tinha aquele acentuado sotaque francês, puxando muito os ‘erres’. Já Jean adaptou-se muito bem ao modo brasileiro de viver. Casou-se e constituiu família no Brasil.
Jean, hoje já aposentado pelas leis brasileiras, curte seu antigo amor pelo mar. Vive num amplo apartamento na Praia Grande, no litoral paulista.
Neste dia, uma tarde quente e tranquila enquanto passeia com Voltaire pelo calçadão da praia, recorda do inesquecível pai, com os olhos úmidos, de quem muito aprendeu. Sente tanto como o pai, no íntimo do coração, o inesquecível amor pela França de sua infância. Parece ainda ouvir a voz sonora do pai dizendo:
— Vive la France!
— Vive la Liberté!
— Vive la République!

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