Cenário da disputa eleitoral da Prefeitura de São Paulo: Guilherme Boulos.

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Guilherme Boulos, integrante de família de médicos e engenheiros renomados, ainda universitário aderiu às causas dos “sem tetos”. Esses não são, os moradores de rua, mas famílias despejadas, seja por desapropriações para construção de obras públicas, falta de pagamento de aluguéis, como por desocupação de áreas privadas por imposição judicial. Passou a liderar invasões a áreas públicas, para assentar essa população, desprovida de moradia.
Para não ficar no discurso de apoio a essa população ou em oposição ao Governo, abandonou as comodidades de uma família de classe média alta e foi morar numa das invasões.
Assumiu o comando do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), uma versão urbana do MST (Movimento dos Sem Terra), com a mesma visão de direito social da propriedade, promovendo invasões de propriedades públicas e privadas.
Tornou-se mais conhecido em 2014 quando liderou o movimento “Não vai ter Copa”, promovendo manifestações de rua contra os gastos com a preparação da Copa do Mundo de 2014 e promoveu a invasão de uma área próxima ao local da construção da Arena Corinthians, em Itaquera, reivindicando a construção de moradias para abrigar integrantes do MTST.
Obteve compromisso da então Presidente Dilma Rousseff de financiamento do empreendimento, promovendo ajustes nas prioridades de financiamento do Minha Casa, Minha Vida, assim como benefícios do Prefeito Fernando Haddad que encaminhou, conseguiu a aprovação na Câmara Municipal e sancionou lei, mudando os índices urbanísticos. Com os beneficios o MTST comprou a gleba invadida, sem transparência da origem do dinheiro.
Com o impeachment de Dilma e derrota de Fernando Haddad o projeto “Copa do Povo” foi congelado, apesar do dinheiro do financiamento para a construção das moradia ter ficado à disposição.
Em 2018 foi candidato pelo PSOL à Presidência de República, alcançando 617.122 votos, 0,58% dos votos válidos, dos quais 76.953 no Munícipio de São Paulo (1,21% dos votos válidos).
Enquanto o PT, assim como o PDT continuem focados nos trabalhadores formais, Boulos buscou os trabalhadores ditos informais, que com a pandemia emergiram aos olhos da sociedade organizada e superam, em quantidade os formais.
Essa população, representa o principal segmento eleitoral, em quantidade de eleitores, mas em função da sua formação escolar, ou da não formação, estão mais sujeitos à manipulação dos políticos.
Lula e o PT foram organizados pelos trabalhadores formais, “com carteira assinada” e desprezaram esses trabalhadores, por conta própria, caracterizados por eles, como pelo resto da sociedade, como informais, dando a essa categoria um sentido pejorativo. Nas próprias teorias da esquerda, esse contingente é discriminado, caracterizado como “lumpem proletariat”.
Em 1989, Fernando Collor de Mello aproveitou a discriminação de Lula e do PT e capturou os votos desse eleitorado, caracterizado por ele como “os pés descalaços” e propondo que “agora é a nossa vez”. Falso, como se demonstrou na sequência, mas suficiente para a disputa final com Lula.
Buscando também os votos desse eleitorado, Lula foi eleito em 2002 e implantou o Bolsa Família, com um pequeno auxílio pecuniário para essa população. Com isso conseguiu a reeleição em 2006 e a eleição de Dilma Rousseff, em 2010. Mas o PT pouco avançou no atendimento a essa população, embora mantendo o seu apoio parcial. A omissão na melhoria do atendimento deu margem ao avanço das igrejas evangélicas, com a sua política de acolhimento 24 horas. Os seus adeptos, em grande parte, votaram em Jair Bolsonaro, em 2018, contribuindo decisivamente para a sua eleição.
O PT seguiu abandonado esse “lumpem proletariat” e Guilherme Boulos o foi conquistando, dentro dos velhos conceitos marxistas de confronto. Não entre patrões e empregados, mas contra o capitalismo imobiliário, que tem no direito da propriedade a sua principal base. Boulos se inseriu no movimento, iniciado pelos intelectuais do PT, da propriedade social do solo, passando do discurso para a prática, contrapondo-se contra as leis vigentes. Segue a teoria de que leis injustas não precisam ser obedecidas, o que é inaceito pela sociedade organizada que mobiliza os Governos para criminalizar tais desobediências.
Boulos cria, com as invasões, situações de fato e passa a defendê-las em função dos impactos sociais das eventuais desocupações forçadas.
Veio ganhando apoios dentro da esquerda, inclusive de filiados e adeptos do PT, principalmente dos segmentos mais instruidos, provocando o esvaziamento político-eleitoral do PT.
Assumiu uma bandeira que passou a ser do PSOL, com outras lideranças, como Marielle Franco no Rio de Janeiro. Produto das favelas do Rio de Janeiro, que abrigam a maioria dos informais, além de gerar espaço para o tráfico ou para as milícias, eleita vereadora, com o voto dos “informais” teve a sua carreira interrompida com o seu assassinato, mas deixou uma importante marca que diferencia a atuação do PSOL com o PT.
A tendência, em função dessa base, é que o PSOL passe a dominar o campo da esquerda, tirando a já tradicional hegemonia do PT.
São Paulo será o caso exemplar para evidenciar essa transformação.
Terá Boulos capacidade de conquistar e manter o apoio desse importante segmento do eleitorado, ora assediado por Bolsonaro com o auxílio-emergencial e defesa da liberdade de movimentação para ir buscar o sustento?
Boulos não tem as mesmas amarras da burocracia petista e está se utilizando mais amplamente da rede social, com o apoio de jovens digitais que se filiam às suas idéias e propostas. Não está disposto a perder, como Fernando Haddad e o PT a disputa nas redes sociais, ainda que isso não represente necessariamente votos.
Por outro lado, as reações contrárias tendem a se unir contra essa movimentação social, que se baseia na contestação dos institutos tradicionais do “establishment”?
O limite de expansão do boulismo não está claro, tampouco o tamanho da sua oposição, mas é certo que se ele chegar ao segundo turno, unirá toda aquela para evitar a sua eleição. Ainda não será dessa vez que chegará ao poder em São Paulo.
Mas dará indícios importantes para 2022, diante da “descoberta” de Bolsonaro da importância do eleitorado dos informais. Os quais não são dominados pelo PT, mas estão sendo conquistados pelo PSOL.

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