O Colecionador

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Quarta-feira, 02 de janeiro de 2019. Pascoal ainda cochila preguiçosamente junto à família. As festas do final de ano, afinal terminaram. Está cansado. Já não tem a mesma energia de outras épocas. Acredita ter exagerado nos assados e, com certeza, nas bebidas alcoólicas. Já não é o mesmo de antes. Afinal, é um senhorzinho já passado dos sessenta.

Ele consulta de modo quase automático as mensagens no celular. Também se tornou viciado neste mágico aparelhinho, que só falta falar, aliás, ele foi feito para falar, mas na atualidade é uma de suas funções menos utilizada pela grande maioria dos usuários. Descobre ter recebido várias mensagens; muitas desejando Boas Festas, outras retribuindo votos de Feliz Natal, outras ainda de trabalho que agenda para outro dia e, por último, nota uma estranha vinda do amigo Boca. Era uma mensagem do “whatsapp” curtinha; mas, curiosa e intrigante!

— “Pascoal me ligue urgente!”.   

De imediato Pascoal liga para o amigo.

— Alô…  é o Boca? Aqui é o Pascoal, aconteceu alguma coisa?

— Ah! Pascoalzinho, foi bom você ligar, já estava preocupado.

— Mas antes, Feliz ano novo! Estou um trapo, pensava tirar o dia todo dormindo para repor as energias gastas neste réveillon, mas parece que algo o está preocupando. Fala aí, meu amigo.

— Eu também estou num bagaço danado. Não tenho mais pique para festas de fim de ano. Dois colegas nossos — o Vaz e o Mikio — me contataram dizendo saber que um de nossos colegas está com atitudes estranhas. Afirmam estar ele deixando a todos os familiares preocupados com sua sanidade mental ou um início de demência iminente. Como somos os mais próximos a ele, os dois pedem nossa intervenção.

— Minha Santa Bárbara do Rio Pardo!  Fala logo o que aconteceu?

— Tenha calma, Pascoal, não é caso de doença ruim, nem de morte. Apenas um comportamento estranho indicando problemas de sanidade da parte dele.

— É com algum de nossos colegas mais velhos?

— Não, ele não é dos mais velhos. Está beirando aí pelos 73 anos, mais ou menos. Foi meu “parceiro” em alguns negócios. Hoje curte uma merecida aposentadoria. Vive de chinelão o dia todo e em todos os dias do ano, eu acredito.

— Mas conta, meu amigo, não faça mistério. Quem é o colega?

— Me deixa contar mais algumas informações sobre ele. Durante muito tempo trabalhou na área de aparelhos domésticos lá na GE. Depois ainda seguiu as linhas de produção de aparelhos domésticos, quando a GE vendeu linhas de Portáteis para a Black Decker.

— Espera aí, você está falando do Paulo Pereira dos Santos, do João Barbosa, do Walter Serer, do Mateus, do Haruo, do Walter Thiago ou do Antonio Melo?

— Calma, já vou chegar lá. Esse nosso amigo tem nos últimos tempos colecionado objetos antigos, principalmente alguns fabricados na década de 60. Tem verdadeira paixão por telefones antigos, aqueles fabricados de disco numérico, enormes e pretos, tal como todos nós os conhecíamos e utilizávamos. Ele já tem vários modelos, todos pretos, está parecendo uma obsessão!

— Mas, Boca, isso é normal nas pessoas. Todos gostam de colecionar algo. Sei de um nosso amigo lá do FMP que passou a vida toda colecionando calcinhas femininas. Hoje só mostra a coleção para os amigos mais chegados a ele.

— Mas, Pascoal, esse nosso amigo da B&D tem adicionado à sua coleção de objetos pretos, todos os tipos de ferros elétricos GE, tão familiares a todos nós naquela época. Há modelos de ferro elétrico básico assim como dos mais sofisticados a vapor, — todos pretos —. Você precisa ver no que se transformou a casa dele depois de todos estes objetos. A mulher dele não aguenta mais. Pede que conversemos com ele e que o convença a tirar da cabeça essa ideia maluca de colecionar objetos pretos fora de linha há longo tempo. Os filhos acham que o pai endoideceu. Esse é o motivo de meu contato — para me ajudar a falar com ele —. Você tem mais jeito, já foi coroinha, ele te ouve e acho que juntos podemos convencê-lo a retroceder desta estranha coleção.

— Mas Boca, você ainda não me disse de quem estamos falando.

— Pascoal, precisamos convencer o MATEUS de que o BAQUELITE caiu em desuso há muito tempo. Seu amor ao BAQUELITE continua até hoje. Ele fala (eu mesmo já ouvi várias vezes!) que deve ao BAQUELITE os melhores anos de sua vida. Ajude-me amigo, a ajudar este nosso amigo a retornar para o mundo real.

— Conte comigo!

Os dois amigos se despedem e no dia seguinte aportam em São Bernardo do Campo para cumprirem mais uma dura missão, tudo em nome dos velhos tempos.

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