A convivência com pessoas é essencial.

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn

ENTREVISTA com Amantino Ramos de Freitas*, brasileiro, 79 anos, engenheiro civil, com mestrado e doutorado nos Estados Unidos.  Atuou durante vinte anos como diretor da divisão de Madeiras do Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (IPT).  Fundador e atual vice-presidente da CPTI Tecnologia e Desenvolvimento, empresa cooperativa de ex-funcionários do IPT; presidente da Sociedade Brasileira de Silvicultura (SBS).

* Esta entrevista foi autorizada pelo entrevistado a ser publicada por mim. Ela foi publicada no blog “Muita Idade e Vida Saudável” (muitaidade.blogspot.com)dia 08/11/2019.

MRF – Você escreveu um texto muito interessante sobre a importância dos bons relacionamentos na saúde, bem-estar e longevidade dos seres humanos. Por que esse assunto lhe chamou a atenção?

AR de F – Tenho observado com frequência que muitos indivíduos que progridem na vida e alcançam algum prestígio e boas condições sociais e econômicas, tendem a pensar que tudo o que lhes acontece é resultado de sua inteligência e esforço e passam a acreditar que são melhores que os demais e que esse sucesso lhes garante mais privilégios e direitos. Essa “superioridade” não lhes proporciona uma verdadeira felicidade; pelo contrário, ficam frustrados com facilidade e podem se aborrecer profundamente com questões irrelevantes.  Por outro lado, as pessoas que não se julgam tão importantes e que valorizam as pequenas alegrias cotidianas e os seus relacionamentos familiares, sociais e afetivos, parecem desfrutar de uma relativa felicidade. Essas observações motivaram-me a ler e a refletir sobre os fatores que influenciam e determinam a conquista da felicidade e da saúde nos seres humanos.

MRF – Você, no seu texto, citou um estudo muito importante realizado pela Universidade de Harvard sobre o que proporciona uma vida feliz, saudável e longa aos seres humanos. Pode nos contar alguma coisa sobre ele?

AR de F – Posso, sim.  Trata-se de um estudo muito longo que foi iniciado em 1938, denominado “Estudo sobre o desenvolvimento de adultos” na Universidade de Harvard e que perdura até aos dias atuais.  Esse estudo foi realizado com 724 adolescentes provenientes de duas camadas sociais diferentes: um grupo foi constituído por alunos da própria universidade filhos de famílias mais abastadas e o outro foi composto por adolescentes carentes residentes em bairros pobres de Boston.  Essa população foi acompanhada por meio de questionários que incluíram questões sobre seus casamentos, satisfação no trabalho e atividades sociais.  A saúde foi acompanhada por meio de exames a cada cinco anos.

Cerca de 60 homens que participaram do estudo ainda estão vivos, a maioria com mais de 90 anos.  Os pesquisadores agora pretendem estudar a segunda geração, mais de 2.000 descendentes dos participantes do estudo original.  A ideia é identificar como as experiências da infância influenciam a saúde na meia-idade.

MRF – E quais as principais conclusões a que chegou a equipe de pesquisadores?

AR de F – Numa conferência, em novembro de 2015, o professor de medicina psiquiátrica dessa universidade e atual coordenador desse estudo, Robert Waldinger, afirmou que não é a fama nem o dinheiro que determina a nossa sensação de felicidade, a nossa saúde e o nosso tempo de vida e citou um estudo que mostrou que a meta principal de 80% dos jovens da atual geração é o “ficar rico”.  Afirma que o estudo de Harvard mostrou que existem três fatores determinantes da felicidade, saúde e longevidade.  O primeiro são as relações sociais porque “a solidão mata”.  As pessoas que têm mais ligações sociais e de amizade são mais felizes, são mais saudáveis e vivem mais tempo do que aquelas que se isolam.  A experiência da solidão acaba por ser tóxica.  Em outras palavras, os indivíduos com mais dificuldade de estabelecer interações sociais e de amizade são menos felizes, tem a saúde deteriorada mais depressa, sua memória e funcionamento cerebral diminuem mais cedo e vivem menos tempo.

O segundo fator é a qualidade das relações próximas; viver no meio de conflitos é prejudicial à saúde, enquanto conviver amistosamente protege a saúde.  A qualidade dos relacionamentos é mais importante que a quantidade.

Por último, o estudo provou que os seres humanos têm necessidade de conviver de forma próxima com pessoas com as quais podem contar em momentos de necessidade, sentem-se mais protegidas e seguras.  Mesmo nos casos em que essas relações de proximidade tenham momentos difíceis, o fato de sentirem segurança no outro auxilia no bem-estar dos indivíduos.  A conferência do Dr. Waldinger está disponível na Internet no site: https://www.ted.com/talks/robert_waldinger_what_makes_a_good_life_lessons_from_the_longest_study_on_happiness?language=pt.

MRF – Na sua opinião, como esses fatores podem ser colocados em prática?

AR de F – As possibilidades para se construírem boas relações são ilimitadas.  Há soluções muito simples, como por exemplo, substituir o tempo gasto em frente à televisão por contatos com amigos e parentes, ou resgatar relações que esmaeceram e que podem ser recompostas. Nas horas de folga podem-se criar oportunidades de tarefas em grupo, buscar participação em trabalhos voluntários, prestar serviços a comunidades carentes, e outras iniciativas similares.  Guardar rancores eternos, afastar-se de pessoas por motivos banais, manter e estimular rusgas são comportamentos que podem ter efeitos negativos para a própria saúde e bem-estar.  Há mais de 100 anos, Mark Twain (1835-1910), escritor e humorista norte americano, já dizia “A vida é curta – não há tempo para discussões, desculpas, amarguras ou prestação de contas. Só há tempo para amar e, mesmo para isso, é só um instante”.  Parafraseando um grande amigo e renomado enólogo: “a vida é curta para se tomar vinhos de má qualidade” …

Você também pode gostar de: