Diálogo entre bois

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn

Tal relato me foi feito por um amigo de longa data. Todos os que estão a ler, certamente o conhecem ou já ouviram falar de sua pessoa. É cidadão decente, de ilibada sensatez e princípios morais. Quem o conhece sabe que dali tudo que se ouvir é correto e corresponde à mais pura verdade. Ele em nenhum momento de sua vida se deixou levar por assuntos mundanos ou de pequena relevância. Portanto, meus amigos, daremos a ele sempre um voto de confiança e de credibilidade. Aqueles que possam torcer o nariz e achar tratar-se de uma farsa, deveriam ter uma conversa pessoal com ele, para confirmarem minhas palavras. Repito: “Ele é alguém acima de qualquer suspeita e merece nossa atenção”. Não são abobrinhas o que ele diz, mas sim, um retrato fiel e exato do que teria visto, participado e confirmado.

Perguntará alguém:

— Afinal, sobre o quê e de quem estamos falando?

Inicio relatando que tal cavalheiro, visitou recentemente Fortaleza, capital do Estado do Ceará. Diz ele ter ido para visitar filhos, netos e parentes. De volta, não se cansou de elogiar o clima quente e gostoso da capital cearense. Tomou banho de sol, frequentou populosas praias (Jericoacoara terá saudades dele!), tomou todas as caipirinhas que aguentou (muitas longe dos olhos da atenta esposa!), comeu além da conta e fez passeios educativos por toda região metropolitana. Diz ter conhecido lá turistas de toda região da Itália, que muito o ajudaram no aprimoramento da pronúncia da língua italiana, em estudo na atualidade. Voltou falando como um autêntico conde italiano de Mantova!

Compartilho com todos uma narração ouvida dele e acho interessará a todos. A partir de agora, a voz do narrador será ele contando…

… Num dos dias em que estive em Fortaleza, fui passear nas redondezas para conhecer um pouco melhor a região. Fui sozinho, sem ideias pré-concebidas e pronto para viver qualquer experiência que me interessasse. Caminhei sem rumo por algumas horas, tomei um ônibus e fui conhecer a cidade vizinha. Conheceria lá as pessoas, tomaria uma cervejinha e o mais importante conversaria com pessoas locais.

Eram já umas quatro horas da tarde, quando parei para descansar debaixo de uma árvore frondosa, acho que era uma enorme mangueira, de uma fazenda existente por lá.

Notei existir na fazenda muito gado e justo naquela hora, debaixo de um calor senegalês, os bois e as vacas estavam deitados na grama descansando. Notei, em especial, dois bois a aproveitarem as sombras feitas pelo vistoso arvoredo local, bem pertinho de mim.

Fiquei olhando aquele gado descansando, ruminando (parece mascarem chicletes o tempo todo!) e isso me trouxe grande alegria. Como é bela a natureza! Eu ali ao lado do gado e descansando debaixo de uma refrescante sombra. O mundo parecia parado e cheio de harmonia.

 Notei que os dois bois deitados ao meu lado, se comunicavam entre si. Imaginei como seria bom se eu pudesse entender a linguagem bovina. Saber o que se passava em suas cabeças e o que conversavam.

Como num passe de mágica, notei que minha mente passava a ouvir o que diziam os bois ao meu lado. Parecia um milagre. Se fosse contar para alguém, por certo ninguém acreditaria. Falariam que eu estava delirando. Mas que eu ouvia…, eu ouvia… Como sou curioso, abri bem os ouvidos e procurei entender o fio da meada daquela conversa.

O boi velho chamava-se Theotônio, ou Tonho, pelo que pude apurar. O boizinho jovem chamava-se Theófilo, ou Téo. Me parece que a conversa girava em torno das vacas…

— Sabe, Tonho, eu te invejo a experiência e o traquejo em todos suas atitudes. Você é sábio. Conseguiu se manter vivo, longe do abate por longo tempo. Isso não é para qualquer um.

— Pois é, Téo, a vida de um macho é perigosa para nós. A grande maioria de nós passa por um duro teste muito cedo. Ainda bezerro, os humanos nos separam, cortam nossos testículos e a partir daí a vida tem outro rumo. Estes estão destinados ao abate e dali em diante é só comer, comer, engordar, engordar e Zap! Lá vem o sacrifício da raça. Somos fatiados e depois vendidos por estranhos nomes: picanha, coxão mole, contrafilé, acém, alcatra, costela de ripa, e tantos outros nomes.

— Tem razão, muitos coleguinhas meus já estão no outro pasto e engordam a olhos vistos. Eles comem muito. Ficam viciados em todo tipo de comida. Acho que é porque tiraram um pedaço do corpo deles, na região da virilha.

— Este pedaço que foi tirado é o que eu chamei de testículos. Isso é o que dá um sabor maior para a vida. Sem ele o macho perde todo o interesse pelas fêmeas e perde também a alegria pela vida. Daí, sem eles, é só comer e engordar.

— Que horror! Tonho, tenho medo que ocorra isso também comigo.

— Fique descansado, não ocorrerá com você. Se não cortaram até hoje é bem possível que não cortarão. Você foi escolhido para ser um reprodutor. Como eu.

— Reprodutor é o que se chama? É por isso que as fêmeas se aproximam de mim e ficam se esfregando em determinados dias do mês?

— Isso mesmo, garoto! Elas tem datas de período fértil e nesses dias a situação fica mais fácil para nós. Mas podemos praticar também em outros dias, na maioria dos casos.

— Que bom conversar contigo, Tonho, você é experiente e sabe das coisas. Já tenho tido algumas experiências desse tipo com algumas delas e achei muito bom.

— Para nós é muito bom. Um rebanho todo só nosso. Não temos muita competição.

— Tonho, à propósito, vamos fazer uma experiência? Vamos sair agora, nós dois, correr atrás daquelas vacas que estão lá embaixo e pegar o maior número possível delas? Acho que podemos bater um recorde.

— Calma Téo, a coisa não é assim! Se fizermos isso elas vão se assustar, haveria uma correria, e nós pegaríamos apenas umas duas ou três, quando muito. O melhor é sair de mansinho, pegar uma por vez, sem fazer alarde e até o final do dia teremos pegado todas.

— Aí Tonho, isso é que é experiência… Tenho muito a aprender contigo, meu velho!

A partir desse momento eu sai de mansinho de perto daqueles dois bois e segui meu passeio pelos arredores da Grande Fortaleza. Pensava comigo mesmo. “Como é interessante a natureza humana, digo, bovina!”.

Até aqui é a narrativa do ilustre colega que visitou Fortaleza e está de volta à Grande São Paulo.

Você também pode gostar de: