Meu herói

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Acordei em meio a um sonho estranho. Nele me sentia atormentado por imagens tenebrosas que me enchiam de medo e pavor. Ainda bem que acordara. Ufa! Sinto calafrios só de pensar nas cenas dantescas vindas à memória.

         Mas algo estava errado. Tentei me virar e não consegui. Tentei abrir os olhos e não pude. Os braços, as pernas e todo meu corpo estavam paralisados. O que se passava? Será que ainda estava dormindo e vivendo dentro de um pesadelo?

Em outras situações quando em sono profundo, sonhava me sentindo preso, não conseguindo correr ou fugir das situações que me afligiam. Mas, eram sonhos e logo passavam, acordando quase sempre banhado de suor e com medo. Agora é diferente, me sinto acordado e meus pensamentos estão em ordem. Só o corpo não obedece aos meus comandos. Parece-me que nesta última noite algo aconteceu comigo, me colocando nesta situação. Mas, o que foi?

         Estou deitado numa espécie de cama ou mesa fria. Parece que só meu cérebro está funcionando. Nesse momento escuto vozes e sinto que alguém se aproxima de onde estou. Grito “Socorro!”, mas a voz não sai de minha garganta. Só consigo ouvir e pensar. Será que a morte é assim? Estou apavorado!

         — Qual é o corpo? — Uma voz masculina procura por algo.

— Me disseram que é esse aí. — A resposta vem de uma voz feminina.

Escuto seus passos se aproximarem de mim. Grito mais alto por socorro e nada. Estou frito!

— Ah! Realmente este parece ser o que procuramos. — Ele diz. — Levante um pouco o lençol que cobre o corpo dele, para confirmar.

Sinto que levantam um pano frio que me cobre. Depois de confirmarem, me cobrem novamente com o lençol. Noto que trazem apetrechos e começam a fazer uma espécie de arrumação ao meu lado. Escuto um diálogo de duas pessoas que se acham sós num ambiente fechado.

— Como você se chama e o que faz da vida?

— Me chamo Sonia, cumpro algumas horas de aulas faltantes para terminar meu curso de medicina. Quero abrir uma clínica estética. Fui indicada para acompanhá-lo nesta dissecação. E o senhor?

Ao ouvir a palavra dissecação, senti um calafrio, pensei em gritar, mas já sabia que não adiantaria.

— Dou aulas práticas de medicina legal. Depois de me aposentar na Receita Federal e sendo ainda relativamente jovem, fiz um curso de medicina à distância e como vê curto demais estas novas funções aqui no IML. Chamo-me Dr. Anísio, mas pode me chamar somente de Anísio. Mas, Sonia, posso lhe chamar de Soninha?

— Claro Dr. Anísio, digo, Anísio. Fica melhor assim sem os títulos.

— Sempre fui de ir direto ao ponto e um encurtador do distanciamento social. Mas, vamos trabalhar. Pegue aquela maleta de ferramentas e me traga a serra elétrica e os bisturis.

Esse diálogo aumentou ainda mais meu terror e gritava desesperado, mesmo sabendo que ninguém estava ouvindo.

— Vamos começar fazendo um corte, daqui perto da garganta e indo direto até o púbis dele. Vamos tirar coração, pulmões, fígado, rins, estômago e tudo que for útil.

Ele dizia isso e com o dedo fazia um risco por cima do lençol indo do pescoço até minha virilha. Isso me deixava cada vez mais apavorado.

— E a cabeça? Não vamos abrir? — Sonia pergunta.

— Sim, sem dúvida. Vamos abrir aqui acima das duas orelhas com a serra. No final ficará parecendo um vaso de jardim. O cérebro dele deve estar em bom estado.

Nossa! Estou frito! Pensei… Desse ponto em diante, eu passei a escutar a conversa como uma espécie de injeção de anestesia que agia sobre meu corpo, causando um torpor mental. Tudo indicava que iria morrer de verdade. A conversa entre os dois caminhava para outros temas.

— Sabe Soninha, notei que você tem pernas lindas com pelinhos descorados tal qual uma penugem e seios iguais aos da Sophia Loren quando ela era artista de cinema.

— Para com isso, Anísio. Sou de família e isso não fica bem, fico morrendo de vergonha. Mas, noto que você ainda é um gato. Sabia? Mas, vamos ao trabalho.

— Não temos pressa, ele não vai fugir. Dê uma olhada nas pernas dele e veja em que situação elas estão. 

— As pernas estão em bom estado, sem marcas de varizes, um pouco peluda, e ele tem uma plaquinha no tornozelo direito onde alguém gravou algo.

— Interessante! O que está escrito? Dá para ler?

— Está um pouco apagado, mas parece ser “Ênio P”. 

— Pode ser o nome dele ou do namorado, hoje não se sabe mais quem é quem. Mas, Soninha, voltando ao nosso assunto. Você é uma coisinha toda especial, um tesãozinho de garota. Se não fosse muito mais velho que você, com certeza, partiria para cima. E olha que sempre fui bom nisso.

— Que velho nada, você ainda me parece um garanhão e acho ainda ter muita lenha para queimar.

— Soninha, Soninha, não fale assim. Eu não sou de ferro! Neste local isolado do mundo, e só nós dois, é o lugar ideal para uma série de experiências entre um homem e uma mulher. Você não acha?

— Para com isso Anísio. Estamos em serviço. Se continuar a falar assim, eu acabo me derretendo toda e aí não respondo por mim. Você ainda não me conhece.

— Mas o que houve? Algo mexeu aí embaixo? — Perguntou o Dr. Anísio.

— Não sei, mas parece que o lençol se levantou…  O que será?

— Veja Anísio! — Sonia levanta o lençol e mostra o episódio.

— Nossa! Ele teve uma ereção. — Diz o médico.

Desse momento em diante, minha vida toma um novo rumo. Tanto o doutor como a estagiária em medicina se tornaram testemunhas de um insólito caso médico, de quase morte, onde a vítima felizmente tinha sido salva. Colocaram-me novamente de pé usando de todos os recursos conhecidos pela medicina.

De mim para comigo mesmo, agradeci a este meu parceiro de longas jornadas. Eu e meu velho pênis estivemos juntos em tantas situações. Em muitas comemoramos vitórias e noutras tantas falhamos. Estamos juntos desde o berço e ele sempre foi meu melhor amigo. Tivemos tantas tretas. Ultimamente ele deu de falhar nos momentos em que mais precisei dele. Eu até já tinha considerado ele como fora de cena. Mas, não, como sempre nos melhores momentos ele não deixou de me dar alegrias.

Bem-vindo de volta à vida, meu herói.

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