PEQUENOS E INSPIRADOS CONTOS

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Palavras, palavras, palavras…

Sou uma pessoa que se encanta com as palavras. E por considerá-las tão belas e surpreendentes… e desafiadoras e insolentes… e importantes e extravagantes… Por achá-las múltiplas, infinitas, enfim estou sempre a procurá-las, a encontrá-las e a deixá-las partir…

Meus textos costumam ser longos, me demoro a apresentar o assunto, gosto de preâmbulos, de introduções, explicações, assim como estou fazendo agora.

Digo tudo isto para introduzi-los a um conceito de texto, ainda não considerado um gênero literário, mas que está tomando fôlego recentemente, provavelmente devido à vida agitada e corrida de hoje, a um apelo frequente à rapidez de comunicação, à síntese e ao imediatismo das mídias sociais. Trata-se de textos diminutos conhecidos como minicontos e microcontos.

Ouvindo recentemente um podcast do escritor João Anzanello Carrascoza, seu entrevistador quis saber qual a sua definição para estes tipos de textos; a comparação com os romances e contos; e se haveria alguma regra que definisse um critério para serem escritos.

Carrascoza deu uma definição que achei genial. Usando de uma analogia, disse que se considerarmos que os romances são rios de histórias, um conto é um riacho (de 3 a 10 páginas, cerca de 30.000 caracteres); um miniconto é uma nascente (1 a 2 páginas, aproximadamente 2.000 caracteres) e um microconto é um fio d’água (1 a 3 linhas, de 100 a 150 caracteres).

Não se enganem pensando que este é um gênero novo. No século XVI, surgiu no Japão um tipo de poesia simples, objetiva, utilizando-se de poucas palavras – o HAIKAI – baseado na filosofia budista, onde a simplicidade reina. Esta arte procura expressar os sentimentos do seu autor com um número pequeno de palavras, que no alfabeto japonês torna-se muito mais interessante, por serem escritas na vertical. Aqui vai um exemplo de um Haikai traduzido:

“Ia eu às cerejeiras em flor,

Dormia em baixo delas

Era esse o meu passatempo.”

YOSA BUSON

Fui pesquisar outros exemplos de microcontos e encontrei grandes nomes da literatura mundial que já se aventuraram nessa seara. Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, e até Ernest Hemingway, que reproduzo abaixo:

‘Vende-se sapatinhos de bebês nunca usados.”

Considerado o pioneiro no Brasil DALTON TREVISAN com o livro:”Ah, é?” de 1994, escreveu:

“A velha insônia tossiu três da manhã”

Conheçam esses outros:

“Uma gaiola saiu à procura de um pássaro”

FRANS KAFKA

“Fui me confessar ao mar. O que ele disse? Nada.”

LYGIA FAGUNDES TELES

“ Eu perguntei. Eles responderam. Eu escrevi.

SEBASTIAN JUNGER

“Stop.

A vida parou ou foi o automóvel?”

CARLOS DRUMOND DE ANDRADE

Considero um miniconto esta obra prima de Manuel Bandeira:

“Andorinha lá fora está dizendo:

– Passei o dia à toa, à toa.

Andorinha, andorinha, minha canção é mais triste:

– Passei a vida á toa, à toa.

João Carrascoza ressalta que um microtexto precisa ter concisão, é necessário escolher muito bem as palavras de modo que o leitor possa subentender, usar um título significante e abusar dos ‘não ditos’.

Bom, como concisão não é meu forte só posso dividir essas experiências com vocês e aplaudir e reverenciar esses gênios da literatura!

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