A música e a literatura

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Há versos que de tão perfeitos soam como música aos nossos ouvidos!

Há músicas que de tão lindas merecem letras inspiradas para completá-las na perfeição!

Poesia e música são artes distintas, mas a convergência entre elas torna-se uma constante no universo artístico, de tal forma que essa linha que as separa muitas vezes parece deixar de existir.

O professor da Faculdade Cásper Libero, Wellington Andrade comenta: “por definição a literatura trabalha com a musicalidade da palavra. As duas artes (música e literatura) são muito próximas desde o nascimento”. Mas ressalva: ”No caso de Bob Dylan, (prêmio Nobel de música em 2016), e outros grandes músicos como Chico Buarque e Caetano Veloso são duas coisas diferentes: uma é a letra que tem independência própria e autonomia e outra é a música que dá suporte àquela letra e amplifica-a”. (…) A literatura não trabalha com a musicalidade, ela vê a música como uma segunda arte para ela.”

Polêmicas à parte, quero lembrá-los de algumas poesias que foram musicadas aqui no Brasil e que muita gente nem faz ideia que se tratam da pura e boa literatura.

Como não lembrar de Renato Russo e o Legião Urbana em uma de suas músicas mais famosas: Monte Castelo. Nela, além de citar uma passagem bíblica:

 “Ainda que falasse a língua dos homens e falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria”,

Encontramos também a apropriação dos versos de Camões – em seu soneto mais conhecido:

 O amor é fogo que arde sem se ver. É ferida que dói e não se sente.

 Os versos de Camões são intercalados com a passagem bíblica Coríntios 13, formando uma improvável harmonia.

Um dos cantores e compositores que mais beberam da fonte dos poetas foi Fagner. Dentre outros poemas, o mais foi executado nas rádios e emissoras na época foi o lindíssimo poema da poetisa portuguesa Florbela Espanca: Fanatismo.

Na música homônima de Fagner, a poesia foi reproduzida integralmente:

“Minha alma de sonhar-te anda perdida,

Meus olhos andam cegos de te ver,

Não és sequer a razão do meu viver,

Pois que tu és já toda minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida…

Passo no mundo, meu amor, a ler

No misterioso livro do teu ser,

A mesma história tantas vezes lida!

Tudo no mundo é frágil, tudo passa…

Quando me dizem isto, toda a graça

Duma boca divina fala em mim!

E olhos postos em ti, digo de rastros;

Ah! Podem voar mundos, morrer astros,

Que tu és como um Deus: Princípio e Fim!…

Na final da canção Fagner consegue harmonizar o poema com uns versos de Roberto Carlos.

Milton Nascimento, outro monstro da música brasileira musicou os versos de Carlos Drumond de Andrade, e cantou Canção amiga:

Caminho pela rua

Que passa em muitos países

Se não me veem, eu vejo,

E saúdo velhos amigos

Nosso poeta contemporâneo maior, Vinicius de Moraes, dentre outros lindos poemas que serviram de inspiração aos compositores, escreveu Rosa de Hiroshima. Esse poema escrito em 1946, portanto logo após os ataques americanos às cidades japonesas, ganhou melodia e repercussão popular na década de 70, na voz afinadíssima de Ney Matogrosso:

Pensem nas crianças mudas telepáticas,

Pensem nas meninas cegas, inexatas,

Pensem nas mulheres rotas alteradas,

Pensem nas feridas como rosas cálidas

Mas oh não se esqueçam da rosa da rosa

Da rosa de Hiroshima a rosa hereditária

A rosa radioativa estúpida e inválida

A rosa com cirrose a antirrosa atômica

Sem cor sem perfume, sem rosa sem nada.

Muitos compositores atuais seguiram os mesmos caminhos dos descritos acima, Chico Buarque com Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto (Funeral de um lavrador); Cazuza, usando a voz de Clarice Lispector para compor Que Deus o venha, interpretado por Cassia Eller; Adriana Calcanhoto com sua Madeiras do Oriente em parceria com Waly Salomão; e obviamente muitos outros que me escaparam ou simplesmente desconheço. Vale uma pesquisa mais aprofundada para quem se interessa pelo tema.

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