A Mudança

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A Mudança

         Cristiano K. teve sonhos confusos naquela noite. Parecia pesadelos. Suava frio diante das cenas dantescas surgidas na tela de sua mente. Suas pernas pareciam estar presas por amarras invisíveis, não permitindo sua fuga de tão medonhas imagens que surgiam a todo momento diante de si. Um grito preso na garganta ressoava dentro do cérebro aumentando em muito a agonia que parecia não ter fim. Os braços paralisados não aceitavam os comandos vindos do fundo da consciência preservando seus instintos, mais básicos. Sentia estar morrendo, tamanho era o medo presenciado.

         Afinal, a noite chegava ao fim. Amanhecia. O sol irradiando os raios da alvorada riscavam o céu claro e a vida voltava novamente a palpitar em toda a natureza. Com muito custo, ele tinha consciência de que os olhos se abriam e tudo indicava estar liberto dos momentos noturnos de angústia e terror. Sentia estar voltando duma macabra viagem que de maneira estranha o tinha envolvido. Ficara livre daquela monstruosa realidade.

         Mal tomara conhecimento de estar acordado, sentia ainda que algo não estava do jeito que deveria estar. Notou as pernas duras e sem poder movimentá-las normalmente. Dentro do corpo algo tinha acontecido. Ouvia de lá de dentro a circulação de toda a corrente sanguínea, como se estivesse perto de uma fonte onde pudesse ouvir claramente o líquido escorrer com rapidez dentro de si mesmo. Aquilo o surpreendia. Era algo agradável e interessante, apesar de tudo. Parecia estar ouvindo esguichos de água indo e vindo de todo lado, tal qual se ouve quando se faz uma ressonância magnética. Era um constante chuá, chuá, chuá… Tudo isso dentro de si mesmo.

         Os braços como que num passe de mágica pareciam terem se multiplicado e mesmo sem sua vontade estavam todos levantados e se dirigindo ao espaço, em busca da luz solar. Também neles sentia o intenso jorrar de algo correndo através deles e fazendo o mesmo barulho —chuá, chuá.

         Seus pés eram outros que se comportavam de maneira estranha. Percebia terem eles se prolongado para baixo e, por incrível que pareça, tinham entrado dentro da terra. Sentia estarem caminhando para profundezas escuras e cada vez mais úmidas dentro da terra. Esses filamentos que se estendiam além dos pés, passavam a absorver água e algo não conhecido, — talvez nutrientes, pois se sentia alimentado. Este procedimento de sucção subterrânea, parecia ser a principal atividade em seu corpo. Confirmou, depois de alguns minutos, que o líquido absorvido da terra era o mesmo que passara a correr dentro de si mesmo fazendo aquele barulhinho estranho.

         Cristiano K. pensou em gritar, chamando por socorro. A voz, porém, não saia de dentro de si mesmo. Ela permanecia ecoando em seu interior.

         O que também chamou sua atenção foi que a visão tinha se ampliado. Seus olhos agora pareciam estar em todos os lugares de seu corpo. No alto, nos lados e lá debaixo da terra. Podia ver o mundo numa perspectiva de 360 graus, em três dimensões. Era algo fabuloso e notável para ele, até então. Não se cansava de ver tudo o que se passava ao seu redor. Notou que os passarinhos vinham sentar nos seus braços e por incrível que possa parecer, eles sentiam como se estivessem em sua própria casa.

         Seus ouvidos tinham se ampliados em muito. Podia agora ouvir muito mais coisas do que ouvia até então. Qualquer ruído, mesmo uma suave brisa, eram percebidos agora por ele.

         Tudo isso o deixava confuso e ao mesmo tempo dava uma sensação esquisita de tranquilidade e de satisfação. Tinha uma nova vida, bem diferente da anterior, com os órgãos dos sentidos sendo ampliados e agora captando tudo o que se passava ao derredor de si.

         A luz do sol era absorvida de um modo estranho. Sentia dentro de si algo em ebulição. A água absorvida da terra conjugada com a energia solar, ocasionava uma espécie de transformação química, fazendo brotarem de seus poros na pele, o nascimento de folhas verdes e cheias de vida. Seu corpo era um verdadeiro laboratório. Algo muito estranho!

         Olhava ao redor de si mesmo e via outros como ele. Com o passar dos minutos começou a receber mensagens vindas de não sabe onde, e notou se dirigirem a ele. Com o passar do tempo, aprendeu a entender tais comunicações e a transmitir respostas, fazendo assim longas e produtivas conversas entre seus pares.

         Sua mente tinha apagado as informações antigas. Agora não se lembrava do passado.

         Um dos parceiros vivendo ao seu lado, dissera certo dia que eles faziam parte da família dos eucaliptos.

Há uma quinta dimensão além daquelas conhecidas pelo Homem. É uma dimensão tão vasta quanto o espaço e tão desprovida de tempo quanto o infinito. É o espaço intermediário entre a luz e a sombra, entre a ciência e a superstição; e se encontra entre o abismo dos temores do Homem e o cume dos seus conhecimentos. É a dimensão da fantasia. Uma região Além da Imaginação.

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