Uma anedota ou uma reflexão, você escolhe…

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Diz-se que, quando Deus criava o mundo, Ele era auxiliado pelos arcanjos. Logo após a criação do Brasil, um deles, incomodado com a benevolência de Deus com as terras guaranis, protestou:

[Vejo que o Senhor criou um lindo país, clima tropical, lindas florestas, praias exuberantes, riquezas minerais, quem morar aqui nem vai precisar trabalhar. Ao que Deus o repreendeu:

―Você não conhece todos os mistérios e nem os meus designíos, mas esperes e verás o povo que eu criarei para habitar neste país.

Quem  contou o relato acima jura que aconteceu assim mesmo. Eu não sei por que não vi, mas, cada vez mais, tenho a impressão de que não há nada mais “verdadeiro”, principalmente agora que a internet nos dá a oportunidade de expressar o que pensamos.

Onde vivo agora, estamos sofrendo um calor quase   insuportável. Há vários dias, a temperatura está perto dos 40ºC e nada de chuvas. Alguns incomodados, obviamente, estão reclamando. Então, alguém resolveu escrever um post afirmando que o vírus do COVID-19 não suporta temperaturas acima de 36 ºC (?) e que esse calor temporão é a forma como Deus está agindo para nos livrar da pandemia. No final, o texto nos exorta para deixarmos as lamentações e agradecer a Deus pelo livramento.

Como somos abençoados! Eu já tinha ouvido dizer que Deus era brasileiro, mas não sabia que Ele havia nascido logo aqui na minha nova cidade.

O brasileiro tem essa perspectiva interessante de avaliar o todo pela parte  ou pelo seu entorno. Não importa se o fogo já queimou 20% do Pantanal, ou se 13 milhões de brasileiros não encontram trabalho, se a miséria só aumenta e se a desigualdade social do país está produzindo mais injustiça e mais violência.  Posso aumentar a lista com mais tragédias do nosso cotidiano, mas paro aqui. Afinal, ainda dá para dirigir um carro conversível no Leblon com duas garotas no carona, ou discutir futebol com os amigos.

Há algum tempo tenho pensando sobre essa nossa visão quase sempre positivista sobre a vida, mas percebo que não é novidade. Quando alguém pergunta como estamos, a resposta invariavelmente é: “Está tudo bem!”

Uma outra tendência, essa mais recente, são as inúmeras palestras de filósofos famosos e titulados, que são contratados por grandes empresas ou institutos para falarem à liderança empresarial e à classe média do Brasil. As técnicas de comunicação são parecidas. Eles nos fazem rir pela ironia fina e pelo sarcasmo, chamam atenção para a hipocrisia que permeia a nossa sociedade, mas, no final, apresentam uma mensagem triunfalista amplificada pela esperança: “as coisas estão melhorando”.

Como gostamos de mensagens otimistas! Percebo essas palestras como o contraponto das pregações dos pastores televisivos para os mais pobres e humildes. Nada contra… cada um com o seu estilo e com a sua forma de abordar as causas dos problemas, mas a “promessa” no final é a mesma: “tenham esperança, as coisas estão melhorando.” O nosso ânimo é então renovado!

Mas a minha questão é: melhor para quem? Para a minha família, para os meus amigos, ou para as pessoas que eu conheço? Se está melhorando para o meu grupo, para o meu entorno, significa então que tudo está bem?

Não tenho formação em sociologia ou antropologia, mas a minha experiência lidando com várias culturas diferentes me indica que, talvez, não haja um povo que mais se utiliza da utopia do positivismo, chamado de síndrome de Poliana¹, do que nós, brasileiros.

Portanto, vamos suportando o calor até que Deus ou uma vacina acabe com a COVID-19,  vamos eleger os novos prefeitos e vereadores que, seguramente, irão cuidar bem da nossa cidade; continuaremos morando em nossos condomínios caros e seguros e dirigindo nossos carros potentes que, com um bom GPS, nos livrarão de passar em lugares perigosos.

Afinal de contas, Deus é brasileiro e está cuidando de mim, ops… de nós!

Referência: 1) https://golittleton.com/eleanor_porter.php

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