Problemas na Arca de Noé.

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Foi achado alguns rolos de papiro numa escavação feita na região à leste da Turquia, perto do Monte Ararat. Depois de decifrado foi encontrado um interessante relato…

…Vários dias já haviam passado desde que o Senhor tinha feito cair chuva sobre toda a terra. Noé, no principio, não tivera problemas com seus passageiros e a tripulação. Todos tinham consciência de que lá fora a tormenta era terrível, e todos viam os raios que riscavam o céu. Muitos se assustavam com toda aquela quantidade de trovões a reboarem pelo espaço. Estar num lugar quente e seco, com água e comida suficiente para satisfazerem as necessidades do corpo, já era uma grande vantagem. O negócio era ficar quietinho e esperar o fim do aguaceiro. Essa era a rotina diária daqueles estranhos passageiros e de sua pequena tripulação.

Alguns passageiros ainda não tinham entendido como uma força estranha agia entre eles e essa força tinha mudado em muito o comportamento instintivo de cada um. Algo estranho estava acontecendo e muitos deles já estavam incomodados com isso.

Para alguns, seu mais cruel inimigo estava ali ao lado e nada fazia para atacá-lo. Em determinados momentos utilizavam o mesmo local para fazerem suas refeições. Estranho como isso tinha acontecido. Mesmo assim, a grande maioria estava gostando da viagem. Só estavam preocupados sobre o que poderia ocorrer em seguida, já que quase todos nunca tinham viajado por tanto tempo e as suas vidas sempre tiveram lugar no local onde viviam. Até hoje, nasciam, procriavam na época certa, caçavam a comida, eram caçados pelos inimigos e morriam. Agora estavam num local estranho, muito perto de suas caças e junto de seus piores inimigos ou caçadores.

O comandante da embarcação tinha uma atitude séria ao tratar com cada passageiro. Zelava cada passageiro com uma dedicação onde se notava bondade e compaixão. Tudo isso tornava aquela situação ainda mais complicada e inusitada. Ele em determinados momentos precisava intervir a favor de um, para impor certa ordem, em detrimento de outros que tinham como objetivos ampliar seus espaços naquela estranha viagem.

Primeira Briga

Noé tinha dividido as tarefas de acompanhamento da grande quantidade de passageiros entre seus três filhos, Sem, Cam e Jafé.

Sem, o mais velho, tinha ficado incumbido do trato e monitoramento dos animais instalados no primeiro pavimento da embarcação. Os outros dois irmãos ficariam cada um nos pavimentos restantes abaixo.

Após uns 60 dias de entrada na arca, o dilúvio continuava ainda longe de terminar. Sem, o filho mais velho de Noé, começara a notar algum tumulto no andar que estava sob sua responsabilidade. Sua esposa também já tinha notado e comentado com ele por diversas vezes.

Ultimamente, o assunto vinha crescendo dia a dia e ele procurou o pai, para esclarecer como fazer e como terminar com os problemas que estavam ocorrendo. Noé era o único que tinha falado com Deus e isso ocorrera ainda antes de acontecer a tremenda borrasca que inundara toda a vida na terra. Ultimamente Deus tinha se ausentado e Noé tinha assumido, tanto as funções de condutor-comandante da Arca, como juiz na solução de problemas que surgiam no dia a dia.

Sem, o filho mais velho, foi até a cabine de comando e chegando junto ao pai, relata em poucas palavras:

— Pai, temos um problema!

— Diz Sem qual é o caso desta vez? Noé com o passar dos dias naquela embarcação, transportando uma carga viva e tremendamente diferente entre si, já começava a sentir os efeitos desta estranha convivência.

— Pai, o assunto de hoje é sobre os bodes. Os outros animais que estão por lá tem reclamado muito deles. Eles se recusam a tomar o banho diário, desde o inicio da viagem. O mau cheiro cresce dia após dia e está se tornando insuportável.

— Sabe pai — continua Sem — os sete cavalos e suas fêmeas, colocados perto dos bodes reclamam insistentemente tanto para minha esposa como para mim que estou a todo o momento transitando por lá. Os cavalos dizem que não aguentam mais esta situação. Com muito custo, eu tenho conseguido contornar a situação, mas quando convenço um animal, vêm outros com as mesmas reclamações. Já conversei com os bodes e tentei convencer a tomarem pelo menos um banho por semana, mas nem isso eles concordam. A coisa está ficando feia e com muito mau cheiro.

— Continuando, meu pai, eu trouxe para falar contigo, o líder deles um bode velho barbudo, o mais audacioso deles e que quer de qualquer jeito falar com o chefe, para resolver umas pendências que ele diz possuir. Seu nome é Inácio.

— Mas meu filho, porque você o trouxe aqui? Não dava para você atender ele lá mesmo no seu pavimento? — Noé dizia isto ao filho, pois já tivera notícias de que Inácio estava causando transtornos na viagem. Tinha já ouvido gatos e lagartos sobre o tal bode Inácio. — Mas, tudo bem, vá lá, peça para ele entrar e você fique sentado perto de mim, para me defender se for preciso.

A lógica do bode Inácio

         Sem, agindo com toda a cautela possível, fez com que o bode Inácio adentrasse no gabinete do pai. Notou, de relance, que também o pai assimilou a catinga que exalava daquele inimigo de banhos e é claro também dos perfumes.

Inácio, contrariando todas as normas de etiqueta, entrou no pequeno gabinete de Noé, já reclamando em altas vozes.

— Senhor Noé, sei que o senhor é o responsável por tudo isso que está acontecendo neste barco enorme. Foi o senhor que construiu e após ficar pronto, não sei por que, andou por aí pegando todo tipo de animal da floresta e os trazendo para cá. No começo, fiquei com medo, achei que ia morrer. Mas, não, o senhor não matou nenhum dos animais. Justo em seguida, após colocar todos aqui dentro, começou uma chuva que parece não ter mais fim. Fiquei com medo outra vez… O barco que estava em terra seca, começou a flutuar e já faz vários dias que noto estarmos navegando para um lugar desconhecido. Achei muito estranho e já comentei isso lá com minha gente, no primeiro andar deste navio.

— Senhor Noé, — ele continuava — o que parecia causar medo, aos poucos vai dando a nós uma sensação de alegria, pois achamos que algo de bom está acontecendo com todos. Temos comida na hora certa, temos água limpa e boa cama. Tenho notado que até aqueles que caçavam os bodes na floresta, estão de nosso lado e não nos atacam. No começo fiquei desconfiado, mas agora já me acostumei. Tenho falado com seu filho sobre alguns assuntos e agora quero expor ao senhor duas questões que me estão incomodando muito.

— A primeira diz respeito a essa ordem que existe para se tomar banho todo dia. Tenha dó, Senhor Noé, nunca tomei banho em minha vida e não é agora que vou começar a praticar este vicio tão pernicioso. Venho aqui pessoalmente dizer, que não irei tomar banho e fim de conversa! Se houver incomodados, eles são convidados a se mudar para longe de mim.

— A segunda reclamação é sobre minha esposa, ou, melhor dizendo, sobre minhas esposas. Sabe, senhor Noé, nós os bodes não concordamos com essa história de colocar aqui neste navio; sete bodes e sete cabras. Isso não está certo! Nós não vivemos somente com uma fêmea. Acho que seria mais correto ter colocado eu e mais sete cabras, e não sete bodes.

— Sempre vivi cercado por várias fêmeas, senhor Noé, e nunca houve reclamações, tanto por parte delas como de minha parte. Isso que o senhor fez, complicou em muito nossa vida. Nestas ultimas semanas briguei com quase todos os outros seis bodes que estão lá. Eles não deixam que eu me aproxime das cabras e eu, logicamente, não quero que nenhum chegue perto de minhas cabras.  Está criada a maior confusão…

— Por favor, senhor Noé, se não conseguir resolver este problema de nós, os bodes, peço que encaminhe Àquele Simpático Senhor que esteve contigo quando estava construindo esta embarcação.

— Acho que tenho meus direitos e peço sua intercessão. Eu, Luiz Inácio, agradeço e fico esperando uma solução. Muito obrigado!

Disse isso, e saiu sem esperar que Noé pudesse dar uma resposta, por mais evasiva que fosse. Inácio voltou correndo para sua cabra, pois não queria que nenhum dos outros bodes desse de cima dela.

Noé coçou a cabeça, e foi tratar dum outro caso em outro local. Não via a hora em que acabasse esta história de dilúvio. Prometeu a si mesmo que iria comentar estes problemas com o Criador, tão logo o encontrasse.

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