Pai ancora (idos de 1994)

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Oito horas menos 10 minutos. Daqui a pouco os portões da escola serão fechados e ninguém mais poderá entrar.

Há um certo rigor nesse ritual. São muitos os candidatos e se afrouxar, haverá gente entrando até perto do meio dia.

Faltam 10 minutos.

Pai zeloso, ele acompanha o filho no caminho até a porta do colégio onde este fará seu vestibulinho. Esse é o nome dado à prova de acesso (classificatória e eliminatória) a uma escola técnica federal de são Paulo.

Sim, faz tempo que isso aconteceu. Nem sei se ainda há boas escolas técnicas em São Paulo e no resto do país.

Mas não é isso que importa. Importa é saber que faltam apenas 10 minutos para que os portões se fechem e ainda estão, filho e pai, longe deles.

Maldito erro de estação de metrô. Havia uma estação mais próxima do colégio mas ele, pai zeloso, não se dera conta disso.

Agora os dois, filho e pai, correm por uma rua tentando alcançar os tais portões antes das oito horas.

Um pai zeloso, nessa hora, pensa em muita coisa. Pensa no filho perdendo a prova para a qual tanto se preparou, pensa no seu erro, amaldiçoa a própria desatenção, devolve o título de zeloso e continua correndo, junto ao filho.

Repara que o filho, pequeno que é, desacelera a marcha para que o pai não fique muito para trás.

É um filho também zeloso. Na verdade não se dá conta de que desacelerando homenageia seu pai mas perde a prova.

O pai o alerta: “Filho, corre você. Eu vou indo atrás.”

O pequeno desembesta a correr, quase some de vista, até virar a última curva, onde fica a escola.

O pai também chega, afinal, ofegante ao portão da escola. Já fechado, é claro. Do outro lado do portão, sorridente, o filho zeloso olha pela grade e agora, satisfeito, sobe as escadas que o levam à prova. Missão cumprida. Seu pai havia chegado.

O pai, zeloso, mal refeito da estafante corrida, para e pensa. Tantas vezes foi pai muleta, pai bússola, pai estrela guia, até que hoje, se transformara em pai âncora. Tantas vezes ajudou o filho, deu-lhe a mão, auxiliou seu voo mundo afora e logo agora, que o filho ousava voar, sentia que o aprisionava.

Sentiu-se bem com a descoberta, mas inseguro. Quantas outras vezes havia de ter sido âncora e não mais trampolim?

A vida é assim mesmo, sem manual de sobrevivência. Ser zeloso talvez já tenha sido bom, apesar de tantos erros cometidos.

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