Moleculas gigantes, os plásticos e as substâncias da vida.

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn

Cem anos atrás, em 1920, Hermann Staudinger apresentava ao mundo, em um artigo intitulado “Über Polymerisationen” (Sobre as Polimerizações), apresentando uma ideia audaciosa. Postulou que materiais como a borracha natural são formados por moléculas muito grandes, que ele chamou de macromoléculas. Ele era um químico orgânico que fez várias descobertas além das macromoléculas, e mostrou como moléculas pequenas se unem, formando longas cadeias de milhares de átomos. Pelas suas descobertas no campo da Química Macromolecular, Staudinger recebeu o Prêmio Nobel de Química de 1953.

Seguindo a melhor tradição da química orgânica da sua época, Staudinger  apoiou-se em abundantes provas experimentais, formulando e verificando hipóteses. Seu modelo experimental foi a borracha natural, uma substância que tinha e tem uma enorme importância prática, era pouco compreendida e continua sendo muito investigada. Ele também trabalhou muito sobre a celulose, e o seu livro “Os compostos orgânicos de alto peso molecular borracha e celulose” foi, durante muitos anos, a bíblia de muitos cientistas e engenheiros.

A borracha natural não forma cristais e muitos colegas de Staudinger achavam que, por isso, ela seria apenas uma mistura de substâncias mal conhecidas. O químico Wieland, que ganhou o Prêmio Nobel de 1927, disse a Staudinger: “Meu caro colega, abandone a ideia das moléculas muito grandes, elas não existem. Purifique seus produtos, como a borracha. Feito isso, eles irão cristalizar, provando que são formados por moléculas pequenas.”

Na sua autobiografia, Staudinger escreveu que muitos colegas seus não entendiam porque ele se interessava pelo que eles chamavam de “Schmierenchemie, ou Química da Graxa”, ao invés de continuar estudando moléculas pequenas, que se podia obter em elevado grau de pureza e examinar com grande rigor. Ao deixar um território que lhe era familiar e no qual ele já tinha tido bastante sucesso, demonstrou uma grande coragem intelectual, que nem sempre é um traço forte em muitos pesquisadores.

Entretanto, sua persistência e entusiasmo, somadas a uma grande capacidade de trabalho, atraíram cada vez mais apoios para suas ideias. Entre os anos 1920 e 40, elas foram aplicadas, com grande sucesso, na criação dos plásticos e borrachas sintéticas, hoje onipresentes no nosso dia a dia. Sempre mantendo proximidade com empresas que contribuíam financeiramente para o prosseguimento das suas pesquisas, Staudinger transformou seu departamento, na Universidade de Freiburg, em uma Meca das macromoléculas.

Os plásticos e borrachas sintéticas estão hoje presentes em quase tudo que fazemos. Estão sempre junto de nós, dentro de casa, em um supermercado ou qualquer tipo de comércio, hospital ou farmácia, nas ruas, fábricas e escritórios, campos esportivos, museus, cinemas e teatros, sítios e fazendas. Estão em toda a parte, porque contribuem para a segurança alimentar, para nossa saúde, conforto, segurança física e patrimonial, cultura e lazer.  

Entretanto, mesmo o que é muito bom pode criar problemas, e os plásticos são hoje uma fonte de preocupações para muitas pessoas, devido aos impactos ambientais causados pelo desleixo no seu descarte e, principalmente, pela ignorância de muitas pessoas que precisam deles. Restos de plásticos descartados irresponsavelmente provocam prejuízos econômicos. Por exemplo, um bezerro pode ter seu desenvolvimento prejudicado, se comer um pedaço de filme plástico junto com o capim do pasto, pois não consegue arrotar nem defecar normalmente. Fica com a barriga inchada, cheia de gases e sem ânimo para comer. Ruim para o bezerro, ruim para seu proprietário, ruim para consumidores de carne e leite. Da mesma forma, plásticos jogados nas ruas obstruem bueiros e dutos de águas pluviais, provocando inundações que destroem casas e carros, além de propagarem doenças graves. Plásticos também causam problemas nos oceanos, rios, mangues e em qualquer outro ambiente natural, prejudicando o desenvolvimento de muitos seres vivos. Esse problema tem hoje uma escala global, exemplificada pelas massas de plásticos que flutuam nos oceanos. Não por acaso, duas delas formam grandes manchas sobre o Pacífico Norte: uma, próximo ao Japão. Outra, próximo à Califórnia.

Os grandes benefícios dos plásticos e borrachas sintéticos, de um lado, e os problemas que eles criam, de outro, exigem uma de duas medidas: ou o seu uso é drasticamente reduzido, ou nos tornamos mais responsáveis, suprimindo o seu descarte inadequado. Afinal, qualquer resto de um plástico tem valor: ou pode ser reutilizado, ou reciclado, ou pode ser queimado para produzir energia, ou ainda transformado em matérias-primas para a indústria química. O que não podemos fazer é simplesmente abandonar ou descartar os plásticos usados, de forma irresponsável.

Como em muitos outros casos, temos de transformar o que poderia ser apenas lixo, em novas matérias-primas, que tenham valor e produzam novas cadeias econômicas. Essa é uma ideia básica da Economia Circular. Dentro dela, poderemos continuar tendo os grandes benefícios trazidos pelos plásticos, sem prejudicar a nós mesmos e ao ambiente em que nossos filhos e netos viverão. Os primeiros passos nessa direção já foram dados e um exemplo importante é o da “New Plastics Economy “. Trabalhando para isso, 60 grandes empresas norte-americanas, produtoras e consumidoras de plásticos, estão comprometidas com metas quantitativas, para 2021 e anos seguintes. Isso deve mudar radicalmente o cenário dos plásticos, até 2030.  

Além do seu grande impacto sobre a indústria e toda a vida humana, a proposta de Staudinger abriu o caminho para se entender como são construídas as moléculas de proteínas, de DNA, como a Natureza constrói os seres vivos, como estes passam por mutações. Muitos dos maiores nomes da pesquisa biológica, química e física construiram suas carreiras desenvolvendo e fazendo avançar os conceitos introduzidos por Staudinger.

Muito poucas ideias foram tão férteis, em toda a história da ciência. Mais que muitas teorias complicadas e quase estéreis, a proposta de Staudinger produziu frutos abundantes, produtos que fazem parte do nosso cotidiano. Ao mesmo tempo, foi a grande pista para entendermos como a Natureza usa seus átomos para nos construir, desde um minúsculo ovo, até os corpos adultos que renovam continuamente cada uma das maravilhosas estruturas formadoras dos nossos olhos, nervos, cérebro e qualquer outra parte de um ser humano. Hoje, um século depois, estamos descobrindo, a cada dia, novas e maravilhosas propriedades de macromoléculas, naturais ou sintéticas.

Para saber mais:

Uma biografia curta está em:

https://www.nobelprize.org/prizes/chemistry/1953/staudinger/lecture

A Conferência Nobel pode ser lida em

https://www.nobelprize.org/uploads/2018/06/staudinger-lecture.pdf

Sobre os plásticos flutuando nos oceanos:

https://www.nationalgeographic.org/encyclopedia/great-pacific-garbage-patch/

Sobre a Nova Economia dos Plásticos:

https://www.ellenmacarthurfoundation.org/our-work/activities/new-plastics-economy

Você também pode gostar de: