Mais grave! Mais agudo! Mais eco! Mais tudo.

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn

Semana passada, um ilustre músico brasileiro completaria 78 anos. Falecido em 1998, ele embalou diversas discotecas, festas e corações apaixonados. Foi embora precocemente, aos 55 anos.

Quem já ouviu falar, Tim Maia era mais um cantor piegas e aloprado que morreu cedo por causa das drogas. Mas olhando de perto, ele é um dos gênios da música brasileira. Era talentoso compositor, cantor, maestro, multi-instrumentista e arranjador. Seguiu um caminho paralelo à Bossa Nova que explodia à época. Ao invés de investir em acordes com um banquinho e um violão, investiu no ritmo, nos arranjos e no balanço, misturando black music raiz com ritmos brasileiros. E saiu uma obra prima.

Tim era pura intensidade. Na comida, no amor, nas drogas e nas atitudes. Nada era morno com ele. Vivia no limite quase sempre e fez de tudo: soul, pop, funk, disco, MPB, baião, baladas. Namorou, se separou, casou-se, adotou filho, teve filho, viajou, entrou em seita religiosa, foi careta, foi drogado, foi pobre, foi rico, foi pobre de novo, separou-se e desistiu. A visão pejorativa que tinha de si próprio foi determinante para a genialidade e morte precoce.

Nasceu na Tijuca-RJ e teve uma infância muito pobre. Morava num cortiço e era o caçula de 12 filhos. Entregava marmita na vizinhança e assim conheceu Erasmo Carlos e Jorge Ben, totalmente anônimos na época. Sua primeira banda chamava-se The Sputniks e tinha como um dos integrantes o rei Roberto Carlos, também totalmente desconhecido até então. Procuraram Carlos Imperial e começaram no programa de maior sucesso na época: Clube do Rock. Numa das apresentações, Roberto pediu à Carlos Imperial para se apresentar só, motivo este que deixou Tim Maia furioso e que o fez sair do grupo. Em 1959, após a morte do pai, Tim Maia foi aos Estados Unidos e lá ficou por 4 anos, vivendo a Soul Music que decolava à época. Foi se virando como pôde, inclusive cometendo pequenos roubos para “levantar” dinheiro. Foi deportado após ser preso fumando maconha dentro de um carro roubado.

Ao chegar ao Brasil, aquele primeiro parceiro, que, segundo o Tim, quase não tinha voz, explodia na Jovem Guarda, juntamente com Erasmo e Wanderléa. Jorge Ben se tornara o rei do Samba Rock. E Tim Maia, que se achava bem mais talentoso que todos esses, voltou exatamente como tinha saído, sem nada.

Procurou Roberto e Erasmo e passou a compor músicas para eles. “Não Vou Ficar” e “Não Quero Nem Saber” são algumas delas. Tim voltou dos EUA fazendo música diferente, na letra e no suingue, com muita influência da black music americana. Também começou a se apresentar em programas de rádio e na TV, emplacando a soul music no Brasil. Sua voz gutural, potente e sempre grave combinava perfeitamente com o ritmo americano. Quando ousava a compor música romântica, quase sempre era sucesso, muito embalado pelos encontros e desencontros com o seu grande amor: Geisa.

Apenas em 1970, Tim gravou seu primeiro álbum e fez muito sucesso. Muita intensidade o fez se separar de Geisa, o que o colocou em depressão. Os vícios em açúcar, álcool, maconha e cocaína, que já existiam, se tornaram ainda mais nocivos à saúde dele. Em 1974, Geisa reaparece, grávida e ele, mais que depressa, a acolhe e assume o filho como dele. Nasce Léo Maia.

Neste mesmo ano acontece um encontro que deu origem à dois dos melhores álbuns da música brasileira. Dele, seguramente são os dois melhores: Tim Maia entra para a seita Cultura Racional e muda completamente. Abandona os vícios e passa a escrever música para a seita. Emagreceu muito, sua voz melhorou pela suspensão das drogas e se entregou por inteiro para a música. Independente do conteúdo das canções, os álbuns Tim Maia Racional, Vol I e II trazem o melhor do soul music, do suingue e da maestria do Tim. É simplesmente fantástico. O curioso é que dois anos depois, Tim Maia descobre que o líder da seita era um charlatão, abandona a religião e retira todos os discos de circulação, se tornando raridade no mercado. Ah! E volta com os vícios. Certa vez disse: “Fiz uma dieta rigorosa. Cortei álcool, gorduras e açúcar. Em duas semanas perdi 14 dias”.

Sebastião Rodrigues Maia nasceu com muito talento, gênio, mas se via como uma pessoa preta, gorda e pobre; e isso norteou sua vida e sua carreira. Se achava injustiçado, não reconhecido como deveria. Usava sua soberba como defesa para amenizar a condição original.

Difícil desassociá-lo da intensidade que viveu. Da visão que tinha de si próprio. Sua obra é consequência de tudo isso. O verso que diz: “E na vida a gente tem que entender, que um nasce pra sofrer, enquanto o outro ri…” descreve exatamente o conflito que existia nele. Um ser que podia sorrir pois tinha tudo que queria, mas que viveu preso na imagem de sofredor.

Você também pode gostar de: