Marcenaria, de hobby a profissão

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Minha experiência com marcenaria teve início na década de 80.
Eu já beirava os 40 anos e nunca, nunca mesmo tinha passado além de pregar um prego (e o dedo muitas vezes).
Minhas primeiras ferramentas elétricas foram Parafusadeira, Serra tico-tico e Furadeira.
Manuais, como martelo, serrote, alicate, chaves de fenda e Philips, aos poucos ia colecionando.
Mas tudo só para pequenos reparos.
Por volta de 1996, entrando nos meus 50 anos, adquiri um imóvel onde instalei meu escritório de advogado.
Até então, sofrendo com aluguel de salas, vivia mudando de endereço.
A cada mudança, desmonta móvel, carrega móvel, monta de novo.
Várias vezes.
Já instalado em meu escritório próprio tomei como desafio construir mesas só com encaixes, sem uso de um único parafuso sequer.
Prego? Nem pensar.
E assim criei minhas duas primeiras obras. Duas mesas.
Verdade que acabei usando parafusos, mas só para a tábua deslizante do teclado do computador.
Daí para frente, tomei gosto.
Toda obra representa uma surpresa.
Certa vez contratamos uma empregada que dormiria em casa.
Ela precisava de uma cama e também de um pequeno guarda-roupas.
No nosso minúsculo quartinho de empregada (não sei como os engenheiros podem ser tão desumanos ao criarem esses cubículos), não caberiam ambas as peças.
Então tive a ideia de criar uma cama-guarda-roupas. O armário embaixo e a cama em cima.
Uma ideia e tanto.
Mas havia ainda um grande problema. Criar o móvel dentro do próprio quartinho era impossível.
E criar ele fora oferecia um pequeno problema. Não passava na porta do quartinho.
Assim, criei uma cama-guarda-roupas em duas peças. Coube tudo, inclusive a empregada.
A cada móvel que se constrói descobre-se novos erros, novos aprendizados, novas técnicas e, é claro, ferramentas mais precisas.
Quando comprei o teclado musical achei que deveria fazer o suporte e o banquinho.
Mas tinha que ser algo diferente. E assim nasceram os meus primeiros móveis com peças encaixadas, justapostas.
E assim fui construindo brinquedos, baús, caixas, estantes, prateleiras até chegar à minha maior e mais demorada obra.

A estante da sala.

Feita em compensado de mogno, com acabamento em mogno também, móvel de quatro módulos, sendo dois inferiores e dois superiores. Peso total: 300kg.
Esta estante e uma anterior que acaba de ser desmontada para dar lugar a uma nova me mostraram que melhor que construir os móveis é projetá-los.
O projeto é uma coisa incrível, deliciosa. Pensar em tudo que deve e pode ser acondicionado em um móvel, as dimensões dos objetos, livros, computador, monitor, impressora, abajour, barzinho (no móvel da sala) é tudo muito gostoso.
A estante da sala, embora talvez acabe desanimando meus leitores, tomou mais de um ano do meu tempo.
Naquele tempo eu não conhecia cola de contato, usava cola comum para prender o acabamento nas laterais das peças dos móveis.
Depois de colada era necessário prender com força e eu só sabia um jeito, amarrar com barbante. Horas amarrando e me cortando nas pontas do acabamento. Finalmente ficou pronto.
O móvel é bem resistente. Tem mais de 30 anos, já encarou duas viagens de 4.500 km, de são Paulo a Barreirinhas, MA, com direito a retorno. Montado e desmontado várias vezes, está resistindo até hoje.
A do quarto, feita antes, também demorou bastante. Levou tanto tempo a ser concluída que quando finalmente ficou pronta, já não cabia o computador inicial, do projeto. Eu o havia trocado por um maior que não encaixou.

Sobre projetos
A meu ver todo móvel precisa representar um desafio ou suprir uma grande necessidade.
A beleza não é prioritária, a menos que se trate de um trabalho escultural.
Se não, a funcionalidade deve ser o primeiro fundamento a ser respeitado.
Os móveis devem também respeitar a sua necessidade.
Um móvel necessário, útil e funcional é o primeiro passo para que seja construído.
Meu trabalho mais recente foi o galheteiro.
Era necessário, já que meus temperos viviam vagando pela cozinha.
Era útil, pelo mesmo motivo, eu passaria a encontrar com facilidade os potinhos.
Era funcional porque abrigaria também um toalheiro de papel.
E, era uma mão na roda porque eu tinha madeira sobrando da última estante que construí em substituição à do meu escritório.
O galheteiro é um móvel bastante simples e com alguns cuidados se torna mais simples ainda.
Por exemplo, as peças devem ter, sempre que possível, mesmas larguras e mesmos comprimentos.
No caso, as laterais tem 235mm x 130mm.
A base dos temperos tem 130mm por 235mm. (igualzinho às laterais)
O fundo tem 235mm x 100mm. Aproveitei o corte anterior.
E o suporte vazado dos temperos é a única peça que foge às medidas. Tem 245mm x 120mm.
Reparem que uso milímetros e não centímetros ou metros. Esse é o padrão da marcenaria.
Eu tinha o móvel na minha cabeça mas não sabia se era pequeno, grande, exagerado.
Então fiz um protótipo, que me possibilitou ter uma ideia melhor do resultado que buscava.
Depois de alguns cortes, finalmente obtive o produto final que, se não ficou perfeito, atendeu perfeitamente as expectativas.
Tenho pensado assim desde a minha primeira estante. Procuro orientar os cortes sempre de forma a ter a menor variação de medidas o possível.
Foi com esse espírito que nasceu a mais nova estante de casa, a do meu escritório.

Para esta estante, como eu já sabia exatamente o que acondicionaria nela, quais as minhas necessidades, foi um projeto bastante rápido, mas não menos satisfatório.
No desenvolvimento do projeto tomei com desafio aprender a usar o sketch Up, um programa de projeto de móveis sensacional.
Embora de alta complexidade, para aprender o feijão com arroz é bastante fácil e rápido.
Se for o caso e houver interesse posso montar um breve manualzinho introdutório que vai ajudar bastante.
Feito o projeto, parti para o desenvolvimento.
Pela ordem:

1 – Comprar madeira (saber a necessidade de folhas de MDF a comprar)
Um móvel, em regra, leva prateleiras e laterais de 15mm, portas de 18mm e fundo de 6mm.
Quando for projetar, sugiro que monte uma planilha com as medidas das peças. Há um programa no mercado que “lê” as peças e gera o plano de corte.
Com esse plano você fica sabendo quantas folhas terá que comprar e quanto gastará.
A compra da madeira representou uma outra surpresa. Há em São Paulo praticamente uma única loja que trabalha com uma gama razoável de folhas de MDF.
Além dessa, só em Santa Catarina encontrei outro fornecedor.
Pois acreditem. As madeiras, mais fitas de borda, mas transporte de Sta. Catarina a são Paulo, representou uma economia de 20% no preço, em comparação ao fornecedor de São Paulo.
Com duas outras vantagens. Em Sta Catarina compra-se a prazo, no cartão, em dez vezes sem juros enquanto aqui em São Paulo o preço era a vista (havia juros caso fosse no cartão).
E mais, o transporte entregou a mercadoria aqui em São Paulo, em 48 horas.
No fornecedor de São Paulo não havia no preço o custo do frete. Teria que ser contratado à parte.
A loja de Sta. Catarina é a MADVILLE Suprimentos para Móveis Ltda.Joinville Fone 3441-0000


2 – Não basta comprar a madeira. O verdadeiro trabalho é o corte e o acabamento. Pois aqui em São Paulo há uma loja (O Corte – fone 2638-0993) que corta a madeira com precisão absoluta e aplica o acabamento conforme o desejo do cliente. Isso também em 48 h.Lembram-se do fornecedor de madeira de são Paulo? Ele também faz esse trabalho. O problema é que seu preço é perto de 300% mais caro que o da loja O Corte.

3 – A montagem.
Essa não tem jeito, teve que ser feita por mim. Usei basicamente os parafusos do tipo minifix em todo o móvel. Somente o fundo foi fixado com parafusos pequenos.
Os parafusos minifix exigem gabarito. Existe o da Zinni, muito bom, mas muito caro. Pode-se “improvisar” um, por uma bagatela.
Para vários encaixes eu mesmo fiz gabaritos. É recomendável.

4 – A grande jogada.
Pronto o móvel, comparado o custo que tive com os preços cobrados no mercado, considerando a facilidade da montagem, a precisão dos cortes, o cuidado com identificação de peças, dá para pensar em uma espécie de profissionalização, em pequena escala.
Se houver interesse posso criar um manual com passo a passo da construção da estante, bem como o de dicas para uso do sketch Up.

Luciano Ricardo Rocha de Souza

e-mail: [email protected]

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