O cientista do samba

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn

Chorei, não procurei esconder, todos viram, fingiram pena de mim não precisava, ali onde eu chorei qualquer um chorava, dar a volta por cima que eu dei, quero ver quem dava.

Quem diria que um dos maiores compositores do Brasil foi um médico formado pela USP, doutor em Zoologia, nada mais nada menos, que pela Universidade de Harvard, professor do Colégio Bandeirantes, escritor, diretor do Museu de Zoologia da USP por 30 anos, idealizador da FAPESP e premiado pela Fundação Guggenheim, em Nova Iorque, em virtude de suas contribuições para o progresso da ciência. Pois é, esse faz-tudo se chama Paulo Vanzolini.

Assíduo frequentador da noite paulistana, observador nato como cientista que é, usou como inspiração as agruras de quem vive de, e sofre por, amor. Quem não conhece composições tais como Ronda, Volta por Cima, Amor de Trapo e Farrapo e Boca da Noite? Se ainda não conhece, sugiro ao leitor procurar no YouTube e se deliciar.

Difícil dizer se o Paulo contribuiu mais para a ciência ou para a música brasileira. Segundo o próprio, “música dá um trabalho danado para fazer”. Apesar de se considerar um bom compositor, sempre viu a música como uma atividade “apenas para descontrair com amigos”. Ao ser perguntado no programa Roda Viva em 2003 – TV Cultura, como conciliava ciência e música, ele respondeu, de forma simples e direta, como lhe era peculiar: “ninguém consegue fazer música 24 horas por dia, nem fazer pesquisa 24 horas por dia”.

Paulo nasceu em São Paulo, em 1924. Em 1951, compôs Ronda que por anos foi a música mais pedida nos bares de São Paulo e se transformou em hino da cidade. Anos mais tarde, Caetano Veloso comporia “Sampa”. “Sampa” tem quatorze compassos de “Ronda”, além de um verso da música. Cena de sangue na Avenida São João, “vira” só quando cruzo a Ipiranga e a Avenida São João. Caetano, questionado, disse que foi uma homenagem à Ronda, hino de São Paulo. Vanzolini recusou a homenagem e acusou o Caetano de plágio até o fim da vida.

Em 1959, compôs “Volta por Cima”, que, interpretado pelo Noite Ilustrada em 1963, explodiu nas rádios paulistanas. Virou até verbete de dicionário. (Escrevendo este texto, o Word me sugeriu substituir “dar a volta por cima” por “superar as dificuldades”).

Ao longo da carreira, compôs quase uma centena de músicas, metade delas foram reunidas, em 2003, num álbum de 4 volumes chamado “Acerto de Contas”. Todas elas interpretadas pelos maiores músicos do Brasil. Para quem gosta de samba, boêmia e aspectos simples do cotidiano paulistano vai se apaixonar por essas canções. É daqueles álbuns muito bem produzidos, da capa ao conteúdo, que imortaliza a criatividade do samba de São Paulo. Destaques para as interpretações de Cuitelinho, Boca da Noite, Ronda, Volta Por Cima, Falso Boêmio, Quando Eu For, Eu Vou Sem Pena, Amor de Trapo e Farrapo, Mulher Que Não Da Samba, Trato do Homem e Pedacinhos do Céu.

No campo da ciência Paulo fez muito. Sobre a pesquisa em Zoologia dizia “é a única coisa que sei fazer”. Vanzolini fez inúmeras expedições à Amazônia, descobriu espécies novas de répteis (pelo menos duas delas levam seu nome), aumentou o acervo de répteis do Museu de Zoologia da USP de 1,2 mil para 230 mil exemplares. Adaptou a Teoria dos Refúgios, junto com o geógrafo Aziz Ab’Saber e com o norte-americano Ernest Williams; refúgio foi o nome dado ao fenômeno detectado nas expedições de Vanzolini pela Amazônia, quando o clima chega ao extremo de liquidar com uma formação vegetal, reduzindo-a a pequenas porções. Assim formam-se espaços vazios no meio da mata fechada.  Criou a FAPESP que por muito tempo foi (e ainda é) a principal fonte de amparo e incentivo à pesquisa cientifica no país.

Paulo recebeu vários prêmios e condecorações, tanto no campo da arte, quanto no campo da ciência. Gostava de bichos, de estudar e de tomar cerveja em boteco barato (segundo ele mesmo). Morreu aos 89 anos, em São Paulo, seu anjo narrativo, seu cientista competente e seu idealista que sonhava com um país mais cientista e menos samba.

Você também pode gostar de: