Em defesa do Guia brasileiro de alimentação.

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Em defesa do GuiEm 20 gerações, somos as pessoas mais velhas, mais obesas, mais etilistas, mais tabagistas, com maior prevalência de câncer, as pessoas com os hábitos menos saudáveis, as pessoas que mais usam drogas (lícitas e ilícitas) e ao mesmo tempo somos a população com o maior acesso à informação e conhecimento da história. Segundo a Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico – Publicada em 25/07/2019 (Vigitel do Ministério da Saúde) o número de obesos no Brasil aumentou 67.8%entre 2006 e 2018.  

A alimentação, ou melhor, a qualidade da alimentação, contribui para a melhora ou piora de cada um dos fatos acima, e por isso, mais vez, escrevo sobre o Guia Alimentar para a População Brasileira.

Uma nota divulgada pelo Ministério da Agricultura no dia 16 desse mês criticou as recomendações do Guia Alimentar brasileiro, com afirmações um tanto quanto superficiais e infundadas. O ofício solita a urgente revisão do Guia e tenta negar as evidências científicas que atestam os malefícios provocados à saúde a partir do consumo de produtos ultraprocessados. Essa publicação alarmou instituições e pesquisadores não só no Brasil, mas em todo o mundo. Diversos manifestos foram escritos em resposta à nota técnica e em defesa do Guia Alimentar. Por exemplo, o Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens), da Universidade de São Paulo,  um dos centros de pesquisa que colaborou com a produção do Guia, contestou em nota oficial as críticas publicadas; um grupo de 33 cientistas estrangeiros enviou uma carta ao Ministério da Agricultura defendendo o Guia brasileiro e afirmando que a nota técnica não tem fundamentação válida, entre muitas outras argumentações  e muitos  abaixo-assinados criados.

Ressalto as colocações que, na minha opinião, demonstram maior falta de fundamentos e de cuidados com a saúde da população.

A regra de ouro: “Prefira sempre alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culinárias a alimentos ultraprocessados” é criticada e uma nova regra é sugerida: “A regra de oura talvez devesse ser: harmonize uma combinação diversificada de porções moderadas de cada alimento escolhido para atender as necessidades nutricionais, manter o peso corporal recomendado e os indicadores de saúde adequados”. Com erro de digitação mesmo (oura), confusa e bastante superficial: fala muito e não diz nada.

O documento ainda diz: “que uma alimentação que utiliza “sempre alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culinárias” é perigosa. O Guia não orienta que o uso apenas de alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culinárias em consumo excessivo está associado a doenças do coração, obesidade e outras doenças crônicas, de forma semelhante as outras categorias de alimentos, várias vezes colocadas neste documento”.  Também coloca que “Pesquisas demonstram que não existem evidências de que o valor nutricional e a saudabilidade de um alimento estejam relacionados aos níveis de processamento”.

Os trechos citados acima ignoram os mais de 400 estudos científicos nacionais e internacionais indexados na base PubMed que utilizaram a classificação NOVA e o conceito de alimentos ultraprocessados.  O número crescente de pessoas acometidas por doenças crônicas não transmissíveis (doenças cardiovasculares, diabetes, hipertensão, obesidade, neoplasias) associadas ao consumo de alimentos e bebidas ultraprocessados, (ricos em açúcar, sal, óleos e gorduras) é uma realidade mundial. As doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) em 2015 foram responsáveis por 51.6% do total de óbitos na população brasileira de 30 a 69 anos. E em tempos de pandemia, cabe lembrar que atualmente as DCNT estão associadas à gravidade e letalidade da Covid-19, o que reforça a importância do cuidado com a qualidade da alimentação.

A nota técnica do Ministério da Agricultura conclui que “Em que pese a necessidade de uma ampla revisão, a fim de melhor classificar o Guia Alimentar brasileiro entre os demais no planeta (atualmente o Guia brasileiro é considerado um dos piores), a recomendação mais forte nesse momento é a imediata retirada das menções a classificação NOVA no atual guia alimentar e das menções equivocadas, preconceituosas e pseudocientíficas sobre os produtos de origem animal”.

Conclusão essa que não apresenta nenhuma referência científica e destoa das opiniões da FAO, OMS e UNICEF, que consideram o Guia Alimentar do Brasil um exemplo a ser seguido. E não leva em consideração o estudo publicado em 2019 pela revista Frontiers in Sustainable Food Systems, que elegeu o guia alimentar brasileiro como o que melhor atendia a critérios previamente estipulados quanto à promoção da saúde humana, do meio ambiente, da economia e da vida política e sociocultural (Ahmed etl 2019).

Como nutricionista defendo que é fundamental garantir a saúde e a alimentação de qualidade, é preciso garantir o direito da população à informação de qualidade, livre de conflito de interesses e com base na ciência.

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