O Reencontro

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Serginho já tinha dado duas voltas em cada andar do Shopping Ibirapuera. Viera neste domingo acompanhar a esposa numas compras e conhecendo ela como ele a conhecia desde longa data, sabia que esta missão iria demorar e demorar muito.  Serginho a amava muito e não perdia oportunidade de demonstrar seu carinho e dedicação para com ela. Estava casado desde o final da juventude e era feliz por tê-la ao seu lado.

          Nestas compras, ele ficou junto dela uns 40 minutos na loja Arezzo vendo sapatos e mais sapatos, depois mais uns 50 minutos na loja Le Lis Blanc vendo intermináveis coleções de roupas femininas, depois mais meia hora na loja Rubinela onde ela tirou da prateleira quase todo estoque de vestidos e roupas para mulher. Neste exato momento ela está na loja da Dudalina, onde deve demorar mais do que nas anteriores, e ele Serginho enfadado veio até a Praça da Alimentação, negociando com ela após algumas desculpas de que precisava tomar conta dos pacotes já comprados. Combinaram de se encontrar nesta região do Shopping antes do regresso para casa. 

          Pediu um milk shake de morango, seu preferido desde a infância, e tomava sentado numa mesinha isolada ao fundo do salão. Sorvia aos poucos com um canudinho de papel, gostava de ouvir o barulhinho vindo do fundo do copo, tal como ainda era criança. Além do mais, não adiantava ter pressa — a esposa ia demorar ainda um bom tempo.

          Já estava terminando o milk shake quando nota ao longe no corredor do Shopping um personagem que lhe chamou a atenção. Parecia alguém conhecido, pois aquela fisionomia não era estranha. Será que era quem ele estava pensando? Esperou que passasse mais perto, agora sim tinha quase certeza de que era um antigo colega de estudos, passeios e de trabalho naquela empresa multinacional americana. Não titubeou, chamando-o pelo nome.

          — Ei Edmundo! Que faz por aqui?

          O colega não o reconhece de pronto, pois Serginho está alguns quilos acima do peso ideal, muitos de seus cabelos já foram para o ralo do chuveiro e aqueles que teimaram em ficar parecem mais um campo nevado. Mas suas rugas ainda não escondem a fisionomia anterior.

          — Você é o Sérgio? Ah! Sim é o Serginho. Lembro-me de você, mas rapaz, como faz tempo que não nos vemos! Acho que a última foi numa daquelas reuniões anuais, há vários anos atrás.

          — Isso mesmo Edmundo, acho que não te via já faz uns vinte anos ou mais. Como você está? E a família? Tudo Bem?

          — Tudo está bem, meu amigo, tudo normal comigo e com você?

          — Tudo corre bem, graças a Deus! Minha esposa está fazendo compras aqui no shopping e nesse momento estou esperando o retorno dela.

          Edmundo senta-se e os dois antigos colegas conversam e revivem cenas do passado.

          — Como o tempo passa, hein Serginho, parece que ainda foi ontem. Lá atrás nós dois ainda jovens aproveitamos cada oportunidade que surgia e “íamos pra cabeça”, como se dizia na época. Nada escapava, lembra-se? Há fatos que se tornaram famosos, você se recorda? Éramos ambos tidos como heróis entre nossos colegas. Acho que só perdíamos para um colega, que agora não recordo do nome dele. Ah! Recordo agora. Acho que se chamava Anísio. Lembra-se dele?

          — Se lembro? Lembro-me sim! Aquelas aventuras são inesquecíveis, mas tudo ficou lá no passado, hoje somos dois senhores casados e responsáveis, como sempre fomos, não é mesmo?

          — Claro Serginho, todos nós precisamos viver cada etapa de nossas vidas com intensidade e responsabilidade. Eu, por exemplo, Casei-me assim como você, tive filhos e tive uma boa vida profissional. O casamento terminou faz alguns anos e os filhos moram com a mãe, mas já estão adultos e hoje cada um cuida de sua própria vida.

          — Isso mesmo Edmundo, a vida tem suas variantes e precisamos sempre nos adaptar às novas situações. Muitos colegas meus também se divorciaram e partiram para outros relacionamentos.

          — Eu também, Serginho, fiquei só alguns poucos anos, mas já faz quatro ou cinco anos que tenho uma nova companhia. Nós nos damos muito bem, vivemos em paz, nos curtimos um ao outro e aquilo que no inicio parecia ser mais uma aventura, aos poucos vai se tornando um amor que complementa um ao outro. Estou feliz como nunca havia imaginado.

          — Que bom Edmundo, todos nós não nascemos para viver isolados e um relacionamento é sempre bom, ainda mais quando o amor acontece, como parece ser o seu caso. Parabéns meu amigo, seja feliz!

          — Obrigado Serginho, isso que você está dizendo é muito importante de ser ouvido, principalmente vindo de você. A propósito, estamos também os dois neste Shopping e ficamos de nos encontrar nesta Praça de Alimentação antes de voltar para nosso apartamento.

— Bacana Edmundo, então será uma oportunidade de conhecer sua cara-metade.

Nesse momento um cavalheiro se aproxima da mesa onde conversam Edmundo e Serginho e discretamente se dirige a Edmundo nos seguintes termos:

— Vamos?

De imediato Edmundo se levanta e diz:

— Serginho, eu apresento meu marido Everaldo de quem estava falando há pouco.

Serginho dá a mão ao homem à sua frente, um moreno alto espadaúdo, sarado, tatuado e exibindo uma impecável barba aparada com esmero. A partir deste momento a conversa se torna protocolar e politicamente correta. Em seguida, Edmundo e Everaldo partem de mãos dadas na maior naturalidade possível.

Serginho tenta se beliscar para ver se estava ou não sonhando.

Perguntava a si mesmo: Isto é um sonho ou realidade? E tinha de acontecer justo com o Edmundo?

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