Grupo de risco para Covid-19

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De todas as coisas que vivenciei ao largo de 76 anos bem vividos, nenhuma me incomodou mais do que me ver rotulado de integrante do “Grupo de Risco para o Coronavírus”…  Meu amigo, taí um negócio chato, amedrontador, excludente e desagradável, para falar o mínimo.

Os sentimentos que se formam são de um incômodo permanente. Então sou um “velho irremediável”? Logo eu que ainda me sinto inteirão, ainda no batente, animado a criar coisas, fazer coisas… desde que um bom Consultor Organizacional é como os bons vinhos, quanto mais antigo, melhor, dada a maturidade e experiência acumuladas.

Voltando ao tema: serei eu um “velho com enfermidades problemáticas”, o que caracterizaria o aumento dos riscos…? Aí começa o terrorismo! No meu caso tenho uma incômoda asma alérgica que me acomete com tosse e noites mal dormidas, nas frentes frias de junho, julho, agosto, e se agrava com  poeira, fumaça, odores fortes, poluição, inversões térmicas e… moro em São Paulo! Sacou o medo?

Isso tudo é muito injusto com os que passamos dos sessenta. A máquina se estraga mesmo, com manutenção e, principalmente, sem manutenção. As extravagâncias da juventude cobram preço e não perdoam. O dano do mau uso do corpo se faz presente… mas, ser “grupo de risco” é o fim da picada…

Mesmo assim não teria feito uma seresta a menos, por nada. Aquele delírio etílico, o enlevo das canções, a lua cheia dourando o mar, os violões derramando notas musicais até a hora da vaia no sol (que não deveria nascer, trazendo o dia…). Ah! cara, era o sal da vida… Isso não pode ter comprometido fisicamente tanto se deu inesquecíveis alegrias. Logo, é injusto, de toda forma, soltarem por aí um covid-19 desses para chacoalhar com os passados nos anos, os tais “velhinhos”, boêmios ou não.

Agora olhe só como falam de nós na mídia: “cuidar dos nossos velhos”, “isolar os velhos para diminuir a letalidade”, “aqueles de idade superior aos sessenta anos”. É um cuidado suspeitoso, mais para preconceito e rejeição do que para atenções afetivas…

E o sono, ou melhor, a insônia povoada do medo vigilante da suprema injustiça para os que sobreviverem: um dia constatar que suas economias de anos, de uma existência inteira de trabalho sério e honesto, que lhe garantiriam um final de vida digno,  poderão ter “derretido” (no jargão cruel do Mercado Financeiro)… Não é justo!

Está muito chato essa de ficar trancado “olhando o tempo passar”, gastando os dias poucos que restam aos sexagenários e mais, sem nada fazer, na contemplação passiva dos fatos que se sucedem numa rotina repetitiva triste e desanimadora… Tá bom isso não! Urge fazer alguma coisa, mas… o que?!

Tenho buscado históricos amigos queridos, pela Internet. Gente da melhor qualidade humana que foram involuntariamente negligenciados pela distância, mudança de focos e de espaços. São “reencontros” ruidosos, concluídos com promessas de um cafezinho, depois, se “escaparmos”… olha que coisa lamentável…

Troco de distração. Agora é ler algo útil ou interessante… Isso me enriqueceu e ajudou muito, mas, chega! Escrever coisa séria e escrever à toa, como faço agora. Nunca fui bom escrevinhador mas até fiz uns Artigos publicados aqui e alhures… De verdade, sempre fui de “soltar a voz nas estradas” (nas salas de treinamento, nos auditórios), ao vivo e a cores, olho no olho, e só tenho feito isso online, sem o contato humano tão essencial.

Daí vou assistindo bons filmes na Netflix, criando novas técnicas para abordagens remotas, projetos que podem ser úteis nesta nova dimensão, ficando à espera de que Deus dê bom tempo para voltar à tona da real, natural e gostosa existência, que esse “mergulho” já começa a demorar muito e ainda nem sabemos, exatamente, quando termina. Sorte que ainda tenho uma boa reserva de paciência para queimar, e entregar os pontos ainda é hipótese muito  distante para um nordestino teimoso, apaixonado pela vida.

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